domingo, 10 de setembro de 2006

A piolheira

Consta-se que certo dia D. Carlos, pela graça de Deus Rei de Portugal, se referiu ao seu país como sendo a piolheira. Não raras vezes o artista, o cientista internacionalmente reconhecido, o diplomata, o desportista, o poliglota, o exímio atirador, achou que não teve em sorte um povo à sua altura. Logo a ele, que resultava do cruzamento de quase todas as casas reais da Europa, lhe havia de calhar a coroa que nenhum dos seus primos (como ele coroados) ambicionava.
Pobre sorte a do homem.
Pois é, agora que sabemos que D. Carlos um dia não teve tento na língua, vamos aproveitar a malhá-lo: peneirento…
Porém, convenhamos, D. Carlos não foi o único a ter má impressão de Portugal. Basta olharmos um pouco para vermos muito boa gente – menos conhecida, é certo – que passa a vida a zurzir no seu país e nos seus concidadãos. Em termos práticos, tais situações configuram uma baixa auto-estima colectiva.
Depois, tal como provavelmente se passou com D. Carlos nas tertúlias com os primos, quando os estrangeiros dizem mal de nós, pensamos que só temos uma safa: defendermo-nos? Nem pensar! A solução é alinhar no coro de maledicência.
No entanto, curiosamente, não são os estrangeiros que nos conhecem, por cá trabalharem, que dizem mal. São aqueles que nem sequer sabem bem onde fica este país. Os outros surpreendem-se primeiro (quando cá chegam já vêm envenenados) e depois surpreendem-nos na defesa efectiva das nossas virtudes. Há cinco séculos inventámos o astrolábio e fomos pioneiros na exploração dos mares; agora temos outros motivos de orgulho, em situações que a generalidade das pessoas desconhece.
Por exemplo, há anos constatei um pormenor curioso: quando já havia Multibanco em Vila Nova de Milfontes e era para nós trivial usá-lo, corri Londres a pé, durante um dia inteiro, sem encontrar uma única caixa automática. Quando finalmente encontrei uma, (no Royal Bank of Scotland, nunca mais me esqueci), pensei que bastava procurar agências daquele banco para ter o problema resolvido. Puro engano. Fiquei a saber que aquela caixa (que já por acaso encontrei) era uma das poucas que existiam a título experimental.
A Via Verde, os cartões pré-pagos (quer em cabines públicas quer em telemóveis), são exemplos de soluções concebidas em Portugal e, nuns casos, agora exportadas e, noutros, meramente copiadas lá fora, porque não soubemos fazer valer a nossa originalidade. A nossa rede de fibra óptica permite-nos ter uma das melhores ligações por cabo do mundo. Utilizamos o home-banking mais e melhor que lá fora, e apostamos no EuroMilhões sem sair de casa.
Criativos e inovadores, somos capazes. Vamos lá levantar o astral…
(Publicado em 02 de Junho de 2006 no Jornal Brados do Alentejo
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)

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