terça-feira, 26 de dezembro de 2006

D. Branquinha

Alguns entendidos – ou, supostamente entendidos – dizem que toda a publicidade é boa… mesmo a má. Eu, neste como noutros domínios, não tenho assim tanta certeza. Certo, certo, foi que Estremoz voltou a ser notícia nos órgãos de comunicação social de expressão nacional, pelo que, de acordo com aquela acepção, não interessa muito se foi por boas ou más razões.
Ao que parece Estremoz foi palco da actuação de uma grande conhecedora da natureza e do comportamento humano, a qual fez uso de tal ciência em benefício próprio. A D. Branquinha – era assim que era conhecida – teve o dom de pôr as pessoas a sonhar e, ainda melhor, de fazê-las lutar pelos seus sonhos, com abnegação e espírito de sacrifício. Porque foi uma portuguesa ilustre, que mobilizou energias e mexeu com os anseios mais íntimos daqueles que a conheceram, talvez não fosse descabida a ideia de homenagear o seu nome numa rua de Estremoz. Porque não a rua onde era “proprietária”? Santa Catarina nem sequer era portuguesa, portanto não passou por lá; 31 de Janeiro – data que comemora a primeira tentativa de implantação do regime republicano – foi um facto ocorrido no Porto em 1891; Oliveira Salazar, assim se chamava a dita rua no ano em que nela nasci, foi apenas um ditador. Pelo que eu percebo da coisa, D. Branquinha mexeu mais com Estremoz que Salazar, que os republicanos do Porto ou que a padroeira da Europa.
Aliás, os seguidores de D. Branquinha passavam o tempo a querer fazer dela uma santa… por isso é que apesar de a tratarem nas palminhas estavam desejosos que ela morresse… (até porque não se canonizam santos em vida).
Enfim, agora a sério. Todos os grandes aldrabões – categoria em que se inseria a D. Branquinha (portanto, esqueçam isso de lhe dar uma rua com o seu nome) – vivem da avidez das suas vítimas. Quanto mais gananciosas melhor. Basta acenar-lhes com a hipótese de ficarem mais ricos de um momento para o outro e elas cegam imediatamente. Perdem clarividência na avaliação dos pequenos sinais que denunciariam o embuste. Porém, é a sua gula pela fortuna mirabolante que se avizinha que constitui a própria cortina de fumo que oculta as intenções dos autores da trapaça. Neste contexto, todos os sacrifícios que lhe são pedidos se revelam pequenos perante a maravilha do que aí vem. E assim vão caindo os patos. (Deve ter sido hilariante presenciar a cena em que, um a um, se foram revelando os “únicos” herdeiros de D. Branquinha.)
Se bem que cada um pense o contrário, é mais fácil cair em situações destas do que se imagina. Aliás, passamos a vida a cair em situações que, apesar de diferentes, são análogas. As pessoas acreditam no que querem acreditar, e, quem não tiver escrúpulos, só tem que fazer o adequado uso disso… nos nossos empregos, na política, etc.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" em 29 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Apologia de Sócrates

Há cerca de 2400 anos foi redigido um texto, escrito por um seguidor de Sócrates, com o mesmo título da crónica desta quinzena. A Apologia de Sócrates descreve os últimos dias da vida de uma das maiores personagens da História da humanidade e da filosofia, enaltecendo a sua coragem e o seu comportamento no julgamento de que foi alvo por parte da cidade de Atenas. Acusado de corromper a juventude contra a religião e as leis da cidade, Sócrates viria a ser condenado à morte – pela ingestão de cicuta (um veneno) – num tribunal com mais de 500 juízes, dos quais pouco mais de metade se pronunciaram favoravelmente às teses da acusação.
Esclareça‑se, todavia, que a minha Apologia de Sócrates pouco tem que ver com aquela que foi escrita (se bem que… um pouco romanceada) por outro grande vulto da filosofia: Platão. Desde logo, porque o Sócrates a que me refiro não é o mesmo. É outro bem mais conhecido dos portugueses. Por outro lado, ao contrário da apologia de Platão, a minha não revela idêntica devoção pelo personagem.
Mas porque razão merece Sócrates esta apologia, demais a mais provinda de alguém que não votou nele? A razão é simples: Sócrates rompeu em definitivo com a tradição socialista da não governação, de adiar a resolução dos problemas, de fingir que faz sem fazer, de fingir que decide sem decidir. Não vou deixar elogios às políticas do governo, nem sequer vou discuti‑las na substância, agora que o povo português ficou surpreendido com este estilo de governação por parte de um primeiro-ministro socialista, disso não há a mínima dúvida. Provavelmente, Sócrates teve outra escola… talvez isso explique tudo. A tradição do “Socialismo de Caviar” é bem diferente. Dizem‑se defensores dos mais desprotegidos mas representam, afinal, uma burguesia urbana bem instalada na hierarquia social que, tradicionalmente, se protege a si própria mais do que qualquer outra coisa. Evidentemente, existem socialistas muito diferentes entre si, uns laicos, de raiz jacobina e maçónica, outros cristãos professos e praticantes, mas que em comum tinham sempre o não fazerem nada ou não fazerem nada de jeito. O que importava eram os votos, os amigos, os jeitos e as cumplicidades. O Povo e o País ficavam, naturalmente, no fim da fila.
Esta é a razão porque faço esta minha apologia a Sócrates. Foi o primeiro socialista que conseguiu cortar a direito, que conseguiu decidir mesmo quando a opinião pública não é favorável. Foi e é, o primeiro socialista português que revelou coragem política.
O facto de reconhecer qualidades a Sócrates não faz de mim um seu seguidor. Em bom rigor, detesto o seu carácter, o seu calculismo pragmático, a sua atitude de mentir para chegar ao poder, a sua falta de escrúpulos em que os fins sempre parecem justificar os meios.
Mas respeito a determinação.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 15 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

sábado, 2 de dezembro de 2006

Autoavaliação

“A mesma burra não me dá dois coices!” Esta é uma expressão popular a que recorremos quando pretendemos pôr em evidência a nossa capacidade de aprender com os próprios erros. Quem a usa, revela várias virtudes: sensatez (porque se dispôs a avaliar as suas acções), humildade (porque reconhece que errou), e determinação (por estar empenhado em não voltar a errar da mesma forma).
Portanto, a autoavaliação é, reconhecidamente, um exercício útil. Ainda assim, a autoavaliação não dispensa a avaliação externa, a qual complementa a primeira. Confrontando ambas é possível determinar onde é que a carga emocional retirou clarividência aos envolvidos nas acções avaliadas. Pode não ser bom para afagar o Ego, mas é, sem margem para qualquer dúvida, necessário (em especial, para corrigir aquilo que estiver menos bem).
Bom, chegou o momento de justificar a razão pela qual estou para aqui com esta conversa. Foi esta: assisti recentemente, na nossa praça, a um monólogo travestido de reclamação e resposta, no qual o reclamante e o respondente são, na prática, uma e a mesma entidade. Atenção! Não se tratou de um solilóquio (monólogo dirigido ao próprio orador). Foi antes uma ridícula encenação (patética, mesmo), dirigida ao público em geral sob a forma de aparente exercício de autoavaliação.
De autoavaliação não teve nada. De facto, não foi sensato (foi autismo), não foi humilde (foi narcisismo mórbido) e, finalmente, não revelou qualquer determinação em corrigir os próprios erros (os quais, aliás, nem sequer foram assumidos). Pelo contrário, quer a pretensa reclamação quer a fantasiosa resposta tiveram por única intenção desviar as atenções das avaliações externas efectuadas pelas diferentes forças políticas à acção do executivo socialista no município de Estremoz.
De acordo com a autoavaliação do PS vivemos no melhor dos mundos. Comovem‑se com uma mera reposição de calçada ou com a plantação de meia dúzia de árvores e tudo quanto não estiver alinhado com este paraíso na Terra é mera maledicência. Renega‑se todo o passado autárquico promovido pela CDU, persegue‑se inclusivamente (através de auditorias circunscritas a 31 de Outubro de 2005), mas ao mesmo tempo apropria‑se abusivamente de trabalhos antes desenvolvidos (Carta Educativa) e copia a prática de contratar empréstimos para pagar dívidas (cuja génese é de duvidosa legalidade, embora assumidas pelo actual executivo).Enfim, até podiam discordar (estavam no seu direito), agora fantasiar através de encenações? Foi uma oportunidade perdida para restaurar a confiança dos estremocenses. Estremoz precisa e quer que o PS execute o seu mandato no mínimo melhor que o anterior executivo. Não precisa dos antigos melodramas (variedade teatral que combinava a dramatização com canto e música instrumental).
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 01 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

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