quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Avaliação de desempenho: novas tendências


Muito se tem falado e escrito sobre avaliação de desempenho. Eu próprio já por várias vezes me referi a este tema nesta coluna e, apesar disso, hoje volto a fazê-lo, se bem que agora numa perspectiva de abordagem ligeiramente diferente das anteriores.
Começo por referir uma evidência (que quase parece despropositada): este tema há muito que é estudado pelos especialistas em comportamento organizacional. Acrescento agora que, tradicionalmente, estes referem que a avaliação é, de todas, a tarefa mais delicada para as chefias. Finalmente, refiro que são cada vez mais os autores que, ao contrário dos anteriores, entendem que não tem de ser necessariamente assim e, mais, que até é desaconselhado que assim seja. Estas são as novas tendências na avaliação de desempenho e são elas que constituem o tema central da presente crónica.
No desenvolvimento desta óptica frise-se que uma avaliação objectiva está ligada a indicadores de desempenho igualmente objectivos, sendo estes últimos os que podem ser medidos e verificados de forma independente. Em termos práticos isto significa que o Avaliado A obtém a mesma classificação quer o avaliador seja o fulano Alfa ou beltrano Beta. Isto é o que acontece quando, exemplificando, (1) se mede o número de peças (que passaram com sucesso o controlo de qualidade) produzidas por um operário; ou (2) se analisam os resultados de um inquérito de satisfação aos utentes de um serviço público. No primeiro caso, estamos perante um indicador de produtividade intrinsecamente objectivo; no segundo, estamos perante um indicador de apreciação subjectiva, porém, adquirindo objectividade pela opinião plural de múltiplos utentes. Portanto, em qualquer dos casos, a avaliação decorre da análise e interpretação dos indicadores de desempenho, podendo tais tarefas serem realizadas interna ou externamente à organização.
Apesar do risco de discricionariedade de que podem enfermar, as avaliações produzidas pelas chefias continuam a ser necessárias. O que não podem é constituir a única forma de avaliação. Sendo desenvolvidas internamente nas organizações, detêm a virtude de percepcionarem e contextualizarem melhor as circunstâncias particulares em que decorre a actividade desenvolvida. O importante é criar condições para que não haja "filhos e enteados" na avaliação, nomeadamente avaliando os avaliadores (as chefias) não só pelos seus próprios desempenhos como pelos dos seus subordinados. Quando tal acontece, os favorecimentos pessoais dos menos capazes e os "ódios de estimação" pelos irreverentes (mas válidos) tendem a esbater-se, já que tais práticas acabam, em última instância, por penalizar os próprios avaliadores.

Nota (adicionada em 24Set2011)
Em relação ao teor do último parágrafo acrescentaria o seguinte:
É igualmente importante que os avaliadores sejam avaliados pelos próprios avaliados. Esta avaliação em duplo sentido também contribui (sem resolver) para minimizar males maiores.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Está difícil

As primeiras celebrações de aniversário das crianças são, fundamentalmente, festas dos pais e dos seus amigos. Porém, mais tarde, já em idade escolar, os pequenotes já têm os seus próprios amigos, pelo que as festinhas organizadas pelos pais nem sempre correm de acordo com o esperado. Em "bando" as crianças ganham uma dinâmica própria em que se torna difícil mantê-las sentadas e sossegadas, porque ora riem ora gritam, porque se agarram e se derrubam, quando não estão quase a espetar um garfo num olho. Pois é, por vezes as coisas quase ficam fora de controlo, deixando os adultos com os nervos em franja e, alguns deles, a jurarem que "nunca mais!".

Está visto: ser pai ou mãe é uma tarefa nem sempre fácil.

Alguns anos mais tarde surgem outro tipo de dificuldades. Uns querem piercings, outros querem tatuagens. Alguns só querem roupas XPTO, outros (quando não os mesmos) querem mais dinheiro para os seus gastos ou então querem chegar a casa às 6 da matina. Alguns descobrem ao espelho defeitos anatómicos que ninguém imagina existirem. Por vezes não comem, enquanto outros querem consumir aditivos para ficarem mais musculados. Frequentemente não sabem o querem ser na vida, nem revelam interesse por nada de útil aos olhos dos pais. Quem não sabe para onde vai também dificilmente encontra motivação para estudar, quando há tantas outras coisas mais gratificantes, menos penosas e mais imediatas. Perante tais desalinhamentos de pontos de vista, é frequente entre pais e filhos cavarem-se silêncios perturbadores ou discussões acesas. Por vezes, ambas as coisas em alternância.

Está visto: é difícil ser adolescente e, já o sabíamos, é cada vez mais difícil ser pai ou mãe.

Acontece que há pessoas que por força da sua profissão se vêem confrontados com situações similares às festas de aniversário antes referidas. O problema é que não realizam uma festinha de vez em quando. Vivem "em festa" todos os dias e mais do que uma vez por dia. Mas fazem mais: não só encaram a rebeldia das crianças em grupo como algo normal como até são capazes de lhes conduzir o comportamento no sentido desejado, sentando-os quando têm que estar sentados, fazendo-os comer na hora de se alimentarem ou, abreviando, organizando-lhes jogos e outras diversões para que elas dêem vazão à sua interminável energia.

Está visto: é difícil ser educador mas, até há bem pouco tempo, ainda havia quem o fizesse com alegria.

Acontece também que há pessoas que por força da sua profissão têm de lidar diariamente não com um ou dois mas com mais de vinte jovens em simultâneo, que se procuram a si próprios e buscam um sentido para as suas vidas. Há quem consiga motivá-los e fazer com que aprendam e, até há bem pouco tempo, havia quem o fizesse com alegria.

Eram os professores.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Salário mínimo

A calendarização do crescimento do salário mínimo deriva de acordos celebrados no âmbito da Concertação Social. Portanto, os méritos – ou a ausência deles – que possam ser atribuídos à fixação em 450 euros da retribuição mínima da prestação de trabalho não resultam de uma mera decisão administrativa do Governo. Antes, já os representantes dos empregadores (associações empresariais) e os representantes dos trabalhadores por conta de outrem (sindicatos), em conjunto com os representantes do Estado (Governo), havia acordado tal aumento, assim como já está previamente definido que em 2010, independentemente de quem nessa altura esteja no Governo, o salário mínimo nacional chegue aos 500 euros.

Embora, num plano geral, sejam compreensíveis alguns dos argumentos aventados relativamente à pertinência de um aumento de 5,6% num cenário de crescimento económico praticamente nulo, a verdade é que no caso concreto do salário mínimo não só tais argumentos não colhem, como são mesmo verdadeiramente desajustados. O verdadeiro milagre em Portugal é haver quem consiga sobreviver com o salário mínimo. Tais pessoas não se podem permitir a qualquer tipo de gasto que de alguma forma possa gerar pressões inflacionistas, já que vivem no limiar da pobreza. Mais 24 euros por mês nem sequer permitem trocar a mortadela por fiambre da pá em promoção. No máximo, o melhor que podemos esperar, é que as pessoas que subsistem com o salário mínimo fiquem cerca de 3% menos pobres. Nada mais.

Questão completamente diferente será o debate sobre se o salário mínimo deve continuar a ser o principal instrumento de combate à exclusão e de redistribuição do rendimento. É bom que se saiba que o salário mínimo também gera efeitos perversos, diametralmente opostos aos objectivos que supostamente persegue, nomeadamente nivelando por baixo os rendimentos de trabalhadores habilitados e, noutros casos, atirando para o desemprego os menos habilitados. É bom que se saiba que o salário mínimo institui tacitamente um cartel legalmente tolerado entre alguns empregadores, os quais não têm de concorrer entre si oferecendo melhores remunerações ou melhores condições de trabalho.

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