quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A água: a escassez na abundância

Quando em 1980 entrei para a Universidade de Évora, um professor de Ecologia recomendou-me o livro de Zózimo Castro Rego, intitulado "A água: a escassez na abundância". Desta referência apenas aproveito o título, porquanto ele descreve perfeitamente a actual situação vivida em Estremoz.

Das actuais fontes de abastecimento – Álamo, Chocas, Cerca do Convento, Pedreira de Santo António e Sátiro – é possível bombear para os depósitos cerca de 150 m3 (que é como quem diz: 150 mil litros) de água por hora. É muita água. O problema é que deste caudal ninguém sabe ao certo que fracção do mesmo chega aos depósitos. Primeiro, porque o sistema de telegestão implementado no mandato autárquico anterior deixou de contar com a necessária manutenção, política que tornou aquele importante investimento em algo inútil num curto espaço de tempo. Neste momento só se sabe que há perdas nas condutas adutoras quando a água jorra à superfície. Depois, também não se sabe quanta água se perde entre os depósitos e as casas dos munícipes. Apenas se sabe que é muita. Cruzando os valores facturados aos munícipes e conjugando com as respectivas tarifas constata-se que apenas uma pequena fracção da água extraída das captações chega ao seu destino.

Fica-se com a sensação que o executivo municipal repousou no facto de ter aderido ao sistema multimunicipal das Águas do Centro Alentejo. Pensou que tinha o problema resolvido. A verdade é que aquela empresa ainda não tomou posse efectiva da gestão do abastecimento em alta. Nem sequer passou ainda da fase de estudos. Entretanto, a CME negligenciou o aprovisionamento de materiais e, mais recentemente, já nem sequer está a fazer a manutenção dos contadores. Em boa verdade, apenas foi eficaz a subir as tarifas da água, tornando-a mais cara para aqueles que efectivamente pagam a que consomem. Quanto aos restantes, se antes só pagavam o aluguer do contador, agora já nem isso.

Estremoz não é propriamente uma cidade flutuante mas quase. O sistema aquífero de Estremoz – que tem uma extensão de 45 Km (entre Cano e Alandroal) – constitui um grande lago subterrâneo que esteve na origem da imensa jazida de mármore que caracteriza a região. Água não falta. Pode estar a 75 ou 80 metros de profundidade, mas existe. O que não há mesmo é sensibilidade do executivo para gerir tal recurso. Tudo fica esclarecido se referirmos que apenas perguntaram aos serviços o que se passava com a água quando cá veio a RTP.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A queda das máscaras

Nos bailes de máscaras medievais, damas e cavalheiros, a coberto do anonimato, permitiam-se dar vazão aos instintos reprimidos pelas regras de conduta social. Sob a capa da fantasia e de uma falsa inocência, as extravagâncias eram admitidas e as infracções toleradas. A queda das máscaras era, por isso, um momento ansiado por alguns e, ao mesmo tempo, temido por quase todos. Afinal, era sob as máscaras que se escondia a verdadeira natureza das pessoas.

De regresso à actualidade constatamos que esta teatralização da vida se mantém imutável ao longo dos séculos… apenas os cenários mudam. Por exemplo, as relações institucionais entre a Presidência da República e o Governo têm sido palco onde, não raras vezes, a hipocrisia actua. Pela frente e publicamente tudo são cortesias e salamaleques. Porém, nos bastidores as picardias entre os actores não só existem como chegam até a escapar-se para a zona audível do grande público. Apanhados em falso – que é como quem diz, caídas as máscaras – a encenação continua, seja por adaptação do guião seja pela enorme capacidade de improvisação dos artistas.

Agora que já sabemos que existe tensão entre Cavaco e Sócrates, o público de fãs divide-se pelos respectivos ídolos. Afinal quem tem razão? Se me for permitida uma opinião, essa não é a questão mais relevante. Cavaco e Sócrates terão, cada um, as suas razões. Tal como noutros cenários e com outros protagonistas – entre Eanes e Soares, entre Soares e Cavaco ou entre Sampaio e Santana – a ideia que vai ganhando perenidade é de que algo não funciona bem na nossa arquitectura constitucional.

Diz o povo e com razão que "nada mais perturba quem trabalha que a presença de quem nada faz". Ora, o nosso sistema semi-presidencialista não só permite isto como até pior. Permite, por exemplo, que alguém tenha poder para dizer mal sem ter a responsabilidade de fazer melhor. Absurdo. Será que ninguém acha estranho que, historicamente, o Presidente da República tenha sempre maior popularidade que o Primeiro-Ministro? Pois pudera, fácil é dizer que "há mais vida para além do deficit" ou dizer que o povo tem "direito à indignação"; difícil é resolver os problemas concretos dos portugueses. Será que somos tão parvos que precisamos de alguém para nos dizer que há problemas? Para depois se fazer de nosso amiguinho e dizer-nos que está solidário connosco? Eu penso que não.

O semi-presidencialismo equivale, na prática, a uma monarquia constitucional mitigada. Permite um endeusamento do Presidente da República tal como antes se queria fazer crer que o Rei tinha uma legitimidade divina. Dispenso ambas. Lideranças bicéfalas são, por regra, contraproducentes.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Larga que é ladrão!


A tradição já não é o que era. Aquele ladrão de antigamente que actuava desarmado e cujo propósito se cingia a apropriar-se dos bens alheios está a desaparecer. Hoje, um ladrão é também, potencialmente, alguém que, sem rebuços, atenta contra a integridade física das suas vítimas se as coisas não lhe correrem de feição no decurso do assalto. Portanto, neste contexto, a única atitude inteligente que qualquer vítima de roubo pode ter é, pura e simplesmente, não resistir. É menos heróico mas é também, seguramente, mais saudável.


Muitas são as explicações aventadas para justificar o crescimento da criminalidade violenta. Normalmente refere-se a crise económica e social, destacando-se o desemprego, o materialismo das pessoas, a displicência das autoridades, a ineficácia do sistema judicial, etc., etc. Enfim, se calhar todas as causas apontadas terão, em maior ou menor grau, a sua quota-parte de responsabilidade. Porém, hoje proponho-me reflectir sobre um ingrediente invariavelmente presente em contextos de violência: a agressividade.


A agressividade é uma força instintiva que, como outras, é inata a todos os seres humanos. Mesmo nas crianças na primeira infância – às quais está associada uma imagem angelical de grande doçura – é perceptível tal instinto agressivo (se bem que com diferentes graus de evidência). Ainda que isto possa causar espanto e desorientação nas pessoas, a verdade é que a agressividade constitui um fenómeno natural, o qual está directamente associado ao instinto de sobrevivência. A questão não se coloca, afinal, na origem da agressividade – já que esta evidencia-se, naturalmente e sob várias formas (verbal, física, moral), sempre que nos sentimos em perigo – mas sim no que fazer com ela, como esta deve ser moldada e canalizada para realizações positivas. É aqui que os factores educacionais e afectivos são decisivos. Por volta dos 14 anos – altura em que quando um jovem diz "eu", significa mesmo "ele" (não o pai, a mãe ou qualquer grupo que sobre ele exerça influência) – a assimilação de valores estruturantes da personalidade deve estar tão concluída quanto possível.


Vou dar um exemplo de como pode ser diferente a gestão das emoções e dos instintos durante a formação da personalidade. Na minha geração os jovens liam muitas histórias aos quadradinhos. Não eram pérolas literárias, mas tinham inequivocamente uma virtude: o protagonista da história – fosse ele o Rip Kirby, o Fantasma ou o Mandrake – era sempre o bom e combatia o mal e os malfeitores. Hoje, as crianças não lêem histórias aos quadradinhos; divertem-se com jogos de vídeo que exploram um caldo de emoções (no qual está incluída a agressividade). O problema é que aqui, por vezes, o herói é um espécime do piorio: pratica car jacking, passa semáforos vermelhos, atropela pessoas, esfaqueia-as ou mata-as com uma AK47.

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