quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A queda das máscaras

Nos bailes de máscaras medievais, damas e cavalheiros, a coberto do anonimato, permitiam-se dar vazão aos instintos reprimidos pelas regras de conduta social. Sob a capa da fantasia e de uma falsa inocência, as extravagâncias eram admitidas e as infracções toleradas. A queda das máscaras era, por isso, um momento ansiado por alguns e, ao mesmo tempo, temido por quase todos. Afinal, era sob as máscaras que se escondia a verdadeira natureza das pessoas.

De regresso à actualidade constatamos que esta teatralização da vida se mantém imutável ao longo dos séculos… apenas os cenários mudam. Por exemplo, as relações institucionais entre a Presidência da República e o Governo têm sido palco onde, não raras vezes, a hipocrisia actua. Pela frente e publicamente tudo são cortesias e salamaleques. Porém, nos bastidores as picardias entre os actores não só existem como chegam até a escapar-se para a zona audível do grande público. Apanhados em falso – que é como quem diz, caídas as máscaras – a encenação continua, seja por adaptação do guião seja pela enorme capacidade de improvisação dos artistas.

Agora que já sabemos que existe tensão entre Cavaco e Sócrates, o público de fãs divide-se pelos respectivos ídolos. Afinal quem tem razão? Se me for permitida uma opinião, essa não é a questão mais relevante. Cavaco e Sócrates terão, cada um, as suas razões. Tal como noutros cenários e com outros protagonistas – entre Eanes e Soares, entre Soares e Cavaco ou entre Sampaio e Santana – a ideia que vai ganhando perenidade é de que algo não funciona bem na nossa arquitectura constitucional.

Diz o povo e com razão que "nada mais perturba quem trabalha que a presença de quem nada faz". Ora, o nosso sistema semi-presidencialista não só permite isto como até pior. Permite, por exemplo, que alguém tenha poder para dizer mal sem ter a responsabilidade de fazer melhor. Absurdo. Será que ninguém acha estranho que, historicamente, o Presidente da República tenha sempre maior popularidade que o Primeiro-Ministro? Pois pudera, fácil é dizer que "há mais vida para além do deficit" ou dizer que o povo tem "direito à indignação"; difícil é resolver os problemas concretos dos portugueses. Será que somos tão parvos que precisamos de alguém para nos dizer que há problemas? Para depois se fazer de nosso amiguinho e dizer-nos que está solidário connosco? Eu penso que não.

O semi-presidencialismo equivale, na prática, a uma monarquia constitucional mitigada. Permite um endeusamento do Presidente da República tal como antes se queria fazer crer que o Rei tinha uma legitimidade divina. Dispenso ambas. Lideranças bicéfalas são, por regra, contraproducentes.

1 Comentários:

morski pas disse...

E aqui estamos nós sujeitos a um país carregado de hipocrisias, palhaçadas e anedotas....
(Des)Governados por um sem número de "desempregados" que não sentem o peso da responsabilidade de prestar contas ao patronato,ou de tentar ser o mais producente possivel para que no final de um ano de trabalho e dedicação mereça receber aquele pequeno prémio, ou uma palmadinha nas costas que seja, como forma de agradecimento relativo ao esforço prestado.
E como é bom sentir o reconhecimento de um esforço!!!
Coisa, que estes "desempregados" não sabem sequer avaliar esse pequeno gosto!

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