quinta-feira, 20 de março de 2008

A crise na Educação (I)

A principal fonte de energia para o desenvolvimento humano, social e, naturalmente, económico, é a Educação. Por sua vez, o principal ingrediente para uma aprendizagem efectiva é a vontade de aprender, a qual decorre, as mais das vezes, de uma necessidade instrumental do saber como meio de obter aquilo por que ansiamos. Do exposto facilmente se depreende que quando o processo formal da Educação, isto é, o Ensino, é encarado mais como uma obrigação ou como um mero lapso de tempo pelo qual os jovens têm necessariamente que passar, então esta deixa de ser um investimento para se transformar tão-somente num custo.

Há uns tempos ouvi o Prof. Medina Carreira referir que desde sensivelmente meados da década de noventa deixaram de chegar às universidades alunos de qualidade. Tomando por certa aquela afirmação – e eu, pela minha passagem pelo ensino superior, não a nego – a conclusão lógica é apenas uma: a qualidade do ensino formal degradou-se. Resta agora saber porquê. Se considerarmos que a maior parte dos professores actualmente em actividade, nos diferentes graus de ensino, são exactamente os mesmos que "produziam" ensino de maior qualidade na primeira metade da década de noventa, parece evidente que só por manifesta má-fé ou por propósitos inconfessáveis, se pode responsabilizar o corpo docente por tal degradação. Por outro lado, se assumirmos como pressuposto que não há gerações rascas – e eu assumo, sem tibiezas, tal pressuposto – então também os alunos não podem ser directamente responsabilizados pelo facto de agora incorporarem uma (eventual?) menor valia de capital intelectual. Os jovens, tal como o resto da sociedade humana, nada mais fazem que ajustarem os seus comportamentos aos estímulos do meio envolvente.

Eliminados os "suspeitos do costume", para quem sobra então a responsabilidade? Para as famílias? É evidente que não! Isso seria, uma vez mais, escolher um "alvo fácil" e a resolução de problemas complexos passa mais por encontrar verdadeiras soluções do que por procurar "bodes expiatórios" (por muito que isto possa custar a Sócrates e a Lurdes Rodrigues). As famílias fazem o que podem e o que sabem e, portanto, a mais não são, nem podem ser, obrigadas. Procurem-se então as causas profundas deste fenómeno.

Primeira, e principal, razão. Constituindo a Educação um investimento estratégico para o país, afigura-se como natural que os governos tenham apostado na sua massificação. Esse passo foi, efectivamente dado e, digo mais, foi um passo na direcção correcta. Porém, no caso concreto de Portugal, foi também um passo de bêbado em cima de corda bamba. Porquê? Porque enfermou de uma visão míope que apenas percepcionou parte do problema. De facto, a massificação jamais se poderia sobrepor à exigência no ensino, o que é o mesmo que referir que o "produto" da escola nunca poderia perder qualidade. Faltou, portanto, o necessário equilíbrio entre massificação e exigência.

(Continua no próximo número)

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sinais de mudança


Para prevenir uma eventual invasão pelas tropas de Napoleão, os ingleses montaram junto à sua costa postos de vigilância que só vieram a extinguir um século após a morte do cônsul francês. Por aqui se pode concluir que a mudança, qualquer mudança, sempre oferece resistência. No entanto, se avançarmos que, sob ameaça, tais postos de vigilância foram montados em pouco tempo, então também poderíamos concluir que a mudança até pode ser rápida. Enfim, rápida ou lenta, ela é, indiscutivelmente, constante. Alterando-se as situações, as pessoas ajustam os seus comportamentos em busca de novos equilíbrios, ou seja, de novas rotinas. Não é para menos, são as rotinas que conferem estabilidade e previsibilidade pelo que, paradoxalmente, a mudança é simultaneamente desejada pelas oportunidades que cria, mas temida pela instabilidade e ameaças que, simultaneamente, gera. Esta aparente contradição está, afinal, muito bem explicada: sempre que insatisfeitas as pessoas clamam por mudança; no entanto, dificilmente aceitam que tudo mude muito rapidamente ou ao mesmo tempo. Geralmente, as reformas graduais são preferidas às revoluções radicais.
Dos Estados Unidos surgem sinais que auguram mudanças relevantes. No Partido Democrata, a mudança já aconteceu seja qual for o finalista vencedor para disputar a eleição presidencial (Hillary Clinton, a primeira mulher, ou Barack Obama, o primeiro negro). Do lado republicano a mudança será menos sensível mas, ainda assim, considerável, já que John McCain está, segundo dizem, a anos-luz do fundamentalismo primário que caracteriza George W. Bush.
Seja a mudança mais moderada (John McCain) ou mais expressiva (Barack Obama), pode dar-se como certo que os Estados Unidos irão evoluir mas, por muito que mudem, não se transfigurarão.
Cuba também está "madurinha" para a mudança. É certo que os cubanos continuam a não poder sair do seu país, nem sequer a aprenderem línguas estrangeiras para além do "My name is Paco". Todavia, os estrangeiros entram agora em cada vez maior número em Cuba proporcionando aos nativos contactos com outros mundos completamente diversos daquele que conhecem. Uns revoltam-se pelas suas baixas condições de vida (mais evidentes quando comparadas com as dos visitantes). Outros, pelo facto de viverem a milímetros do paraíso na terra e por serem os turistas estrangeiros a desfrutarem dele. Finalmente, a maioria, por não terem liberdade. O fim do consulado de Fidel constitui uma janela de oportunidade que um outro Castro poderá aproveitar para encetar uma mudança gradual.
Finalmente, em Portugal também há mudanças. Destaco uma que considero importante: pela primeira vez em muitos anos os partidos do centro do espectro eleitoral perdem intenções de voto em benefício da esquerda revolucionária. Pelos vistos, há já quem prefira o trotskismo, mesmo sem saber o que é a revolução permanente nem, afinal, o que é que tais movimentos têm para propor como alternativa. Só grandes desilusões poderão justificar tremendas mudanças.

Nota: A imagem é propriedade do autor.

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