quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Festas da Exaltação da Santa Cruz

Por serem celebradas em Setembro – desde tempos que se perdem na memória – as Festas da Exaltação da Santa Cruz, são também denominadas de Setembrinas ou de Setembro. Por serem realizadas no coração da cidade – e por outras razões que adiante evocaremos – foram (e ainda são) consideradas as Festas da Cidade. Ontem como hoje, o excedente das festas (quando existe) destina-se a apoiar a obra social da Igreja.


Sem nunca terem deixado de ser festas paroquiais – com as tradicionais quermesses, tômbolas, leilões de fogaças, arraiais, bailes e fogo-de-artifício – tempos houve em que a sua grandiosidade transcendia claramente o âmbito da celebração religiosa a que estavam (e estão) associadas. O envolvimento directo do Município nas festas realizadas nos anos sessenta do século passado, por exemplo, tornou possível que se fizessem construções em alvenaria em pleno Rossio, as quais, decorridas as festas, eram demolidas e reedificadas no ano seguinte. Havia quem considerasse um desperdício, tal como havia quem considerasse um investimento… Certo, certo, é que toda a gente achava tais festas fulgurantes e com capacidade para atrair forasteiros.


Na ausência de tal apoio, parece evidente que o cariz paroquial das celebrações prevaleça e, neste contexto, a sua grandiosidade fique balizada pelo volume dos donativos conseguidos e pela generosidade dos voluntários que a organizam e põem de pé. Não se estranha por isso que as actuais Festas sejam mais modestas. (Valha-nos, em contrapartida, que a Obra do Centro Social Paroquial de Santo André é agora deveras mais visível e significativa).


Todavia, nem todos os municípios encaram as suas festividades da mesma forma. Aqui bem perto de nós, a Festa dos Capuchos (que não tinha expressão quando comparada com a nossa) arrasta multidões de toda a região. Mais ousado ainda, o Município do Crato investe centenas de milhares de euros para atrair não apenas uma região mas sim gente de todo o país. Enfim, é tudo uma questão de escolhas. Uma coisa é certa: as Festas da Exaltação da Santa Cruz só poderão ser, efectivamente, as Festas da Cidade com um maior envolvimento do Município.

Ferrovias de Estremoz



Perguntam-nos se faz sentido manter a rede do caminho-de-ferro em Estremoz. Respondemos de forma indirecta com uma outra pergunta: fez sentido derrubar-se a muralha setecentista no troço que ia desde as Portas de Santa Catarina até ao final da Avenida 9 de Abril? Alguém pode hoje apreciar os baluartes, as cortinas que os ligavam, os revelins, os adarves ou as troneiras? O irónico desta situação está no facto de ter sido, justamente, o caminho-de-ferro o "culpado" – ou, pelo menos, um deles – pela demolição da muralha. O argumento usado na época era de que as muralhas espartilhavam a vila, impedindo-a de crescer. Houve quem entendesse que a muralha setentrional era um empecilho, entre outras razões, porque perturbava o acesso aos caminhos-de-ferro, sendo estes vistos, na época, como a ligação de Estremoz ao resto do mundo e, por maioria de razão, ao seu desenvolvimento.
Curiosamente, um século depois, os argumentos repetem-se com ligeiros ajustamentos: agora os "maus da fita" são os carris de ferro. São estes que estão a impedir Estremoz de se desenvolver. Esta ideia é tão errada como aquela que levou os mais ingénuos de outros tempos a pensar que o ramal de Vila Viçosa visava o desenvolvimento desta região. Se assim era, porque não prosseguiu tal linha até à Fronteira do Caia? A resposta era simples: o Palácio Ducal ficava antes e era até lá que Sua Alteza El-Rei D. Carlos desejava o adequado "desenvolvimento" para as suas caçadas na Tapada. Só por isso é que tivemos comboio logo em 1905, caso contrário teríamos de esperar até 1948, data em que foi concluído o ramal de Portalegre, o qual, esse sim nos levava à fronteira pelo caminho mais… sinuoso.
É, de facto, deprimente o estado a que chegou a nossa estação ferroviária. O edifício, de uma belíssima traça arquitectónica tradicional, com painéis de azulejos de grande qualidade artística, está votado ao mais completo abandono. As cocheiras de locomotivas e de carruagens – que albergaram um valiosíssimo espólio histórico – estão agora no meio da "selva", tal é o matagal que se tem de percorrer até as alcançar. Noutros locais – como em Fronteira, por exemplo – as estações foram recuperadas e são hoje factores de desenvolvimento no âmbito do turismo. Casos há em que as antigas locomotivas a vapor foram colocadas em circulação, refazendo percursos históricos e culturais. Aqui há quem só pense em destruir.
Notas:
Este artigo carece de clarificação:
O comboio chegou a Estremoz em 1873 mas... àquela que era então (e se pensava que continuaria a ser) a única Estação de Estremoz, ou seja, ao Ameixial. O comboio só chegou à Estação da futura Av.ª 9 de Abril 30 anos mais tarde, depois de avanços e recuos na definição do traçado da linha, de graves problemas financeiros da companhia e de outras peripécias que já vi relatadas em vários escritos. A referência a 1905 - e não a 1903 - no texto supra justifica-se por ter sido o ano da conclusão e, consequente, entrada em funcionamento do ramal de Vila Viçosa que é aquele que vem referido no contexto.
Por seu turno o ramal de Portalegre foi aberto em 1925 mas apenas e só até Sousel. Apenas em 1937 foram estabelecidas as ligações até Cabeço de Vide e, finalmente, só em 1948, conforme o texto refere, foi concluída a ligação a Portalegre, a qual entroncou por sua vez com a ligação a Elvas (vinda do Entroncamento), a qual já existia desde 1863.
Reconhece-se, no entanto, e isto na sequência de alguns comentários recebidos, que o texto original deste artigo pudesse gerar interpretações erróneas.

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