domingo, 18 de março de 2007

O polvo

As teorias do comportamento defendem que o ser humano vive permanentemente a procurar optimizar o seu bem-estar. Apesar de não haver razão para que alguém se envergonhe disso – afinal, este fenómeno foi denominado, nos idos anos 70 por Michael Jensen e William Meckling, simplesmente por "natureza humana" – a verdade é que são raros os que assumem a racionalidade do seu comportamento. A maioria porque têm pudor de reconhecer perante terceiros que têm interesses, ainda assim não haja alguém que os vá classificar de egoístas ou de algo do género. Outros, porque sabem que têm razões para ocultarem a sua verdadeira essência quando esta não é socialmente aceitável.

A verdade, porém, é que apesar desta busca incessante pelo bem-estar, apenas alguns eleitos o conseguem de facto. Uns por mérito próprio. Estando melhor informados que os demais, dispõem de habilitação que lhes permite tomarem melhores decisões. Outros porque apesar de serem menos capazes, sabem o essencial da natureza humana e não têm qualquer escrúpulo em usar tal mister em benefício próprio, mesmo lesando terceiros. Em colunas anteriores já me referi a este fenómeno. Por exemplo, em "Zaragatas à moda antiga" e em "Perspectivas" referi-me à incapacidade que algumas pessoas têm em ver segundo a perspectiva do outro, facto que impede uma adequada percepção de nexos de causa-efeito. Em "Distância hierárquica" denunciei a hipocrisia da adulação do poder e a falsa humildade daqueles que, como os chineses medievais, baixam a cabeça perante o seu senhor enquanto se peidam silenciosamente. Neste contexto, algumas pessoas preferem pedir favores a reclamar direitos porque pensam ser mais eficaz ficar em dívida mas ter, do que exigir e… perder. Em "D. Branquinha" mostrei o outro lado da ganância. Quanto mais se ambiciona o ganho fácil mais facilmente se cai num embuste.

E por falar na "D. Branquinha", houve quem me questionasse onde é que pretendia chegar com o final daquela coluna. Esclareço: tal como n'O polvo, série que animou os serões dos anos 80, também na nossa sociedade existem tentáculos que corrompem a integridade de pessoas comuns. Ao inspector Corrado Cattani haviam raptado o filho; a alguns dos nossos compatriotas raptaram-lhes o direito de falar e de agir como cidadãos livres. A tal ponto chegámos que já há pessoas que se sentem forçadas a pedir o anonimato quando escrevem ou dizem algo que possa desagradar a quem tem o poder. Não estou a falar do anonimato que caracteriza aqueles que atacam cobardemente os que ainda se sentem livres para dar a cara. Falo, sim, de pessoas que temem represálias no emprego se não alinharem com a posição oficial. Há muitos a quem acenaram com promessas de que irão ter, facilmente, algo de bom que muito ambicionam. Só há uma condição: têm de se comportar de uma determinada forma. Como em tudo na vida, se é bom, o melhor é pagar o preço, porque caso contrário vai sair mais caro. Alguns, em desespero, aceitam a solução mais fácil… mais tarde apresentam-lhe a factura a cobrar.

Se isto não é similar à "La piovra", então o que é?

Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 22 de Março de 2007


domingo, 4 de março de 2007

Os segredos do sucesso de Sócrates

O primeiro foi não escrever nada. Assim jamais podia ser confrontado com as suas próprias contradições. O segundo foi nunca exaltar o seu saber, preferindo apresentar-se com humildade intelectual perante os seus interlocutores: "só sei que nada sei!". Desta forma, ao formular perguntas de "ignorante" arrastava os opositores para situações de incoerência, desacreditando-os através da denominada "ironia socrática". O terceiro segredo foi censurar a lábia e a demagogia dos outros fazendo uso da sua própria (e ainda mais demagógica) lábia. No seu julgamento em Atenas, no ano de 399 AC, referiu que a acusação de que era alvo era tão convincente que ele próprio esteve quase a acreditar que era culpado.
Será que estas fórmulas também estão a resultar, em pleno séc. XXI, com o português José Sócrates, por azares da vida (e sorte de alguns) primeiro-ministro de Portugal? Não! Ou melhor, usando da humildade socrática clássica, penso que não! José Sócrates faz uso das suas próprias fórmulas de sucesso, as quais, mérito lhe seja reconhecido, são muito mais adequadas aos dias de hoje. Vejamos porquê:
1) Mesmo que Sócrates não escrevesse nada, não se safava. A imprensa encarrega-se de reproduzir até o que se pensa, quanto mais o que se diz e o que se faz. Vai daí, tinha de haver outra solução para prevenir os indesejáveis confrontos com as contradições do discurso. José Sócrates disse que não haveria aumento da carga fiscal, que não haveria portagens nas SCUT, que iria criar 150 mil empregos… e, como sabem, não há aqui qualquer contradição com aquilo que veio a ser a prática do seu governo. O quê? Há? Vá, não sejam maledicentes, é claro que não há, senão é óbvio que a generalidade da imprensa que o conserva em estado de graça vai para dois anos já o tinha denunciado. (Outros houve que ainda nem tinham assumido o poder e já eram desgraçados.) Como consegue Sócrates isso? Pois, isso também eu gostava de saber, mas como refiro no título é "segredo" que o nosso primeiro não revela.
2) Quanto à segunda fórmula – não exaltar o seu saber – o Sócrates de hoje também fez uso de solução diferente. Como cavaquista empedernido, faz exactamente o contrário: ele sabe, ele sabe que sabe, sabe que é melhor que os outros e, não contente com isso, despreza quem se pretenda afirmar mais sabedor. Tal como outros grandes líderes do séc. XX – os quais, inevitavelmente, mais tarde, bem mais tarde, tarde de mais na opinião de muitos, acabaram por cair em desgraça – a mensagem avançada é de que o Sol só brilhará com ele, o futuro vai ser auspicioso, vamos ter tudo de bom e do melhor, só precisamos mesmo é que lhe demos tempo, porque o presente é duro. Em suma, o segundo segredo de Sócrates, aqui e agora desvendado, é usar a necessidade que as pessoas têm de acreditar em alguma coisa.
3) O terceiro segredo de Sócrates assenta com tal força na demagogia que nem de lábia precisa. Escolhe alvos fáceis, contra os quais todos temos alguma coisa. Agricultores, bancos, professores, farmacêuticos, etc., etc., conseguindo unir todos (mesmo as vítimas) contra cada um dos inimigos públicos em particular. De uma maneira geral, o público delicia-se neste enorme coliseu quando vê os seus ódios de estimação serem lançados às feras… a coisa só perde a graça quando os espectadores perceberem que eles serão os próximos a entrar na arena para diversão dos restantes… Afinal, Sócrates sabe (bem demais, penso eu) que enquanto houver "culpados" ninguém precisa de mais explicações.

Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 08 de Março de 2007

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