domingo, 10 de setembro de 2006

Mar à vista

Do alto do cesto da gávea alguém bradou: “ – Mar à vista!”. Ansiosos por rumar para porto seguro, aquela não era exactamente a mensagem que a tripulação e passageiros esperavam ouvir. Uns ficaram tristes, outros apenas resignados. Que haviam de fazer? Sabiam, é certo, que tinham embarcado num navio antes capitaneado por um comandante nada metódico, completamente intuitivo. De facto, era alguém que desprezava completamente quaisquer instrumentos de navegação, rumando para onde o vento o empurrava. Tinha, entretanto, algumas virtudes: era jovial e bem disposto. Sempre que havia mau tempo, saía da ponte de comando e misturava‑se por entre os passageiros animando‑os, que estava tudo bem, que não havia nenhum problema. Por vezes não dava para disfarçar, os problemas eram evidentes, então culpava os faroleiros, uns autênticos talibans que apenas existiam para lhe infernizar a vida. Os passageiros dividiam‑se: uns faziam coro a esconjurar os faroleiros; outros sabiam que a culpa não podia ser só dos talibans.
A dada altura a tripulação entendeu que chegava de mau governo. Decidiram começar a procurar um novo comandante, escolhendo o imediato para tal função. Pessoa inteligente, culta, mas humilde e de excelente trato. Entretanto, o comandante pensou que se não era desejado pelos seus comandados, então o melhor mesmo era requerer à Coroa as 2700 pipas de rum a que pensava ter direito. Viveria bem, sem preocupações. A surpresa veio quando a Coroa lhe comunicou que apenas tinha direito a pouco mais de 1400 pipas. Afinal tinha gerido a sua reforma da mesma forma que tinha comandado o navio.
A esperança renasceu quando chegou o novo comandante. Foi escolhido em concorrência com o anterior imediato, por pouco, mas foi. Era alguém que queria o “melhor para os passageiros”, portanto, era desta que iríamos navegar em águas tranquilas.
Porém o mar, teimosamente, permaneceu encapelado, tão bravio que já tinha começado a provocar enjoos nos passageiros. Mas o pior estava para vir: o comandante anunciou que o navio estava a meter água. Nada de alarmante, era apenas um “rombozito”…
A partir dessa altura tripulação e passageiros passaram a viver em inquietação. Não tiravam os olhos do gajeiro, o homem que do cesto da gávea tinha acabado de gritar que terra nem vê-la. Por vezes alternavam mirando os peixitos que acompanhavam o navio para o bem e para o mal. A dada altura chegaram a pensar que iriam ver muitos golfinhos, águas límpidas, palmeiras junto à costa. Mas não, agora o que viam eram barbatanas de peixes de grande porte, vulgarmente designados por tubarões, daqueles que comem tudo o que mexe.
Aí chega o comandante e tranquiliza todos: “eles só gostam de peixe”…
(Publicado em 19 de Maio de 2006 no Jornal Brados do Alentejo
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)

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