domingo, 24 de janeiro de 2010

Comentário no blogue “A nossa terrinha”


Como contraponto a algumas das afirmações proferidas neste blogue – tanto no post original como na "actualização" e nos comentários subsequentes – gostaria de exprimir a minha opinião.

Antes de mais quero apresentar-me como cidadão estremocense (daqueles que nasceram, cresceram e passam pelo menos 300 dias por ano nesta terra).

Creio ser relativamente pacífica a ideia de que o nosso Rossio deveria ter uma utilização diferente daquela que tem hoje. Até aí estamos todos de acordo. Deixamos, todavia, de estar de acordo quando, ao invés de se procurar dar um contributo cívico de forma positiva e esclarecida, há pessoas que preferem proferir afirmações que eu consideraria, no mínimo, jocosas (com muito mais de trocistas do que propriamente de divertidas ou engraçadas).

Começando pelo princípio eu diria que há apenas duas vias (complementares entre si) para se promover a retirada de viaturas do Rossio, libertando-o para a sua vocação histórica de espaço de convívio entre as pessoas e, não menos importante, para as feiras e mercados que ali se realizam há séculos. A primeira tem a ver com a circulação viária e com a existência de parques de estacionamento alternativos. A segunda prende-se com a disponibilidade de transportes públicos.

Analisemos cada uma destas vertentes separadamente. No que concerne ao estacionamento importa em primeiro lugar referir que este terá de ser de grande dimensão. Não basta dizer que "Estremoz é uma cidadezinha com menos de oito mil habitantes", é preciso ter consciência que esta pequena cidade regista afluxos de visitantes muito significativos. Nos Sábados de manhã – dia do tradicional mercado semanal – o número de forasteiros transcende claramente o número de residentes, ficando todas essas pessoas concentradas no espaço a que desde sempre chamamos a nossa "sala de visitas", o Rossio. Logo, a primeira incógnita que está por determinar é quantificar os efeitos da eventual privação do acesso ao Rossio dos nossos visitantes, já que estes antes de partirem das suas origens sabem de antemão que, melhor ou pior, conseguem parar no Rossio.

Face ao que precede a solução mais óbvia seria fazer aquilo que se tem feito um pouco por todo o lado, ou seja, "enterrar" os carros em parques subterrâneos. Ora aí está, então porque não o fazemos? Não o fazemos porque Estremoz também é conhecida pela alvura dos seus mármores. O nosso subsolo é uma imensa jazida de mármore que, para além de tornar incomportáveis os custos de tal solução, iria implicar a abertura de uma imensa pedreira durante um período de tempo consideravelmente longo. Portanto, não creio que esta hipótese passe pela cabeça de alguém minimamente esclarecido.


A talhe de foice, aproveito para fazer uma referência a um estudo prévio desenvolvido pela equipa do Arquitecto Nuno Portas na década de 80 do século passado – que integrava, entre outros, Miguel Aragão e Luís Sá Pereira – o qual sugeria a criação de um anfiteatro a céu aberto no centro do Rossio, cujas bancadas seriam esculpidas no imenso banco de mármore ali existente. Defendia-se também a recriação (em diagonal da praça) do histórico ribeiro de cujas margens Nuno Álvares Pereira teria exortado os seus "alentejões" a juntarem-se a ele na Batalha dos Atoleiros. Mas lá está, tanto este estudo como aquele que veio a ser protagonizado pela equipa do Arquitecto João Luís Carrilho da Graça – o qual, sem qualquer nexo histórico ou mínima fundamentação, sugeria a criação de uma mata no Rossio – eram omissos na avaliação dos impactos ao nível do estacionamento e circulação viária. Em boa verdade, nenhuma destas equipas foi capaz de assegurar que a identidade histórica, cultural e económica do nosso Rossio se iria manter, preferindo as referências aos pontos de rotura e às novas realidades que daí emergem.

Apesar de todas estas contrariedades eu incluo-me entre aqueles que considera existir uma solução que poderá ir de encontro ao propósito de reservar uma das maiores praças do país para as pessoas. Mais: acredito nesta possibilidade sem colocar em causa a denominada civilização do automóvel, indo inclusivamente ao encontro das necessidades específicas dos automobilistas e articulando estas com as necessidades dos peões (que os primeiros também são). Por detrás do Convento dos Congregados existe um espaço que reúne o melhor de dois mundos: (1) é muito próximo do Rossio; e (2) é uma área que foi objecto de aterro (ou seja, os afloramentos marmóreos estão a cerca de 4 metros da actual superfície. No espaço do actual mercado abastecedor é tecnicamente possível, com custos aceitáveis, conceber uma área de estacionamento com dois pisos abaixo do nível do solo e mais dois (ou mesmo, três) pisos acima deste em silos. A volumetria do Convento dos Congregados comporta, sem chocar, uma edificação de grandes dimensões, deixando aos arquitectos a imensa responsabilidade de a compatibilizar com o enquadramento da envolvente.

Temos, todavia e ainda assim, um problema: é aí que a Câmara Municipal está a projectar edificar o novo edifício da biblioteca e arquivo histórico municipal. Não travar esse projecto será um erro colossal, já que é conflituante com a única alternativa verdadeiramente aceitável de resolver o problema do Rossio. Demais a mais, para a biblioteca o que não faltam são soluções alternativas, as quais até poderiam passar pelo restauro de imóveis de qualidade no próprio Rossio, como sejam a Casa Inglesa ou o Hotel Alentejano.

De uma coisa precisamos estar cientes: sem capacidade para receber os nossos visitantes, Estremoz perde as características que a tornam atractiva para aqueles e, desta forma, perde a sua identidade histórica, cultural e económica.

No que concerne aos transportes públicos a questão coloca-se do lado da viabilidade económica e financeira dos mesmos. Sendo uma cidade pequena, são também mais pequenas as economias de escalas potenciáveis. Ainda assim, sou de opinião que tal hipótese ainda não foi devidamente avaliada. Uma pequena frota de minibuses, preferencialmente ecológicos, poderia ser suficiente para suprir as necessidades de deslocação urbana dos residentes e daí colher o contributo necessário para descongestionar tanto o Rossio como também outras áreas críticas da cidade. Por paradoxal que possa parecer aos forasteiros, nós também temos "hora de ponta" em Estremoz.

Agora que já exprimi o meu julgamento sobre o tema central do post, não posso deixar de me manifestar igualmente sobre a atitude de algumas pessoas que se pronunciaram antes de mim, bem como sobre alguns erros nele existentes.

Começando pelos erros e excluindo aqueles que já foram devidamente assinalados pelo autor do Kruzes Kanhoto – blogue do qual me confesso admirador e através do qual cheguei aqui – devo dizer que o projecto constante na "actualização" não é aquele que foi o vencedor do concurso de ideias. Trata-se, afinal, daquele que ficou em segundo lugar e que, em minha modesta opinião, até é mais agradável que o vencedor.

No que concerne às atitudes devo dizer que não aprecio particularmente aqueles que se acham donos da verdade e que pretendem tratar os seus semelhantes como se de seres inferiores se tratassem. Ao longo de todo o post nota-se uma certa condescendência relativamente aos estremocenses, os quais se depreende não possuírem a necessária cultura para valorizarem o que têm. Muito obrigado pela preocupação, mas dispensamos tal atitude.

Depois vêm alguns comentadores:

"Todo esse espaço no coração da cidade seria algo completamente diferente noutro país (desenvolvido). Quando penso que o absurdo do que já presenciei neste país é inultrapassável, descubro que me enganei." Portanto, Vossa Excelência pertence ao grupo de pessoas que merece viver num país desenvolvido. Parabéns! Nem sabe como ficamos felizes por isso.

"Eh eh eh, grande post! Vocês são as melhores! Conseguirem fazer-nos rir com uma coisa tão triste..." Há outras coisas que são igualmente tristes…

"Pergunto: será que um espaço nobre como o Rossio de Estremoz não poderia ter um uso também ele nobre e que se constituísse numa mais-valia para a cidade?" Podia e deve tê-lo. Porém, é importante não esquecer também as mais-valias de que já dispomos e que estão na origem da atracção de visitantes a Estremoz…

"Não é a possibilidade de estacionamento que salva o comércio (basta ir ali ao lado a Espanha para perceber isso) ou que traz as pessoas ao centro. Os dias do mercado semanal são a prova disso: não se pode estacionar na placa central mas milhares de pessoas afluem ao centro." Era mesmo bom ter-se informado antes de ter feito esta afirmação.

"Mas Carlos, Espanha é primeiro mundo." A Lusa noticiou que, e cito, "Uma mulher morre em Espanha em cada cinco dias, em média, vítima de violência doméstica". Bonito primeiro mundo o seu.

Finalmente, excluindo a do estremocense Kruzes Kanhoto e sem qualquer desrespeito para com as demais, registei mais uma opinião esclarecida:

"O caso de estremoz conheço-o bastante bem. A minha opinião é um misto da tua com a do Kruzes Kanhoto. Concordo com a reabilitação da praça central por uma questão de beleza, mas terá de se construir um estacionamento daquele tamanho noutro sítio qualquer .(não sei se isso está contemplado no projecto). Não é a gente de Estremoz que ali estaciona, são as gentes das várias aldeias/montes vizinhas. Esses é muito natural que usem o carro para ir a Estremoz, na minha opinião. E sim, nos dias de mercado confirmo que a praça está aberta ao estacionamento, é onde todos estacionam para vir ao mercado."

Obrigado pela vossa atenção.
António J. B. Ramalho

3 Comentários:

António J. B. Ramalho disse...

Por razões que ainda não percebi, são frequentes as queixas de amigos, conhecidos e demais visitantes que pretendem colocar comentários neste blogue e dizem-me que não conseguem.
Depois chego cá eu e funciona sempre... enfim isto é irritante mas, sinceramente, não sei o que possa ou deva fazer para alterar esta situação.

Face ao que precede, vejo-me na obrigação de publicar aqui a reacção da autora (uma das) do blogue "A nossa terrinha", já que ela também não o conseguiu fazer. Assim, passo a citar:

"Caro António Ramalho, uma vez que o seu objectivo era colocar aqui o seu comentário, tomei a liberdade de copiar o respectivo texto, a partir do seu blogue (Ad Valorem), para o inserir aqui. Existe um limite máximo de caracteres para cada comentário. Ultrapassado esse limite, o comentário não é publicado (surge uma mensagem de aviso), sendo necessário dividir o texto em dois ou mais comentários. Foi certamente essa a razão de o seu comentário não ter sido publicado.

Antes de mais, esclareço que não me vou aqui pronunciar sobre as suas críticas aos comentários deixados aqui por outras pessoas.

Gostei de ler o seu comentário. Fico contente por o meu pequeno e muito incipiente artigo ter suscitado alguma reflexão e discussão. Não esperava sequer que viesse a ser lido em Estremoz (enviei o artigo à Câmara, mas sem esperança de que fosse lido).

Não vivo 300 dias por ano em Estremoz e o meu conhecimento da realidade estremocence é, naturalmente, muito limitado, mesmo apesar de já ter estado dezenas de vezes nessa cidade.

Em Estremoz sempre fui TURISTA. E foi uma turista de Estremoz, CADA VEZ MENOS SATISFEITA quando visita a cidade, que escreveu este artigo. Numa cidade muito voltada para o turismo como é Estremoz, espero que a opinião dos turistas que a visitam suscite alguma reflexão, sobretudo quando têm (ou acham que têm) razões de queixa. E tenho visitado a cidade com outros turistas que partilham das mesmas "queixas" - alguns deles estrangeiros.

Apontou-me dois erros no artigo e dou-lhe inteira razão (não tive, com este artigo, o cuidado que normalmente tenho e lamento isso). Os dois erros são: 1) o estacionamento nos dias de mercado (já foi corrigido); 2) a imagem do projeto de arquitetura para o Rossio (o projeto que mostrei foi classificado em segundo lugar, e não o que ganhou o prémio).

De qualquer modo, nenhum desses erros afecta, um pouco que seja, o sentido do artigo.

E ao ler o seu comentário, constato, afinal, que, no essencial, até estamos de acordo! Este artigo é sobre a ocupação do Rossio e é um desenvolvimento da - muito feia - imagem inicial. Ambos concordamos com a necessidade de tirar os automóveis dali.

É claro que para tirar o estacionamento do centro é preciso arranjar uma alternativa. Seria tontinha se achasse que bastava eliminar os lugares de estacionamento no centro [veja, por exemplo, o meu primeiro artigo sobre Évora - "Évora: prioridade ao automóvel (1)"], numa cidade com grande afluência de visitantes (incluindo muitos turistas) e à qual tiraram o comboio.

(continua)

António J. B. Ramalho disse...

(Continuação da transcrição do comentário anterior)

"Quanto à localização da alternativa (parque de estacionamento), não sei se estaremos de acordo. Construir o parque no centro de uma cidade para o estacionamento automóvel de quem a visita é levar todo o trânsito até ao centro.

Não basta, por outro lado, construir o parque. É preciso disciplinar e fiscalizar o estacionamento. Portugal está cheio de exemplos de parques que ficam "às moscas" porque os automobilistas acham mais cómodo deixar o carro mesmo junto do sítio onde querem ir, seja ou não em local autorizado (passeios incluídos). E Estremoz é, aliás, um desses exemplos: este artigo é sobre o Rossio, mas em Estremoz não falta oferta de estacionamento e, apesar disso, há carros indevidamente (e impunemente) estacionados um pouco por toda a cidade, passeios com automóveis em cima e passeios desnecessariamente estreitos só para se permitir o estacionamento automóvel. É muito disto que se queixam turistas como eu, que saem de Estremoz com a impressão de que o seu bem-estar é pouco ou nada relevante.

Relativamente à viabilidade económica de um mini-autocarro, aprenda-se com a experiência de outra cidades estrangeiras, onde esse transporte é até, muitas vezes, oferecido gratuitamente. Um parque de estacionamento pago gera receitas que podem ser aplicadas com esse fim.
Se bem que, quanto aos próprios residentes na cidade, eu tenha dificuldade em entender tanta necessidade de utilizar o carro para chegar ao centro. Pelo menos, em relação a grande parte dos residentes, que estão a minutos a pé do centro.

Por fim, fiquei perplexa ao ler a parte do seu comentário em que diz:

«No que concerne às atitudes devo dizer que não aprecio particularmente aqueles que se acham donos da verdade e que pretendem tratar os seus semelhantes como se de seres inferiores se tratassem. Ao longo de todo o post nota-se uma certa condescendência relativamente aos estremocenses, os quais se depreende não possuírem a necessária cultura para valorizarem o que têm. Muito obrigado pela preocupação, mas dispensamos tal atitude.»

Quanto ao facto de me achar "dona da verdade", peço-lhe o avor de ler o último artigo desta página ("Blogue A Nossa Terrinha"). Quanto ao resto:
O problema de que trata este artigo, meu caro António Ramalho, não é dos estremocences, é dos portugueses - da maneira como encaram a qualidade de vida em ambiente urbano e o turismo, fruto de uma relação muito pouco racional com o automóvel. Não só não tenho nada contra os estremocences - ou um qualquer sentimento de superioridade (perdoe-me, mas tenho de dizer: "que disparate!") - como até lhe digo que sou lisboeta, nasci em Lisboa e sempre vivi em Lisboa e o que se passa na minha cidade é muito pior do que a realidade de Estremoz. Em Portugal, talvez não haja quem despreze mais a qualidade de vida da sua cidade do que o lisboeta.
O que vê na primeira fotografia deste artigo vê em muitas outras cidades do país.

Quanto ao carácter "jocoso" de algumas afirmações do artigo: trata-se de humor (admito que de má qualidade). A ironia é, por vezes, a forma mais suave de lidar com situações completamente absurdas como: carros estacionados no passeio no Rossio (onde não faltam lugares de estacionamento!); passeios incrivelmente estreitos, por vezes onde mal cabe uma pessoa, única e exclusivamente para se permitir o estacionamento automóvel, isto a poucos metros do tal mega-parque do Rossio; etc.

Os estremocences (em geral) não são, neste particular, melhores ou piores do que os restantes portugueses. Este é um retrato de Portugal, exemplificado em Estremoz (como já exemplifiquei aqui com outras cidades - e vou continuar a fazê-lo).

De resto, proximamente ainda tenho mais três artigos sobre Estremoz. Um positivo, outro negativo, outro "misto". Talvez possamos continuar esta discussão... "

António J. B. Ramalho disse...

Entretanto, terminadas as citações, cumpre-me reproduzir aqui a resposta à resposta da resposta

"Joana
Queria antes de mais agradecer-lhe por ter procedido à publicação do meu (extensíssimo) comentário (tão "sintético" que teve de ser dividido em 3 partes).
Escrevi o que pensava e a forma como o fiz traduz claramente aquele que era o meu estado de espírito no momento. Quanto a isso, agora já não há volta a dar.
Da sua resposta destaco a reacção aos minibuses, que merece o meu aplauso, porquanto a eventual criação de uma rede de transportes públicos em Estremoz depende, claramente, da articulação entre estes e o estacionamento. Aquilo que defendo neste domínio é a constituição de uma empresa pública de transportes e estacionamento, a qual admito poder vir a ser participada por privados, porém, sempre na condição de estes não terem controlo maioritário.
Não é, todavia, um processo pacífico já que nunca nenhum estremocense já alguma vez pagou para estacionar na sua terra (embora estejam habituados a fazê-lo noutras).
Quanto ao resto da minha intervenção até resultaria suspeito que doravante passássemos a ter opiniões absolutamente coincidentes... Considero saudável que continuemos divergentes naqueles capítulos onde as diferenças foram evidentes.
Cumprimentos"

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