quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Interpretações

Já não me recordo onde li que um bom advogado é aquele que consegue demonstrar que a lei diz exactamente o oposto do que lá está escrito. Que me perdoem os advogados mas tais "méritos" têm que ser partilhados com mais pessoas. O que não faltam por aí são crânios que se permitem interpretar da forma mais conveniente o teor de um texto escrito. A recente polémica em torno das declarações de José Saramago é disso a prova evidente.

Reconheço que (1) os textos nem sempre são claros; (2) um texto (ou uma frase) desinserido do respectivo contexto pode conduzir a uma interpretação distorcida; (3) ser necessária uma interpretação sistemática quando partes da prosa estão em contradição com a filosofia subjacente ao todo… mas, tenham dó, há limites para tudo.

Quando um texto diz que David cobiçou Bateseba, mulher de Urias, que copulou com ela e que de tal acto veio a nascer um filho, não pode dizer que "não foi bem assim", que não houve adultério. Do mesmo modo, quando David urdiu uma forma de matar Urias, não pode dizer-se que não tenha havido assassínio, ainda que este não tenha sido o autor material do crime. Todavia, quando se diz que Amnom, filho de David e irmão de Absalão, copulou com a irmã de Absalão, Tamar, virgem até aquele momento, já não se pode dizer com precisão que tenha havido incesto, dado que Tamar, apesar de irmã de Absalão e este irmão de Amnom, podia não ser irmã de Amnom. Agora que aquela família era uma grande rebaldaria, com práticas poligâmicas com fartura, isso, com base no texto escrito, já ninguém o pode negar. Assim como quando Absalão decidiu limpar o sebo ao irmão Amnom, ninguém pode dizer que não houve fratricídio, da mesma forma que voltou a haver assassinatos entre irmãos quando Salomão mandou matar Adonias, irmão "completo" de Absalão e a 50% do próprio Salomão.

Ora bem, todo o parágrafo precedente se refere a textos bíblicos, mas precisamente ao Antigo Testamento. Isto faz da Bíblia, no dizer de Saramago, um "manual de maus costumes"? Embora as práticas ali enumeradas não sejam, de todo, as mais recomendáveis, a verdade é que em lado nenhum se pode inferir que a doutrina bíblica aprovasse tais procedimentos. Na verdade, segundo a Bíblia, o povo de Israel sofreu castigos por causa destes e de outros comportamentos igualmente bizarros. Agora, é também preciso ter presente que Saramago também não disse apenas aquela frase que provocou toda esta celeuma. Disse também que a Bíblia "tem coisas admiráveis" e que "muita coisa vale a pena ler". Se Saramago é acusado de descontextualizar os textos bíblicos sugerindo interpretações erróneas, então é igualmente verdade que aqueles que o acusam também descontextualizaram as declarações de Saramago, omitindo as passagens em que este fez menções elogiosas ao texto sagrado.

Valia a pena toda esta confusão por causa de alguém cujas afirmações se enquadram numa estratégia de promover a sua mais recente obra literária, Caim? Eu acho que não.

Publicado na edição do Brados do Alentejo de 29 de Outubro de 2009

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