quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Assimetrias e golpadas

Quando tive conhecimento da promoção da GALP Energia – de conceder um desconto de 6 cêntimos por cada litro de combustível aos fins-de-semana – fiquei, num primeiro instante, satisfeito. Quando percebi que tal campanha só estava acessível nos postos de abastecimento aderentes, comecei a sentir que tal oportunidade me poderia escapar. Quando, finalmente, soube que mesmo que as gasolineiras da nossa região quisessem aderir à referida promoção não podiam, já que esta estava restringida a 100 postos, quase todos do litoral do país, então aí já fiquei revoltado.

Não foi, todavia, uma sensação nova. Foi apenas a repetição daquela revolta que senti, por exemplo, quando constatei que apesar da conduta do gás natural atravessar o Alentejo, apenas o litoral – sempre e mais uma vez o litoral – iria beneficiar do respectivo abastecimento. Dizem-me que um dia, algures num futuro incerto, também Estremoz, Évora ou Portalegre irão ter gás natural. Pois, já passaram, daqui a pouco, 10 anos e, por ora, ainda nada…

Conclusão: nós, no interior, somos tratados como cidadãos de 2.ª categoria. Não há, não tem havido, uma política consistente e deliberada de correcção das assimetrias regionais. Bem pelo contrário, muitas das políticas que emanam do Poder até contribuem para o agravamento de tais assimetrias. Como se isto não bastasse, são os indicadores menos favoráveis do interior que permitem captar fundos estruturais da UE que depois, descarada ou sub-repticiamente, acabam novamente canalizados para o litoral. Como podem as nossas empresas ser competitivas quando os seus factores de produção – nomeadamente energéticos ou de telecomunicações – são menos eficientes e, em alguns casos, mais caros que noutras regiões do país?

E, já agora, por falar em energia e em telecomunicações, que dizer dos processos de privatização de grandes empresas públicas de referência, como a EDP ou a PT? Ou os de criação de grandes empresas públicas potencialmente privatizáveis, como a EGF (resíduos sólidos urbanos) ou a AdP (águas)? Em qualquer dos casos, o Estado favoreceu a criação de monopólios onde deveria existir concorrência, com a agravante de tais empresas se terem apropriado – com o beneplácito do Poder – de infra-estruturas (nomeadamente municipais) que nunca deviam ter deixado de ser públicas. Mais: tais infra-estruturas foram transferidas para estas empresas não pelo justo valor, mas sim com dedução das ajudas comunitárias auferidas pela sua criação. Haverá negócios melhores? Só se forem as concessões de auto-estradas por 75 anos – 75 anos? Sim, 75 anos – que os nossos bisnetos ainda hão-de estar a pagar.

Não há dúvida, Portugal continua a ser um paraíso para aqueles que se encontram junto do Poder (porém, só para eles). Não será tempo de dizer: "Basta!"?

4 Comentários:

morski pas disse...

Temos de reclamar por melhores serviços, melhor atendimentos e menos descriminações.....
É RIDÍCULO haver diferenciação entre litoral e interior, por mais justificações que nos possam ser dadas, pois nenhuma delas se pode considerar válida!Todas as grandes empresas gerem os seus "esquemas" mediante o lucro que poderão vir a ter(e obviamente o teem), portanto é enganoso ter um grande outdoor nos postos (qualquer um deles), não sendo este aderente! That's our life!!!THAT´S PORTUGAL!!!!

António J. B. Ramalho disse...

Cumpre-ne reconhecer aqui um lapso cometido e para o qual fui alertado. De facto, recebi a seguinte mensagem:
"Li no seu Blog "Assimetrias e golpadas", com muita atenção e não deixa
de ter razão quase em tudo!

Quase em tudo, porque em relação ao gás natural não está completamente
correcto, Portalegre e Ponte de Sôr são abastecidos por gás natural
proveniente do Gasoduto principal, como o interior centro (castelo
branco, fundão, covilhã e guarda).

Évora não tenho a certeza, mas pelo menos o parque industrial é
abastecido por uma UAG (unidade autónoma de gás).

Havia um antigo projecto de se construir um gasoduto para sul, mas
como houve a deslocação da fabrica de pasta de papel que havia na zona
de Mourão para outro zona do país, não me recordo agora o local, o
projecto foi esquecido. Se este projecto fosse para a frente hoje em
dia tínhamos gás natural em Estremoz.

Não é viável construir um gasoduto, quando não há grandes
consumidores, temos o exemplo de Portalegre, se um dia a Selenis
deixar de consumir, os consumos serão muito pequenos, mas como as
infraestruturas estão construída continuara a ter fornecimento de gás.
(...)"

Assinado: Francisco Beirão

Face ao que precede, agradeço ao Franciso Beirão o seu esclarecimento e adito aqui a resposta que lhe enviei:

"Agradeço o seu contributo e posso até dizer-lhe que a instalação da Hutchinson em Portalegre teve como pressuposto justamente o abastecimento de gás natural. O que, confesso, ainda não sabia é que Portalegre já estivesse abastecida neste momento, se bem que já sabia do abastecimento à Guarda.
No entanto, porque a verdade deve prevalecer, solicito que me autorize a aditar este comentário e a sua observação."

antónio prates disse...

O nosso interior continua a ser o mesmo deserto de sempre, e o interior de quem dirige continua a dar razão a todas estas Assimetrias e Golpadas...

Lambão disse...

Caro Blogger
Não deixe de visitar nosso novo "Blog" a cerca da vida quotidiana de Estremoz :P

As Crónicas de Lambão

Fiquem bem! ;)

Enviar um comentário

Receba os nossos artigos por e-mail

Related Posts with Thumbnails

Número total de visualizações de página

CQ Counter, eXTReMe Tracking and SiteMeter

eXTReMe Tracker
Site Meter