quinta-feira, 9 de julho de 2009

Histórias de Verão

Com a chegada do calor a minha disposição para escrever diminui na razão inversa da minha apetência pela leitura. Assim, desta vez – afinal, não sei se aquilo que vou fazer hoje será moda que pegue – vou preferir contar histórias escritas por outros.

Os dois sapos

«Dois sapos viviam na mesma lagoa. Quando ela secou com o calor do Verão, saíram em busca de outro lar. No caminho, passaram por um poço profundo e cheio de água. Ao vê-lo, um dos sapos disse para o outro: "Vamos descer e fazer a nossa casa neste poço; teremos aqui abrigo e alimento". O outro, mais prudente respondeu: "Mas, e se faltar a água, como sairemos de um lugar tão fundo?" (Moral da história:) Não faça nada sem pensar nas consequências!»

Fábulas de Esopo, Séc. VI AC

O Rei, o peregrino e o cirurgião

«Em épocas remotas, um rei passeava acompanhado de alguns nobres quando um peregrino muçulmano gritou: "Um bom conselho em troca de 100 dinares". O rei parou e disse: "Que conselho é esse por 100 dinares?". "Senhor", respondeu o peregrino, "entregue-me a quantia e eu direi imediatamente". O rei atendeu, esperando ouvir algo extraordinário. O muçulmano disse-lhe: "Este é o meu conselho: Não comece a fazer nada antes de pensar em como isso vai terminar".


Os nobres e os demais presentes acharam graça, achando que o peregrino tinha feito bem em pedir o seu pagamento adiantado. Mas o rei disse: "Não há motivo para rir do conselho do peregrino. Ninguém ignora o facto de que devemos pensar bem antes de fazer alguma coisa. O problema é que nem sempre o fazemos e, por vezes, sofremos as consequências. Sabem que mais? Gostei do conselho do muçulmano".


O rei decidido a não se esquecer jamais do conselho, mandou gravá-lo em letras douradas nas paredes do seu palácio e também na sua salva de prata. Algum tempo depois um nobre conspirador subornou o cirurgião da corte propondo-lhe honrarias se usasse um bisturi envenenado quando fizesse a sangria ao rei. Quando trouxeram a salva de prata para recolher o sangue do rei, o cirurgião leu a mensagem que nela estava gravada: "Não comece a fazer nada antes de pensar em como isso vai terminar". Foi então que o cirurgião percebeu que se o conspirador se tornasse rei ser-lhe-ia tão fácil mandar matá-lo como cumprir a sua parte da promessa. Reflectindo sobre o assunto percebeu que a primeira hipótese era mesmo a mais provável já que ele, alinhando na tramóia, ficaria na posse de um segredo incómodo para o novo senhor. O rei, vendo o cirurgião tremer, quis saber a razão de tal nervosismo, nada habitual nele. Foi então que o médico da corte confessou a verdade no momento. Preso o conspirador, o rei mandou chamar aqueles que tinham troçado do conselho do peregrino e disse: "Ainda se riem do conselho do peregrino?"»


A Caravana dos Sonhos, de Idries Shah, 1968.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Presos filipinos fazem tributo a Michael Jackson!

Não soube desta na data em que ocorreu. Só hoje soube. Penso que merece divulgação.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A mocidade dos cotas III

Supertramp - The Logical Song, composed and sung by Roger Hodgson

domingo, 5 de julho de 2009

ANDRE RIEU - the light cavalry (cavalaria ligeira)

Carta ao Director

A propósito de duas anteriores entradas relacionadas com este tema, reproduzo aqui a carta dirigi ao Director de um jornal local.

Exmo. Senhor Director do Jornal Ecos


Na entrevista publicada nas páginas centrais da última edição do jornal que V. Exa. dirige fui visado, de uma forma torpe e ignóbil, pelo entrevistado.


Em circunstâncias normais, seria de esperar – de acordo com os cânones de um jornalismo sério e imparcial – que à vítima de ataque fosse solicitada uma reacção em relação às acusações que lhe foram dirigidas. Tal não aconteceu, apesar de V. Exa. saber que eu considerei aquela entrevista um ataque especificamente focado em atingir o meu bom nome, no momento em que o questionei sobre as razões da mesma não estar assinada e, nesse contexto, sobre quem tinha sido então o "profissional" que tinha dirigido aquele "trabalho".


Tendo V. Exa., primeiro, ficado de averiguar tal autoria e, depois, me comunicado que tal "autoria" era da responsabilidade "da redacção", ficou evidente que – não tendo sido nenhum dos habituais colaboradores nem o director a fazê-la –a entrevista tinha propósitos bem definidos e de que o jornal que dirige deu cobertura a tais propósitos.


Quanto às afirmações do entrevistado em relação à minha pessoa apenas tenho a comunicar que elas serão objecto de tratamento no foro judicial. Aqui, e publicamente, é assunto encerrado.


Nos termos da lei, solicito que esta minha nota seja publicada no mesmo local e com o mesmo destaque da peça jornalística que lhe deu origem. Do mesmo modo, espero igualmente que V. Exa. não viole o n.º 6 do art.º 26.º da Lei de Imprensa.


Curiosamente, ou talvez sem rigorosamente nada de curioso, o Sr. Director acabou por me responder por meias palavras sob a epígrafe "Físico-Química". Falou de reacções alcalinas ou básicas (Química), escusando-se a falar de Física (a menos que estivesse a considerar a queda abrupta do seu prestígio pessoal e dos "profissionais" anónimos que o acompanham).


Disse o senhor que "mais importante do que saber quem faz as perguntas numa entrevista, é saber interpretar as respostas…", acrescentando que a função do jornal é "tentar apurar a verdade dos factos" e que aos "jornalistas e às redacções compete-lhes apenas perguntar…"


O Sr. Director esqueceu-se que para apurar a verdade devia, no mínimo, ouvir ambas as partes, para permitir ao público leitor "interpretar as respostas". Mas não, só interessava acusar uma das partes… com intenções e autores óbvios. Ficou tudo esclarecido.


O que me indigna no meio disto tudo é o meu advogado dizer-me que não tenho "matéria" para processar quem ficou à porta da quinta a segurar o saco; que só posso acusar a pessoa que leu o guião. Nestas como noutras coisas, "quem se lixa é o mexilhão"…

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Condenado…

Notícia de última hora… de um dia destes… de uma semana que já passou… dá conta que o senhor Presidente da Câmara de Vila Viçosa foi vítima de uma descarga de bílis, que lhe provocou imenso azedume e alguma rabugice. Lá como cá, como em todo o lado, há sempre pessoas que reagem assim quando as coisas não lhes correm de feição. O PSD de Estremoz formula votos no sentido do rápido restabelecimento do referido senhor.


Publicado na edição de 03Jul2009, na secção "Mesa Redonda", do Jornal Ecos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A mocidade dos cotas II

Por acaso os Paper Lace até eram britânicos, coisa que nem me passava pela cabeça quando os ouvi pela primeira vez em 1974 a falarem de Chicago.

A história contada é de ficção mas inspirada no famoso massacre de S. Valentim executado pelos capangas de Alphonse Capone.

Para mim, a atracção por esta música começou logo na sirene...

Para quem quiser recordar e acompanhar a música, a letra está logo a seguir ao vídeo.

Se quiserem ver um outro vídeo mais documentado e com a letra em legenda, sigam então este atalho: http://www.youtube.com/watch?v=kwwaGXcZ6Wo



Daddy was a cop
On the East Side of Chicago
Back in the USA
Back in the bad old days
In the heat of a summer night
In the land of the dollar bill
When the town of Chicago died
And they talk about it still
When a man named Al Capone
Tried to make that town his own
And he called his gang to war
Against the forces of the law
I heard my momma cry
I heard her pray the night Chicago died
Brother, what a night it really was
Brother, what a fight it really was
Glory be
I heard my momma cry
I heard her pray the night Chicago died
Brother, what a night the people saw
Brother, what a fight the people saw
Yes, indeed
And the sound of the battle rang
Through the streets of the old East Side
'Til the last of the hoodlum gang
Had surrendered up or died
There was shouting in the street
And the sound of running feet
And I asked someone who said
"'Bout a hundred cops are dead"
I heard my momma cry
I heard her pray the night Chicago died
Brother, what a night it really was
Brother, what a fight it really was
Glory be
I heard my momma cry
I heard her pray the night Chicago died
Brother, what a night the people saw
Brother, what a fight the people saw
Yes, indeed
Then there was no sound at all
But the clock upon the wall
Then the door burst open wide
And my daddy stepped inside
And he kissed my momma's face
And he brushed her tears away
The night Chicago died
Na-na na, na-na-na, na-na-na-na-na
The night Chicago died
Brother what a night the people saw
Brother what a fight the people saw
Yes indeedThe night Chicago died
Na-na na, na-na-na, na-na-na-na-na
The night Chicago died
Brother what a night it really was
Brother what a fight it really was
Glory beThe night Chicago died
Na-na na, na-na-na, na-na-na-na-na
The night Chicago died
Brother what a night the people saw
Brother what a fight the people saw
Yes indeed

A mocidade dos cotas

Sob este título irei deixar aqui algumas memórias que nos remetem para os últimos decénios do séc. XX.
A estrear os Deep Purple e Smoke on the water...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A ousadia no embuste

Sabiam que houve um sujeito – Victor Lustig de seu nome – que em 1925 conseguiu vender a Torre Eiffel? A história conta-se em… algumas palavras. O nosso herói convidou os mais ricos sucateiros de Paris para uma reunião sigilosa no Hotel Crillon que, à época, era só o mais distinto e luxuoso da capital francesa. O propósito da reunião apenas seria revelado no decurso da mesma, já que o encarregado de missão do governo francês catalogou o encontro de matéria classificada de interesse nacional. Prestes a explodirem de curiosidade os convidados ficaram siderados com o que ouviram: "o Governo vai ter de desmontar a Torre Eiffel!". "Porquê?", perguntaram alguns… e seguiu-se a explicação: a torre tinha sido projectada como estrutura temporária – para a Exposição Universal de Paris de 1889 (que também assinalava os 100 anos da Revolução Francesa) – e agora o município estava a revelar-se incapaz de suportar os custos de manutenção. Como é evidente, os sucateiros a partir daquele momento ficaram com uma determinada zona do cérebro completamente bloqueada: sete mil toneladas de aço divididas por 15 mil peças a x o quilo… Concluindo: os sucateiros ficaram de licitar e o trapaceiro de escolher a melhor vítima para a sua jogada. O eleito foi aquele que se mostrou mais sensível às queixas do "alto funcionário" que andava a negociar milhões e tinha um salário de miséria, "pondo-se a jeito" para ser "subornado". Resultado, o pato perdeu duas coisas: o suborno (uns trocados de milhares); e mais uns quantos milhões de sinal pela adjudicação do negócio.


Resta interpretar esta história e justificar o seu propósito. Por muito que tentemos contrariar esta tendência, o nosso primeiro instinto vai no sentido de confiar nas aparências. Para vencer a resistência dos mais desconfiados há um truque adicional: ser ousado. Como a História demonstrou, houve pelo menos um dos sucateiros que achou que ninguém se lembraria de vender a Torre Eiffel se não fosse mesmo verdade... era assunto demasiado sério para brincar. Pois foi… caiu na mesma.


Paradoxalmente, o charlatão não pode abusar, saltitando de sucesso em sucesso, se não for comedido, deixa que as suas artimanhas pareçam aquilo que são: fraudulentas. Em 1934, Victor Lustig acabou preso em Alcatraz, onde fez companhia a Alphonse Capone, "amigo" que também já havia burlado, ousadamente (quem iria lembrar-se de burlar um assassino impiedoso como Capone?).


Por cá temos um primeiro-ministro que nos prometeu 150 mil empregos, não subir os impostos, manter as SCUT sem portagens e que agora faz voz de falsete nas entrevistas para dar ares de virgem imaculada. Agora já nos fala de Keynes, dos benefícios do desmesurado investimento público e diz-nos que é graças a ele que vamos, finalmente, atingir o Nirvana.


Oh Victor, perdão, José, não achas que estás a abusar?

Publicado na edição do Brados do Alentejo de 25 de Junho de 2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Reacção indigna

Numa anterior entrada que intitulei "Reacção ácida" disse que me faltava falar com uma pessoa.
Pois bem, já falei. Por duas vezes até. A pessoa em questão era - identificando-a pelo respectivo cargo - o Senhor Director do Jornal Ecos.
Posso resumir a nossa primeira conversa - directa, presencial e cordial - na questão central que lhe coloquei: quem conduziu a entrevista (não assinada) em que fui visado pelo entrevistado? Resposta (em discurso indirecto): ia averiguar.
A segunda conversa foi telefónica. A pergunta, a mesma. A resposta, aquela que já esperava: foi a Redacção! Ora aí está um interessante substantivo colectivo que, sem rosto, representa um conjunto de substantivos comuns com idênticos atributos (os jornalistas). Acontece que, salvo melhor informação, aquele jornal apenas dispõe de 2 jornalistas - excelentes profissionais, frise-se - os quais, cientes do código deontológico que rege as suas profissões, não terão qualquer problema em assinar os respectivos trabalhos... assim sejam eles a fazê-los.
Face à resposta dada, estão legitimadas todas e quaisquer presunções que se queiram fazer, quer em relação à "espontaneidade" daquela entrevista improvável quer em relação aos propósitos que a mesma visou.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O outro lado



Isto para mim foi uma novidade. Nunca tinha respondido a perguntas deste tipo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Reacção ácida

Todos os que me conhecem e estão a par das notícias da terra sabem exactamente do que estou a falar. Enfim, os actos ficam para quem os pratica.

Pela parte que me toca, a reacção não irá ser ácida. Será serena, sem grandes alaridos. Mas sou uma pessoa determinada. Por isso, quando agir – e vou agir certamente – quero estar certo daquilo que suspeito... só me falta falar com uma pessoa. Espero que tal pessoa me responda à pergunta que lhe vou fazer. Quando o fizer, se o fizer, fica desde logo tudo esclarecido. Se não o fizer, por não o querer fazer, vai ficar tudo esclarecido na mesma.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Citando La Finestra del Mondo

Com a devida vénia, e por subscrever o afirmado em La Finestra del Mondo pelo meu amigo Nuno Gato, transcrevo na íntegra o post hoje colocado naquele blogue.


"Era eu que tinha que pensar nisso?"
"Não era eu que tinha de fazer isso."

O vídeo que está em baixo mostra o Governador do Banco de Portugal a responder a algumas perguntas do deputado Nuno Melo. As frases em cima são o resumo daquilo que se passou no BPN nos últimos anos.

Nesta sequência de perguntas Vitor Constâncio diz que um CEO (Chief Executive Officer), pelos vistos é assim que ele gosta de ser chamado (o tipo da responsabilidade que não é responsável por nada... um pouco à CEO Americano do último ano e meio), não tem de pensar em coisas de pequena importância como o AS400.

É certo que o chefe máximo de uma organização não tem de saber tudo, mas no mínimo deve assumir a responsabilidade da escolha de determinadas equipas para acompanhar os trabalhos de fiscalização que são feitos. Agora, nem saberem o que é o AS400? Não perguntaram o que era? Um portátil?

Eu diria que uma entidade fiscalizadora deve ser céptica e não acreditar em tudo o que lhe dizem, no BP pelos vistos não é assim.

Processos de crédito que desde 2002 não respeitavam as "boas práticas", sem evidência da sua aprovação ou avaliação de risco. Que é isto? A amostragem serve sim, e é usada por todas as auditoras e entidades fiscalizadoras, mas digo eu, por experiência própria, que as amostragens são seleccionadas criteriosamente, ora com base em métodos estatísticos aleatórios ou então (quando são relevantes), pelos montantes que envolvem. No BP não é esta a prática.

E dava para escrever mais.

Para terminar, não percebo a irritação do Governador.

Não era ele que tinha de pensar nisso, nem era ele que tinha de fazer aquilo.

Mas posso lembrar-lhe, somos nós que vamos pagar tudo!!!!

"E o burro sou eu?!"

Apontamento de NFG às 8:47 AM



Fonte: http://lafinestradelmondo.blogspot.com/2009/06/era-eu-que-tinha-que-pensar-nisso.html

domingo, 14 de junho de 2009

Chicken a la Carte


Penso saber que este vídeo foi produzido em 2005. Porém, só hoje soube da sua existência... e também hoje contribuo para a sua divulgação.


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Haja Esperança!

Os resultados eleitorais do passado fim-de-semana suscitam-me três comentários.



Primeiro: as sondagens. Errar em cerca de 10 pontos percentuais no resultado final é algo de desolador e nada abonatório. As instituições que realizam sondagens, enquanto centros de matemática aplicada, têm uma imagem e um prestígio a defender. Não o fizeram nestas eleições, tal como já não o tinham feito em eleições anteriores. Se a inferência estatística é uma técnica consolidada que, invariavelmente, conduz a resultados precisos, tais erros só podem ser explicados por partirem de amostras que não são representativas do universo que se pretende estudar. O erro, como está bem de ver, não advém da Matemática, como prova o facto de as sondagens feitas "à boca das urnas" não terem errado. O que não pode continuar a aceitar-se é que as empresas de sondagens limitem as suas consultas a telefonemas para a rede fixa. Ficou por demais demonstrado que as pessoas que estão em casa, às horas dos telefonemas, não representam fidedignamente o universo eleitoral.



Segundo: os resultados nos meios rurais. O concelho de Estremoz constitui um bom exemplo de como, qualquer que seja o ângulo de análise, a pressão social exercida sobre os habitantes das comunidades rurais é deveras mais opressiva que aquela que igualmente existe nos meios urbanos. Na política, nos meios pequenos, as pessoas têm maior dificuldade em exercitar o voto consciente, preferindo, inúmeras vezes, a tranquilidade do voto conveniente ou o sossego da abstenção. Teme-se pelos empregos, teme-se pelo evoluir dos pequenos negócios, chega a temer-se a mera desconformidade com aquilo que se pensa ser a onda dominante. Se juntarmos a isto o olhar "controleiro" dos caciques locais, onde se insinuam ameaças veladas, então o desvio entre aquilo que se intimamente se sente e a opinião que se expressa pode atingir dimensões consideráveis.



Terceiro: a Esperança. Creio que a Esperança foi, afinal, a única vencedora destas eleições. Uma vez mais ficou provado que, em Democracia, a opinião das pessoas conta verdadeiramente. Sócrates, o homem que, qual imperador romano, não recebe lições de ninguém e se diverte a atirar certos grupos sociais às feras, sentiu na pele que os seus tiques salazarentos já não rendem como renderam no início do seu mandato. O eleitorado fartou-se de tanta arrogância, da bazófia e da governação de faz-de-conta. E fez muitíssimo bem. Afinal, tal permitiu às pessoas perceberem novamente que têm força para correr com as figuras políticas que consideram detestáveis. Sócrates diz que não vai mudar nada e que ainda ficará mais determinado. OK. Espero pois que o eleitorado, agora que já sabe a força que tem, também fique determinado em lhe dar o pontapé na massa da albarda que ele merece.



Nota final: repararam na voz embirrante de Lurdes Rodrigues? "Deixem-me passar…". Deixamos sim… para a rua.

Publicado na edição do Brados do Alentejo de 12 de Junho de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

"CARTA AOS ELEITORES DO CIRCULO DE CINTRA" - 1858 - Alexandre Herculano

A carta de Herculano é, como era norma naqueles tempos, muito longa... Longa em demasia para um blogue. Ainda assim, há passagens daquilo que se escreveu há 151 anos que permanecem actuais... em especial em Estremoz.

CARTA AOS ELEITORES DO CIRCULO DE CINTRA - 1858
Alexandre Herculano

«Senhores eleitores do circulo eleitoral de Cintra. Acabaes de me dar uma demonstração de confiança, escolhendo-me para vosso procurador (...): sinto que me não seja permittido acceitá-la.

Se tal escolha não foi um daquellas inspirações que vem ao mesmo tempo ao espirito do grande número, o que é altamente improvavel, porque o meu nome deve ser desconhecido para muitos de vós; se alguem, se pessoas preponderantes nesse circulo, pelo conceito que vos merecem, vos apresentaram a minha candidatura, andaram menos prUdentemente, fazendo-o (...) e promovendo uma eleição Ínutil.

(...)

Duas vezes nos comicios populares, muitas na imprensa tenho manifestado a minha intima convicção de que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu representante individuo que lhe não pertença; que por larga experiencia não tenha conhecido as suas necessidades e miserias, os seus recursos e esperanças; que não tenha com os que o elegerem communidade de interesses, interesses que variam, que se modificam, e até se contradizem, de provincia para provincia, de districto para districto, e ás vezes de concelho para concelho.

(...)

E isto que vi perspicuamente, apesar de uma observação transitoria, vêem-no todos os dias, palpam-no, e, o que mais é, padecem-no centenares de homens honestos e intelligentes que vivem obscuramente por essas villas e aldeias de Portugal. Como os seus vizinhos, elles são victimas da nossa absurda organisação; disso a que por antiphrase chamamos administração e governo. É entre taes homens que os circulos deveriam escolher os seus representantes: é entre elles que os escolherão por certo no dia em que comprehenderem que o direito eleitoral é uma espada de dous gumes com que os cidadãos estão armados para se defenderem a si e a seus filhos, mas com que tambem podem assassinar-se e assissiná-los.

(...)

Fortes tendencias para a eleição da localidade se manifestam já por muitas partes, e os governos e as parcialidades vêem-se constrangidos a transigir com esse instincto salvador. Se não me é licito gloriar-me de ter contribuido para elle se desenvolver, ser-me-ha licito, ao menos, applaudi-lo. É o primeiro passo dado no caminho do verdadeiro progresso social: cumpre não recuar.

Mas, pensando assim, como poderia eu, sem desmentir a minha consciência e as minhas palavras; sem trahir a verdade, sem vos trahir a vós proprios, acceitar em silencio o vosso mandato? É honroso merecer a confiança dos nossos concidadãos, mas é mais honroso viver e morrer honrado.

Não haverá no meio de vós um proprietario, um lavrador, um advogado, um commerciante, qualquer individuo, que, ligado comvosco por interesses e padecimentos communs, tenha pensado na solução das questões sociaes, administrativas e economicas que vos importam; um homem de cuja probidade e bom juizo o tracto de muitos annos vos tenha certificado? Ha, sem dùvida. Porque, pois, não haveis de escolhê-lo para vosso mandatario?

(...)

Aconselho-vos, como acabaes de ver, uma cousa para a qual os estadistas de profissão olham com supremo desprezo, a eleição de campanario, só a eleição de campanario, a eleição de campanario, permitti-me a expressão, até a ferocidade.

(...)

Quando algum vos mendigar de porta em porta, e com o chapéu na mão, os vossos votos, respondei-lhe, como os eleitores dos diversos circulos do reino lhe responderiam, se o são juizo fosse uma cousa desmesuradamente vulgar:

«Somos uma pobre gente, que apenas conhecêmos as nossas necessidades, e querêmos por mandatario quem tambem as conheça e que n'ellas tenha parte; quem seja verdadeiro interprete dos nossos desejos, das nossas esperanças, dos nossos aggravos. Se os deputados dos outros círculos procederem de uma escolha analoga, entendemos que as opiniões triumphantes no parlamento representarão a satisfação dos desejos, o complemento das esperanças, a reparação dos aggravos da verdadeira maioria nacional, sem que isto obste a que se attenda aos interesses da minoria, que ahi se acharão representados e defendidos como se representa e defende uma causa propria. Na vulgaridade da nossa intelligencia, custa-nos a abandonar as superstições dos nossos páes: cremos ainda na arithmetica, e que o paiz não é senão a somma das localidades. Homem do absoluto, das vastas concepções, se a vossa abnegação chega ao ponto de sollicitar a deputação do campanario, fazei com que vos elejam aquelles que vos conhecem de perto, que podem apreciar as vossas virtudes, o vosso caracter. Certamente vós habitaes n'alguma parte. Se não quereis abater-vos tanto, arredae-vos da sombrado nosso presbyterio, que offusca o brilho do vosso grande nome. Sêde,como é razão que sejaes, deputado do paiz. Não temos para vos dar senão um mandato de campanario.»

(...)

A eleição de campanario é o symptoma e o preambulo de uma reacção descentralisadora, a descentralisação é a condição impreterivel da administração do paiz pelo paiz, e a administração do paiz pelo paiz é a realisação material, palpavel, effectiva da liberdade na sua plenitude, sem anarchia, sem revoluções, de que não vem quasi nunca senão mal. Para obter este resultado, é necessario começar pelo principio; é necessário que a vida pública renasça.

(...)

Os partidos, sejam quaes forem as suas opiniões ou seus interesses, ganham sempre com a centralisação. Se não lhes dá maior numero de probabilidades de vencimento nas luctas do poder, concentra-as n'um ponto, simplifica-as, e obtido o poder, a centralisação é o grande meio de o conservarem.

Nunca esperem dos partidos essas tendencias. Sería o suicidio. D'ahi vem a sua incompetencia, a nenhuma auctoridade do seu voto n'esta materia. É preciso que o paiz da realidade, o paiz dos casaes, das aldeias, das villas, das cidades, das provincias acabe com o paiz nominal, inventado nas secretarías, nos quarteis, nos clubs, nos jornaes, e constituído pelas diversas camadas do funccionalismo que é, e do funccionalismo que quer e que ha de ser.

(...)

Quereis encontrar o governo central? Do berço á cova encontrae-lo por todas as phases da vossa vida, raramente para vos proteger, de continuo para vos incommodar.

(...)

Não receeis que a descentralisação seja a disgregação. O governo central ha de e deve ter sempre uma acção poderosa na administração pública; há de e deve cingi-la; mas cumpre restringir-lhe a esphera dentro de justos limites, e os seus justos limites são aquelles em que a razão pública e as demonstrações da experiencia provarem que a sua acção é inevitavel. O ambito desta não deve dilatar-se mais.

(...)

Não me consentindo a brevidade do tempo e a urgencia de outras occupações expôr-vos todos os motivos por que dou tanta importancia á doutrina eleitoral que submetto á vossa consideração, não tenho direito a insistir em que a sigaes com a inabalavel firmeza com que intimamente creio que a deverieis seguir. N'essa hypothese, se vos apresentarem candidaturas de individuos extranhos ao vosso circulo, cujo caracter não possaes avaliar por vós mesmos, consenti em que vos lembre um arbítrio para não serdes ludibriados. Consultae aquelles que pessoalmente os conhecerem, mas só aquelles, que, pagando tributos, e não disfructando-os, viverem no meio de vós ha longos annos do producto do seu trabalho ou da sua propriedade, e que gosarem de solida reputação de intelligencia e de probidade. Como homens de bem, e como tendo interesses analogos aos vossos e confundidos com os vossos, elles não podem enganar-vos. Escolhei o que elles escolherem; regeitae o que elles regeitarem. Vença qual partido vencer, tereis ao menos um procurador honesto; porque todos os partidos tem no seu seio gente honrada. Escusado é dizer-vos o que n'isso haveis de ganhar.

(...)

Depois, quando alguem, que accidentalmente se ache no meio de vós, sem casa, sem bens, sem familia, sem industria destinada a augmentar com vantagem propria a riqueza commum, e só porque o seu talher na mesa do tributo ficou posto para esse lado, se mostrar demasiado sollicito em nobilitar o vosso voto pela escolha de algum celebre estadista, em que nunca talvez ouvistes falar, ou em livrar-vos de elegerdes algum mau cidadão, cujas malfeitorias escutaes da sua bôca pela primeira vez, voltae-lhe as costas. Padre, militar, magistrado, funccionario civil, seja quem for, esse homem que tanto se agita, afflicto pela vossa honra eleitoral, pelos vossos acertos ou desacertos politicos, póde ser um partidario ardente e desinteressado; mas é mais provavel que seja um hypocrita, um miseravel, que já tenha na algibeira o preço do vosso ludibrio, ou que, por serviços abjectos, espere obter, ou dos que são governo, ou dos que querem fazer o immenso sacrificio de o serem, a realisação de ambições que a consciencia lhe não legitima, e ácerca das quaes só podeis saber uma cousa: é que as haveis de pagar.

Permitti-me, senhores eleitores, que termine esta carta, já demasiado extensa, reiterando-vos os protestos da minha gratidão pela vossa bondade para comigo, e assegurando-vos que, se me fallece ambição para acceitar os vossos votos contradizendo as minhas opiniões, sobeja-me avareza para buscar não perder jámais um ceitil da vossa estima.»

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Curiosidades


Hoje ouvi o Senhor Primeiro-Ministro dizer algo muito interessante:


"A avaliação política dos mandatos faz-se no final dos mesmos!"


Lembram-se de ouvir tal prosápia a este sujeito em 2004?

O pior que nos envergonha




Já o disse por várias vezes: este país tem do melhor que nos orgulha e do pior que nos envergonha.



Hoje vou falar do pior que nos envergonha.



Há cerca de 16 anos o Estado português recusou uma pensão à viúva do Cap. Salgueiro Maia. Desconheço as razões que levaram a que ela fosse requerida, assim como também não estou a par das razões que justificaram a sua recusa. A única coisa que sei é que, nesse mesmo ano, dois inspectores da ex-PIDE/DGS foram abonados com pensões, penso que, similares.



Hoje, podem-se render homenagens a Salgueiro Maia, mais ou menos simbólicas, mais ou menos solenes, porém não vai ser isso que vai mitigar a vergonha nacional que foram os actos praticados naquela altura...

Obstrução de caminhos na Serra d'Ossa II

Na entrada anterior sobre este tema ficou por referir um aspecto deveras importante. Em abono da verdade, no momento em que produzi o texto nem sequer me ocorreu. Foi necessário que uns amigos do Facebook me tivessem alertado para o problema.

Entretanto, surgiu o incêndio da Serra d'Ossa (aquela pessoa parecia que estava a advinhar...), mas, felizmente, ainda não foi desta que ficou demonstrada a sua razão.

A questão é esta: quem, deliberadamente, obstrui caminhos na serra, corre o risco da aranha que fica presa na própria teia. Afinal, se a sua propriedade estiver a arder, não são só as viaturas "indesejáveis" que não passam, as dos bombeiros também ficam retidas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Frases II_2

A pedido de várias famílias, apresento seguidamente a tradução do texto de Albert Einstein reproduzido na anterior entrada.



Sobre a Crise, por Albert Einstein

Não podemos esperar que as coisas mudem se continuarmos a fazer sempre o mesmo. As crises podem ser a melhor bênção para qualquer pessoa, assim como para qualquer nação. As crises são fontes de progresso.

A criatividade nasce da angústia, assim como a aurora brota das trevas da noite. É na crise que emergem a criatividade, as descobertas e as grandes estratégias. Quem supera a crise supera-se a si mesmo, sem se deixar superar. Quem culpa a crise pelos seus fracassos está, afinal, a desprezar o seu próprio talento e dar mais atenção aos problemas que às soluções. A verdadeira crise radica na incompetência.

O maior inconveniente das crises está no facto de estas atentarem contra o nosso conforto, porém, só no desconforto é que se buscam as soluções para os problemas. Sem crise não há desafios. Sem desafios a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que desabrocha o melhor de cada um, porque sem crise todo o vento é carícia. Falar da crise é promovê-la e calar-se na crise é exaltar o conformismo. Em vez disto, trabalhemos no duro.

Acabemos de vez com a única crise ameaçadora: a tragédia de não querer lutar para a superar.

Albert Einstein

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Frases II

Let's not pretend that things will change if we keep doing the same things.
A crisis can be a real blessing to any person, to any nation. For all crises
bring progress.




Creativity is born from anguish, just like the day is born form the dark night. It's in crisis that inventive is born, as well as discoveries, and big strategies. Who overcomes crisis, overcomes himself, without getting overcome. Who blames his failure to a crisis neglects his own talent, and is more respectful to problems than to solutions. Incompetence is the true crisis.


The greatest inconvenience of people and nations is the laziness with which they attempt to find the solutions to their problems. There's no challenge without a crisis. Without challenges, life becomes a routine, a slow agony. There’s no merit without crisis. It's in the crisis where we can show the very best in us. Without a crisis, any wind becomes a tender touch. To speak about a crisis is to promote it. Not to speak about it is to exalt conformism. Let us work hard instead.


Let us stop, once and for all, the menacing crisis that represents the tragedy of not being willing to overcome it.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Convergências e divergências…



No primeiro de Janeiro de 1986, Portugal aderiu à então CEE, Comunidade Económica Europeia. Nos termos do acordo de adesão, Portugal beneficiou de importantes transferências financeiras destinadas a combater o atraso endémico que caracterizava o nosso país.



Nos primeiros anos da adesão – os quais coincidiram com o período em que a gestão do país esteve cometida ao PSD – o impacto foi significativo. Por essa altura, mais precisamente entre 1986 e 1995, à linguagem do cidadão comum foi acrescentada uma nova expressão: convergência. Tal expressão era bem entendida na altura por todos, já que significava que estávamos a crescer mais que os outros países no seu conjunto. Por exemplo em 1986 crescemos 4%, enquanto o resto da CEE cresceu cerca de 2,7%; no ano seguinte Portugal cresceu 6,5% enquanto os restantes países cresceram menos de metade; e assim sucessivamente, em 1988, nós 7,5%, os outros 4,1%; em 1989, nós 5%, os outros 3,5%...



Enfim, resumindo, durante a gestão de Cavaco Silva, apenas o ano de 1993 nos foi adverso e logo num contexto em que toda a Europa estava em crise. Com a chegada do PS ao poder, os primeiros anos de Guterres ainda beneficiaram da embalagem antes conseguida. Curiosamente, ou não, enquanto Sousa Franco foi ministro das finanças ainda houve convergência real, se bem que bem mais modesta do que nos anos anteriores. O descalabro dá-se no período pós Sousa Franco, ou seja, quando Pina de Moura, Oliveira Martins e outros que tais tomaram conta da gestão económica e financeira do país. Aí, Portugal começou a divergir claramente do resto da Europa.



Nunca mais Portugal voltou a entrar nos eixos. O mau desempenho económico do país esteve (e está) associado às políticas de faz-de-conta dos socialistas. O PS bem que tenta atirar areia para os olhos das pessoas dizendo que após 2000, também o PSD esteve no poder (pouco mais de dois anos). Pois é, mesmo nesse curto período se revelou a diferença e se iniciou um inverter de tendência de afastamento do resto da Europa, ainda que ainda em divergência.



Com a chegada de Sócrates a história está contada e nem é preciso desculpas de crises internacionais porque antes também as houve. Continuem a votar neles e depois queixem-se!



Cada país tem os políticos que merece.



Publicado na edição de 04Mai2009, na secção "Mesa Redonda", do Jornal Ecos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Loucos geniais - histórias

Reza o ditado popular que "de génio e de louco todos temos um pouco". Alguns episódios recentes fizeram com que me lembrasse deste provérbio. Recordei-me também de uma anedota que se contava na minha juventude. Referia-se ela ao facto de terem fugido 500 malucos do manicómio. Iniciada a busca dos evadidos rapidamente apanharam 3000, só que… não era nenhum dos que lá estavam.

Às vezes não sei bem se malucos são aqueles que têm uma monumental pancada ou se neste conjunto devemos incluir todos aqueles que os rodeiam e que lhes alimentam as taras. Vou dar um exemplo. Conheci um sujeito que certo dia um colega de escola perguntou por ele ao seu pai. Como é natural, o amigo referiu-se ao jovem pelo seu nome próprio. O pai parece que não gostou que o filho fosse tratado de forma tão displicente (pelo nome próprio) já que este tinha acabado de se licenciar e respondeu: "o Dr. Fulano (referindo-se ao filho) está ali no Alentejano (um certo café numa terra alentejana que não a nossa) com o (e agora invento os nomes) Manuel, com o Joaquim e com o Rafael." Curiosamente, os três acompanhantes, aqui tratados pelos respectivos nomes sem qualquer vénia, eram, todos eles, personalidades de destaque naquele meio provinciano, tipo juiz, reitor de colégio e o regente da orquestra lá do sítio.
Anos mais tarde, este tal Dr. Fulano, dono de um ego desmesurado, depois de ter passado boa parte da sua vida a bajular os seus superiores, conseguiu ele, finalmente, um cargo público de reconhecido destaque. Iniciada a sua gestão, as coisas não lhe estavam a correr de feição. Então reuniu o seu staff e saiu-se com esta: "vocês não têm pedalada para mim!". Resumindo: a culpa era dos colaboradores que se limitavam a cumprir as suas orientações. Ora aí está uma saída genial típica dos incompetentes: a culpa é sempre de outros (e, efectivamente, é, mas apenas porque os aturam).


Friedrich Nietzsche, antes de (também) enlouquecer, escreveu uma frase que descreve bem este tipo de personagens: "Em todos os grandes impostores existe uma ocorrência notável à qual devem todo o seu poder: têm o génio de transmitir uma inabalável confiança em si próprios e no resultado das suas acções, que se afiguram de forma milagrosa e atraente aos que os cercam". Este fenómeno baseia-se num simples encadear de causas e efeitos: líder que acredite estar destinado a grandes feitos, tende a piorar sempre que aqueles que o rodeiam lhe dão crédito. Se num primeiro momento todos podemos ser apanhados de surpresa – afinal, se tais personagens estão tão confiantes devem ter alguma razão para isso – deixa de haver desculpas quando se percebe o embuste.

Não andamos nós a alimentar taras e manias a quem não merece?

Publicado na edição do Brados do Alentejo de 28 de Maio de 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

Na ponta da língua

Com as reformas da Milú em breve todas as nossas crianças serão assim.

Baby Girl on Jay Leno Show, Truly Astounding!

sábado, 23 de maio de 2009

As regras do espancamento




Andei por aqui a aprender umas coisas e concluí:

  1. Isto é assunto que deve ser resolvido entre marido e mulher e nunca, mas nunca mesmo, à frente das crianças;
  2. Não deve causar sangramento ou hematomas no corpo;
  3. Deve-se evitar atingir a cara ou outras partes sensíveis do corpo...

Posto isto, só vejo uma solução: umas palmadinhas no rabiosque, com suavidade (com algum carinho até) e, vai daí, as coisas até podem acabar bem... ainda que igualmente em pecado.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Euribor voltou a subir

Estou longe de saber se se trata de uma variação episódica ou se, pelo contrário, se trata de uma inversão de tendência. A minha opinião aponta (pelo menos, por ora) para a primeira das hipóteses.

A subida da cotação do petróleo e das taxas de juro são por alguns encaradas como "boas notícias a médio prazo". O problema é que nós vivemos em Portugal. Com o endividamento que já temos e com a dependência energética que evidenciamos, estas são sempre "más notícias, com tendência para agravar a médio prazo".

Enfim, vamos esperar para ver.

domingo, 17 de maio de 2009

Obstrução de caminhos na Serra d'Ossa

A propósito de um post do meu amigo Jorge Pereira no Estremoz "Revisited" remeti-lhe o seguinte comentário:

«Permitam-me que partilhe aqui convosco a minha opinião.
Em muitos países (com destaque para a Inglaterra) o conceito de propriedade privada sempre foi levado muito a sério. Pessoa que fosse apanhada a devassar ou invadir tal propriedade seria, no mínimo, presa. Talvez por isso mesmo, em contrapartida, proprietário que se apropriasse ou obstruísse um caminho público também ia preso. Lá, caminho público significa mesmo "público".
Face às condicionantes anteriores, resulta evidente que em tais países as pessoas que não são proprietárias apenas podem desfrutar dos prazeres do campo a partir dos caminhos públicos ou, se tiverem rendimentos suficientes para o efeito, aderindo a um country club, que mais não é que uma propriedade rústica comprada por um conjunto alargado de urbanos que franqueia (mediante franquia nada barata) o acesso ao mundo rural.
Em Portugal a tradição sempre foi diferente. Por propriedade privada apenas se entendia aquela que estava devidamente murada. No entanto, está a evoluir de forma acelerada no sentido anglo-saxónico do termo, facto que implicará necessariamente uma intervenção das autoridades públicas no sentido de repor um novo equilíbrio que resulta da alteração do paradigma inicial.
Assim, em concreto e relação à Serra d’Ossa, há que averiguar se:
1. os caminhos agora obstruídos são públicos ou privados;
2. se mesmo sendo privados, se sobre eles recai algum ónus de servidão.
Em qualquer das duas situações anteriores, qualquer pessoa (mas terá mais impacto se forem muitas mais) poderá reclamar junto das autoridades públicas a respectiva desobstrução. Mais: os prevaricadores deverão ser condenados pelo seu comportamento abusivo e, para além disso, sobre eles devem recair todos os encargos decorrentes da desobstrução das vias.
Verificando-se que tais caminhos são efectivamente privados e que, por conseguinte, os proprietários tiveram legitimidade legal para fazerem o que fizeram, penso, ainda assim, que as autoridades públicas, com especial destaque para a autoridade municipal, deverá encetar diligências no sentido de (re)criar corredores ou trilhos – seja por expropriação, seja pela imposição de servidão pública – que permitam aos cidadãos desfrutar deste imenso património natural que é de todos nós. Importa ter presente que o potencial turístico, em especial na área do turismo da natureza e de aventura, ficará seriamente comprometido na ausência de tal intervenção. Tal acção poderá ter custos não negligenciáveis – nomeadamente os que decorrem de indemnizações ou da mera obrigatoriedade de vedar as propriedades afectadas por tal iniciativa – porém, sou da opinião de que os benefícios irão compensá-los largamente.»

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Bloco Central

Tudo começou com Cavaco Silva quando disse, no dia 25 de Abril, que as "forças políticas devem ter presente que sobre elas recai a grande responsabilidade de encontrar soluções de governo". Dois dias depois, instada por Mário Crespo a comentar estas declarações, Manuela Ferreira Leite revelou uma autenticidade pouco comum nos dias que correm, ao responder, em tese e em abstracto, que se sentiria confortável com qualquer solução em que acreditasse, sem excluir, em concreto, um eventual entendimento com o PS. E pronto, desde então nunca mais se deixou de falar de um hipotético regresso do denominado Bloco Central, apesar de, no dia seguinte, a líder do PSD ter clarificado não desejar qualquer acordo com Sócrates.


Mais recentemente, também José Sócrates considerou o bloco central "uma ilusão". Para ele a única saída está numa maioria absoluta do PS, já que esta é "a melhor forma de garantir a estabilidade política", reeditando a mensagem de Cavaco, em 1991, quando pediu uma "maioria clara" como forma de assegurar a governabilidade do país. Ainda que noutro contexto, dizia há dias Adriano Moreira – aliás citando uma frase de Jonh Acton proferida ainda no séc. XIX – que "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente". Se alguém tem dúvidas da exactidão desta frase, estou em crer que os tiques autocráticos que Sócrates tem revelado podem ajudar a desvanecê-las.


Por outro lado, a ideia de um eventual bloco central para evitar este cenário é igualmente deprimente. Se os partidos que habitualmente alternam no poder se aliarem, as alternativas que restam são os demais partidos que, por ora, não têm merecido a confiança da maioria dos portugueses. É como mandar apagar a luz ao fundo do túnel.


Posto isto, ficamos perante um dilema: o que preferimos nós, a estabilidade ou a instabilidade política? Pela parte que me toca, já o disse e escrevi por várias vezes, continuo a entender que a nossa arquitectura constitucional é a principal culpada de toda esta celeuma. Sem maiorias parlamentares não há estabilidade governativa e, em contrapartida, quando existem, não há freios e contramedidas que impeçam o poder absoluto de um só partido, quiçá de uma só pessoa, porque não existe uma efectiva separação dos poderes executivo e legislativo. Insisto: não havia necessidade de sermos forçados a esta escolha. No presidencialismo a estabilidade governativa estaria garantida. Cada mandato duraria 4 anos e nada nem ninguém impediria que assim fosse. Por outro lado, teríamos um parlamento que, sendo independente do governo, garantiria os direitos fundamentais do cidadão e preveniria os abusos de poder.


Elegendo o presidente em 2 voltas teríamos também direito à segunda escolha e, desse modo, a optar pelo menor dos males. Como Régio no "Cântico Negro" poderíamos dizer: «não sei por onde vou, sei que não vou por aí!»


Publicado na edição do Brados do Alentejo de 14 de Maio de 2009

All Rocky movies in five seconds

Vi e não resisti. Onde vi diziam que qualquer dia, face ao ritmo frenético a que vivemos o dia-a-dia, todos os filmes serão assim... com 5 segundos de duração... "mais coisa menos coisa" (como dizem os protagonistas de "As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos")!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ribeira das Águas Belas

Costuma dizer-se que quem conta um conto acrescenta um ponto. Às vezes, nem é por mal nem por qualquer intenção deliberada de distorcer a verdade. Quando, involuntariamente, alguém reproduz a terceiros um relato de forma diferente da original, tal pessoa poderá ter sido vítima de um erro de percepção que a Psicologia tipifica de várias formas: (1) acentuação perceptiva – quando as pessoas interpretam de forma exagerada a mensagem recebida –; (2) defesa perceptiva – quando o subconsciente bloqueia uma informação inesperada ou improvável –; (3) selectividade perceptiva – quando o cérebro apenas vê o bom ou o mau, o que se teme ou que se deseja, o que se gosta ou o que se detesta, desprezando os elementos da informação em sentido contrário –; e, finalmente, (4) a distorção perceptiva – a qual ocorre quando o verdadeiro significado da mensagem não é adequadamente percebido e acabada reinterpretado de acordo com a forma que faz sentido para o receptor da mesma.


A lenda que vos vou contar – como qualquer lenda – mistura factos históricos, narrados pelas crónicas da época, com outros alegados acontecimentos, não comprováveis, cujos relatos podem ter sofrido alterações à medida que iam sendo repassados oralmente de geração em geração. Esta história ouvia-a do meu pai. Do mesmo modo, também ele a terá ouvido a outros ainda mais antigos…


Trata-se de um relato de uma batalha em que esteve envolvido Nuno Álvares Pereira. Ao que parece, quando este e o seu pequeno exército saíram ao encontro dos invasores espanhóis, já estava consciente que a mera bravura dos seus homens poderia não ser suficiente para levar a bom termo a contenda. Portanto, havia que compensar com astúcia a desvantagem em número e em armamento em relação às forças invasoras. Assim, usou o escudeiro espanhol que lhe propôs a rendição e a passagem para o lado espanhol para montar o ardil. A artimanha foi responder de forma provocatória aos espanhóis impelindo-os a saírem ao seu encontro. Tal permitiu que Nun’Álvares escolhesse o terreno para o confronto, elegendo uma várzea alagadiça junto a uma ribeira dissimulada por vegetação alta. Para dar a ideia de que estava a dar descanso às suas tropas, mandou apear a sua cavalaria, ocultou lanças no solo não visíveis de quem vinha à carga a galope e, ao mesmo tempo, emboscou os seus archeiros de ambos os lados do vale. Quando a cavalaria adversária se atolou na várzea sofreu pesadas baixas, quer pelo efeito das lanças ocultas quer pelas flechas dos archeiros. Tal facto criou desânimo nos adversários, levando-os a debandar. O lugar da contenda chama-se hoje Atoleiros.


Após a batalha, Nun'Álvares saciou-se na água ensanguentada da ribeira. Quando lhe perguntaram como era a água naquelas condições ele terá dito: É bela! Tal ribeira chama-se hoje, Ribeira das Águas Belas.

Lembram-se desta?

A História de Portugal tem momentos delirantes. Há pouco tropecei neste episódio acidentalmente e não resisti em colocá-lo aqui. Espero que se divirtam tanto como eu me diverti, quando recordei o anúncio de "greve" do 6.º Governo Provisório, em Novembro de 1975, feito pelo então Primeiro-Ministro, Almirante Pinheiro de Azevedo.

domingo, 26 de abril de 2009

No dia da canonização

Não gostaria de deixar terminar este dia 26 de Abril de 2009 – dia da canonização de Frei Nuno de Santa Maria – para evocar a ligação de histórica de Nuno Álvares Pereira à nossa cidade de Estremoz.
Assim, reproduzo aqui um excerto de um texto editado pela Fundação Aljubarrota relativo à Batalha dos Atoleiros – recentemente celebrada pelo Município de Fronteira – no qual se faz referência a episódios vividos em Estremoz.
“Dirige-se depois para Estremoz, onde teve conhecimento que os castelhanos já estavam no Crato. Mandou então chamar gente dos arredores de Estremoz, bem como de Elvas e de Beja. Juntou estas forças no Rossio de São Braz em Estremoz, onde passou revista à tropa, composta por cerca de 300 cavaleiros, 1.100 homens a pé e 100 besteiros.
D. Nuno não fraquejou perante a grande desproporção de forças que teria de enfrentar. Opinião contrária tinham contudo os capitães que estavam debaixo das suas ordens, que tentaram dissuadi-lo a combater contra um exército muito superior e onde se encontravam dois dos seus irmãos. Para que os seus homens não tivessem dúvidas de que não hesitaria em combater os castelhanos por aí se encontrarem dois dos seus irmãos, D. Nuno referiu que combateria o exército estrangeiro, mesmo que aí estivesse o seu pai. Referiu depois:
“Amigos! Bem sabeis que o Mestre me enviou a esta terra para que com a ajuda de Deus, vós e eu a defendamos de algum mal ou dano que os castelhanos lhe queiram fazer; e que esse feito lhes daria, para sempre, grande honra e bom nome; Grande bem faremos também a nós próprios em lutar, ao defender as nossas terras e bens, de que somos detentores”.
Ouvindo estas palavras, muitos que o ouviam disseram-lhe que no dia seguinte dariam a sua resposta, quanto a participarem no combate. Essa resposta acabou contudo por ser negativa. Perante esta resposta ficou D. Nuno muito irritado, e falando junto a um riacho que então havia no Rossio de São Braz,
[1] disse:
“Amigos! Por serem muitos os castelhanos e grandes senhores, tanto maior honra e louvor vos virá de os vencerdes; e quanto a estarem com os castelhanos os meus irmãos, eu vos digo que defenderei a terra que me criou, e para terdes a certeza de que assim é vos prometo que, com a ajuda de Deus, serei o primeiro a iniciar o combate; e quanto a eles serem muitos e nós poucos, já muitas vezes sucedeu os poucos vencerem os muitos, porque a vontade de Deus é superior à dos homens; Rogo-vos assim que os que comigo quiserem ir a este combate que passem para além deste riacho, e os que não quiserem que fiquem deste lado". Ouvindo isto, disse a maioria dos que o escutavam que queriam ir com ele.
No dia seguinte, 6 de Abril de 1384, D. Nuno mandou tocar as trompetas pelas 6 horas da madrugada, ouviu missa
[2] e depois parte com a sua gente em direcção a Fronteira, que estava então a ser cercada pelos castelhanos vindos do Crato. Parte D. Nuno com um exército de 1.500 homens. Pequena hoste, face á dimensão da tarefa que a aguardava.”
Aproveito ainda para referir que a Igreja dos Mártires foi mandada construir por Nuno Álvares Pereira para evocar os seus “bravos alentejões” – no dizer de Fernão Lopes – que pereceram nas batalhas em que esteve envolvido a partir de Estremoz (mártires, portanto, na salvaguarda da independência nacional em relação a Castela).
[1] Antiga denominação do actual Rossio Marquês de Pombal. Contudo, à época dos factos, é francamente duvidoso que aquele espaço já se denominasse daquela forma.
[2] Existe uma capela do lado nascente do Rossio que faz referência a tal missa, porém datando-a em 5 de Abril, ou seja, na véspera. Porém, apesar da lápide aposta naquela capela, há quem alegue que esta é de construção posterior e que a mesma foi salva da demolição justamente graças aquela evocação a Nuno Álvares Pereira – se quiserem, outro milagre. Ao que parece a ermida onde terá sido celebrada a missa em referência situar-se-ia noutro local nas imediações do rossio, logo, já desaparecida.

sábado, 25 de abril de 2009

3 Ideias para enfrentar a crise…

John Fitzgerald Kennedy terá dito um dia que a palavra crise em chinês é composto por dois ideogramas, sendo que o primeiro se traduz por "perigo" e o segundo por "oportunidade". No caso português, para além de todos os riscos que se correm em cenário de crise económica generalizada, acresce o "perigo" de sermos governados por pessoas para quem a propaganda, as aparências e o faz-de-conta valem sempre mais que a divulgação da realidade que permite às pessoas tomarem decisões racionais. Portanto, a primeira prioridade é falar verdade aos portugueses.


Por outro lado, impõe-se dizer que a crise nacional precedeu a crise internacional. Bem antes de a situação se agravar para a generalidade dos europeus, já nós, portugueses, andávamos a "patinar" há bastante tempo. Existe um desequilíbrio estrutural na economia portuguesa para o qual tem que ser encontrada uma resposta. Sempre que o rendimento cresce – de forma real ou artificial – a consequência mais imediata é o crescimento das importações ter maior expressão que o crescimento das exportações, gerando um défice externo insustentável que propicia condições para o surgimento da crise seguinte. Portanto, a prioridade das políticas públicas deve estar mais orientada para a substituição das importações. Há que robustecer a economia doméstica.


Terceira medida: prevenir a crise social latente. Governar para as pessoas é apoiar os mais desprotegidos no momento em que mais precisam. Pior que não criar riqueza é permitir sentimentos de injustiça social, que derivam da constatação de existirem pessoas que se permitem realizar gastos em bens de luxo e sumptuosos enquanto outros passam sérias dificuldades. O problema agrava-se quando se vêem dirigentes – públicos e privados – beneficiarem com o despedimento das pessoas, como se fossem descartáveis. Dispensaram-se funcionários públicos – os mobilizados, alguns dos quais não auferem sequer o salário mínimo – mas mantêm-se mordomias a certas elites completamente injustificadas. Uns trabalham toda a vida sem conseguirem garantir a reforma por inteiro, enquanto outros adquirem tal direito após alguns meses de contribuições.


Concluo com a referência à oportunidade que coexiste com a crise: este é ano de eleições!




Publicado na edição de 23Abr2009, na secção "Mesa Redonda", do Jornal Ecos.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Dois vídeos

O supremo tribunal federal norte americano admite os vídeos como elementos de prova no âmbito dos processos judiciais. O vídeo seguinte - que, aliás, não é agradável de ver - foi admitido como documento único num processo instaurado a um agente da polícia, por abuso de autoridade.

O que aqui está em causa não é se o agente agiu bem ou mal, se tinha ou não intenção de molestar deliberadamente a vítima. O que está em causa é que vídeo foi admitido como "prova".



O vídeo seguinte respeita ao caso Freeport. O objectivo do mesmo não é demonstrar que Sócrates é culpado do que quer que seja. O que se pretende colocar em evidência é que, salvo melhor opinião (ou informação), em Portugal as imagens captadas sem o consentimento ou conhecimento do arguido são consideradas nulas e, por conseguinte, não admissíveis como prova em processos judiciais. A jurisprudência portuguesa está repleta de inúmeros casos em que, apesar de ser evidente a existência de ilícitos criminais, supostamente aferíveis e comprováveis através de imagens de vídeo, os réus acabam absolvidos sempre que não existam meios de prova adicionais. Estou a recordar-me de um caso em que a videovigilância de uma empresa provava comportamentos ilícitos por parte de uma trabalhadora. Pois bem, quem acham que pagou as custas do processo? Advinharam: a entidade patronal. Mas sabem que mais? Se um ou uma colega tivesse visto o ílicito - mesmo que a arguida não soubesse que tinha sido vista nem tivesse autorizado tal terceira pessoa a vê-la - e quisesse testemunhar tal facto, tal testemunho já era admitido. A justiça portuguesa parece preferir a denúncia - ou mesmo a delação maldosa - à absoluta imparcialidade de uma imagem de vídeo.

Concluo reafirmando o alerta anterior. Pela minha parte, este vídeo não pretende "culpar" Sócrates. A única coisa francamente evidente nele é que quem o gravou sabia que alguém se tinha "abotoado" com dinheiro do Freeport. Sabe-se também que desconfiava do Sr. Charles Smith, caso contrário não tinha feito o vídeo. Agora que deve ser averiguada a veracidade das afirmações deste, disso não tenho a menor dúvida. A única coisa que sei é que este vídeo em Inglaterra é admitido como prova; e que em Portugal não.

A minha reflexão tem apenas a ver com o sistema judicial português e a sua mais que comprovada reduzida eficiência.


Piada

É apenas uma piada... embora eu saiba que vai haver quem não ache graça.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ad valorem III

Parece que foi ontem mas a verdade é que já faz 3 anos que iniciei a coluna ad valorem.


No primeiro artigo afirmei que ad valorem reflecte "a convicção de que as pessoas têm valor e de que têm valores". Esta profissão de fé – chamemos-lhe assim – continua inalterada. Tem subjacente uma miscelânea de visões doutrinárias e de filosofias que ao longo da vida fui bebendo em "várias fontes". Todavia, ao contrário do que sucede noutras crenças, não tem o transcendental por objecto mas sim, e apenas, a valia humana. Algo bem terreno, portanto.


E porque acredito eu na valia humana? Porque o ser humano quando nasce vem dotado de um conjunto de aptidões naturais – lógico-matemática, linguística, espacial, musical, físico-cinestésica, intrapessoal e interpessoal. De uma maneira geral, todos nós nos destacamos positivamente em pelo menos uma destas vertentes. Dito de outro modo, somos quase sempre bons em alguma coisa (desde que queiramos trabalhar tais aptidões, transformando-as em capacidades e competências). Tal não implica que tenhamos uma capacidade lógico-matemática de um Einstein, uma capacidade linguística de um Camões, uma capacidade de organização espacial de um Souto Moura ou de um Siza Vieira, uma capacidade musical de um Mozart, uma capacidade físico-cinestésica de um Joaquín Cortés ou de um Cristiano Ronaldo, uma capacidade intrapessoal de um Daniel Sampaio ou uma capacidade interpessoal de um Barack Obama. No entanto, todos temos potencial para sermos suficientemente bons no desenvolvimento de uma qualquer actividade produtiva ou no exercício de uma profissão.


O reverso da medalha está no facto de, do mesmo modo que temos potencial para ser bons em alguma coisa, também invariavelmente revelamos maiores dificuldades em uma ou mais áreas. Ainda assim, também aqui há uma boa notícia: quem revela menores aptidões naturais num qualquer domínio tem a possibilidade de as compensar com esforço extra. Tal como a massa muscular, também as aptidões podem ser exercitadas. Podemos demorar mais tempo que os dotados a apreender certos saberes e certas competências, porém, uma vez adquiridos, sabemos tanto e somos tão capazes como qualquer outro que à partida estava em vantagem. Afinal, o que conta não é a posição à partida mas sim a posição à chegada.


Posto isto, concluo: o problema de algumas pessoas radica, por um lado, na descrença no seu próprio potencial e, por outro, na ausência de motivação para o desenvolver. Para estas, a mensagem de Paul Arden é aqui oportuna: "o que importa não é quão bom tu és, mas sim quão bom tu queres ser!". É preciso crer e querer.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Campo Aberto

O poema "Campo Aberto" foi publicado em 1951, altura em que o seu autor, Sebastião da Gama, integrava o quadro da Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Em homenagem ao autor – precursor de práticas pedagógicas "arrojadas" para a época – o jornal da Escola passou a denominar-se, justamente, Campo Aberto. Mais tarde, com a reforma Leite Pinto – Galvão Teles (1967), quando o Ciclo Preparatório do Ensino Técnico se fundiu com o seu homólogo liceal, a Escola Preparatória então autonomizada da Escola Técnica (ainda que partilhando a mesmas instalações) escolheu para patrono o nome de Sebastião da Gama. Escolhas justas e inteiramente merecidas.

Em 1972, o meu primeiro contacto com o Campo Aberto não foi com o poema, foi com o jornal antecessor do actual "Notícias da Rainha". Ler notícias sobre personagens que víamos todos os dias fascinava-me, assim como me deliciava com a poesia, a sátira, as anedotas ou meros relatos de situações engraçadas que vivíamos no dia-a-dia. Aqueles que ousavam escrever um artigo técnico eram elevados à condição de divindades intelectuais. Por outro lado, eu estava na Escola Sebastião da Gama, mas Sebastião da Gama não era nada para mim para além do nome da escola. Foi mais tarde que descobri a razão de ser daqueles… "nomes".

Sebastião da Gama era natural de Vila Nogueira de Azeitão. Aos 14 anos foi-lhe diagnosticada a tuberculose óssea que iria custar-lhe a vida. Ciente que iria ter uma morte prematura interiorizou a sua sina exaltando a natureza e a vida de forma exuberante. Pode ter sido curta, mas viveu-a intensa
mente, apesar de ter sempre a morte a pairar por perto. O "Poema da minha esperança" é exemplar: «Que bom ter o relógio adiantado/…/ Tic-tac…/ (Como eu rio, cá p'ra dentro/ de esta coisa divertida: / ele a julgar que é já o resto/ e eu a saber que tenho sempre mais/ três quartos de hora de vida)».

A Estremoz chegou em 1950, após ter concluído a profissionalização como professor do ensino técnico. Foi na EICE que se estreou como "efectivo". A ligação a Estremoz ficou bem patente tanto nos seus poemas como no seu Diário. "Estremoz é boa terra. Ou então é defeito meu". A paisagem de Estremoz inspirou-o ao ponto de escrever "Aonde estou não há Outono". No entanto uma das descrições mais extasiantes foi feita pela sua esposa alguns anos após a sua morte. Foi quando ela viu "nascer" um poema. «Era dia de S. João (24Jun951). Estávamos em Estremoz. Saímos da cidade e subimos a um pequeno monte. (…) A tarde começou a descer, e eu ouvia um sussurro. (…) A certo momento, olhou-me nos olhos e recitou-me "Crepuscular"».
Sebastião da Gama escreveu várias "Cartas de Estremoz" para o Jornal do Barreiro e, pelo menos 3 vezes, no Brados, a última das quais foi publicada 4 dias antes de morrer. A 5 de Fevereiro de 1952 deixou definitivamente o "Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º" rumo ao Hospital de S. Luís, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Tinha 27 anos.

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