A tradição já não é o que era. Aquele ladrão de antigamente que actuava desarmado e cujo propósito se cingia a apropriar-se dos bens alheios está a desaparecer. Hoje, um ladrão é também, potencialmente, alguém que, sem rebuços, atenta contra a integridade física das suas vítimas se as coisas não lhe correrem de feição no decurso do assalto. Portanto, neste contexto, a única atitude inteligente que qualquer vítima de roubo pode ter é, pura e simplesmente, não resistir. É menos heróico mas é também, seguramente, mais saudável.
Muitas são as explicações aventadas para justificar o crescimento da criminalidade violenta. Normalmente refere-se a crise económica e social, destacando-se o desemprego, o materialismo das pessoas, a displicência das autoridades, a ineficácia do sistema judicial, etc., etc. Enfim, se calhar todas as causas apontadas terão, em maior ou menor grau, a sua quota-parte de responsabilidade. Porém, hoje proponho-me reflectir sobre um ingrediente invariavelmente presente em contextos de violência: a agressividade.
A agressividade é uma força instintiva que, como outras, é inata a todos os seres humanos. Mesmo nas crianças na primeira infância – às quais está associada uma imagem angelical de grande doçura – é perceptível tal instinto agressivo (se bem que com diferentes graus de evidência). Ainda que isto possa causar espanto e desorientação nas pessoas, a verdade é que a agressividade constitui um fenómeno natural, o qual está directamente associado ao instinto de sobrevivência. A questão não se coloca, afinal, na origem da agressividade – já que esta evidencia-se, naturalmente e sob várias formas (verbal, física, moral), sempre que nos sentimos em perigo – mas sim no que fazer com ela, como esta deve ser moldada e canalizada para realizações positivas. É aqui que os factores educacionais e afectivos são decisivos. Por volta dos 14 anos – altura em que quando um jovem diz "eu", significa mesmo "ele" (não o pai, a mãe ou qualquer grupo que sobre ele exerça influência) – a assimilação de valores estruturantes da personalidade deve estar tão concluída quanto possível.
Vou dar um exemplo de como pode ser diferente a gestão das emoções e dos instintos durante a formação da personalidade. Na minha geração os jovens liam muitas histórias aos quadradinhos. Não eram pérolas literárias, mas tinham inequivocamente uma virtude: o protagonista da história – fosse ele o Rip Kirby, o Fantasma ou o Mandrake – era sempre o bom e combatia o mal e os malfeitores. Hoje, as crianças não lêem histórias aos quadradinhos; divertem-se com jogos de vídeo que exploram um caldo de emoções (no qual está incluída a agressividade). O problema é que aqui, por vezes, o herói é um espécime do piorio: pratica car jacking, passa semáforos vermelhos, atropela pessoas, esfaqueia-as ou mata-as com uma AK47.



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