domingo, 21 de outubro de 2007

A Justiça criminosa

Transcrição da crónica de Clara Ferreira Alves, publicado na coluna "Pluma caprichosa" da Revista Única - Expresso - 2007Out20
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Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba e
m Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.
Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
Do caso Por
tucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
Vale e Azevedo pagou por todos. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como es
tes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia.E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu?E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente"important
e" estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal,
sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.
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Fotos inseridas pelo Jornal Online "O Palhetas" (http://opalhetas.blogspot.com)

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Os males da nossa Saúde

Quando as pessoas são inquiridas sobre aquilo que mais as preocupa ou que gostariam de ver melhorado as respostas são, de uma maneira geral, consonantes com as situações sentidas por cada um dos respondentes. Assim, os desempregados falam do flagelo do desemprego, os idosos dependentes e seus familiares falam da falta de estruturas de apoio à terceira idade, os que estão doentes ou os que têm a responsabilidade de apoiar alguém que lhes é próximo, falam da reduzida eficiência e eficácia do nosso sistema de saúde.

Começo por falar de saúde. Quando surgiu o cartão de utente, admito que pensei que iria trazer inequívocos benefícios para o sistema de saúde. Hoje (e enquanto a filosofia que inspira a sua utilização não for alterada) assistem-me fundadas dúvidas. De facto, a utilidade do mesmo esgota-se no apoio na área administrativa na admissão de doentes. A partir daí acabou-se. Apesar da tarja magnética conter as informações essenciais sobre o utente, elas não permitem o acesso à ficha clínica do mesmo, na qual deveriam constar todas as informações relevantes, desde as enfermidades de que foi vítima, os tratamentos a que foi sujeito, a medicação que lhe foi prescrita, quando e por quem. Apesar de vivermos no século XXI, apesar de a informática estar a dar contributos inexcedíveis em todas as áreas, gerando inequívocos ganhos de eficiência e eficácia, não existe uma base de dados a que os médicos possam aceder para os ajudar no diagnóstico e tratamento dos seus pacientes. Assim, por vezes, vemos pessoas a padecer mais dos efeitos dos tratamentos do que das maleitas originais, apenas porque os clínicos para sanarem uma qualquer enfermidade prescrevem medicamentos que geram efeitos colaterais, nomeadamente hepáticos, renais, cardíacos ou gástricos. Mais: já aconteceu que uma mera alergia a um determinado composto químico ter sido a causa de morte do paciente. Deveria ser inacreditável mas, infelizmente, não é.

O cartão de utente pode também permitir inequívocos ganhos económicos no sistema. Tenho conhecimento de um paciente ter feito uma TAC no Hospital de Portalegre e de, quinze dias depois, os médicos do Hospital de Évora estarem preparados para fazer outra. É absurdo. Se os dados do diagnóstico estivessem disponíveis no sistema informático, tal hipótese nem sequer passava pela cabeça de ninguém. Outro exemplo tem a ver com a escandaleira derivada das Conferências Médicas patrocinadas pelas companhias farmacêuticas, invariavelmente realizadas em destinos turísticos apelativos. Neste contexto, não se estranha que muitos médicos se oponham à medicação por princípio activo, impedindo a substituição por medicamentos genéricos nas suas prescrições. Se todas as prescrições deixassem "rasto" no sistema nacional de saúde, então era possível responsabilizar. Assim, vale tudo, inclusivamente fraudes com doentes e doenças fictícios que todos nós pagamos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

1. Sufrágio universal; 2. As directas no PSD; 3. Estado de (des)graça; 4. Ciência na rua

Sufrágio universal

Começo com uma citação (entrecortada aqui e ali para abreviar):

"… o povo (…) não sabe escolher os homens mais capazes (…), não possui (…) capacidade reflexiva para acompanhar os conflitos sociais, económicos, jurídicos e até filosóficos que o Estado moderno enfrenta…"

Já está. Agora é tempo de referir que há quem assim pense e que, sem pudor, se considera democrata. São pessoas que têm uma ideia muito peculiar de Democracia. Para eles, que advogam um sistema de castas, o melhor mesmo é a populaça não votar. Espantoso. Fazem lembrar a resposta que Oliver Cromwell deu aos seus soldados em 1649, depois executar o Rei Carlos I de Inglaterra: – Votar? Mas para que querem vocês votar se nem sequer têm propriedades para defender? Confiem em nós, não são os proprietários que vos sustentam? Então, o nosso interesse é o vosso interesse!

São notáveis as semelhanças com os notáveis.

As directas no PSD

Considerando os votos validamente expressos, pode dizer-se que, em Estremoz, Menezes esmagou Mendes (80% contra 20%). No distrito de Évora (incluindo, como é óbvio, Estremoz), Mendes calcou Menezes (72% contra 28%). No plano nacional, Menezes venceu (56% contra 44%). Uma pergunta se coloca – que alguns acharão impertinente – e esta é: o país laranja votou em cada um dos candidatos por o acharem a melhor solução? Ou, pelo menos em alguns casos, terá havido votos de protesto ou contra o candidato que não queriam ver ganhador? As respostas as estas questões entram no domínio da especulação, ainda assim, existem indicadores que sugerem que houve quem votasse Menezes para dar uma lição aos notáveis; assim como terá havido quem votasse em Mendes por temerem a instabilidade associada (não interessa agora se justa ou injustamente) a Menezes. Em Estremoz houve indícios deste fenómeno. De facto, alguns votantes alteraram o seu sentido de voto quando estavam em causa os delegados ao Congresso, ficando a lista afecta a Mendes a apenas 16% (perante uma diferença de 60% nas directas) da lista afecta a Menezes.

Estado de (des)graça

De uma maneira geral, todos os recém-empossados usufruem do denominado "estado de graça", ou seja, aquele período em que lhes é concedido o benefício da dúvida até que sejam visíveis os efeitos das mudanças que implementam ou originam. No entanto, com Santana Lopes tal não sucedeu. Pelo contrário, ainda antes de tomar posse já estava em desgraça. Por seu turno, com Menezes parece que o filme se está a repetir. Haverá alguma razão válida para que os "opinion makers" tentem destruir as pessoas antes de elas terem oportunidade de mostrar o que valem? Haver razões, há certamente, agora razões confessáveis, duvido.

Ciência na Rua

Numa iniciativa conjunta do Município, do Pólo de Estremoz da Universidade de Évora e do Centro de Ciência Viva, a Ciência esteve na rua no passado fim-de-semana. Achei bem.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Ser oposição

Têm sido os maus governos e as más oposições que mais têm contribuído para o descrédito da política e dos políticos. O cidadão comum até quer – ou, pelo menos, em algum momento já quis – acreditar na bondade das soluções que lhes são propostas. Para não o fazer de forma cega ou dogmática, precisa de informação, de esclarecimento, de ouvir diferentes opiniões. Neste contexto, o papel da oposição, desde que bem exercido, é fundamental. Portanto, não é da oposição construtiva que advém o problema. O descrédito provém do facto de aqueles que estão no poder fazerem diferente daquilo que em campanha propuseram ou de fazerem o mesmo daqueles a quem antes se opunham. Para piorar a situação, só mesmo uma oposição que se opõe "para se opor", como se a lógica do sistema obrigasse a dizer mal de todas as iniciativas, independentemente do seu mérito ou demérito, ou a classificá-las de "insuficientes" quando não é conveniente condená-las.

Perante este referencial, o PSD – Estremoz tem procurado exercer uma oposição responsável à acção do executivo socialista no município, cooperando e viabilizando as iniciativas que reputamos de positivas para o concelho – mesmo em circunstâncias em que era mais fácil ser "do contra" – sem, contudo, deixar de denunciar erros, injustiças ou práticas demagógicas. No primeiro caso, citamos como exemplos o apoio político à adesão ao sistema multimunicipal de abastecimento de água e, mais recentemente, não "alinhámos" com a demais oposição na questão fulcral da variante ao IP2. No segundo caso, podemos referir o nosso voto contra a prestação de contas da autarquia e subsequente participação ao Ministério Público de incongruências detectadas nestas (as quais estão ainda sob investigação), denunciámos a hipocrisia de um orçamento que sugeria um crescimento de 67%, desvendámos a incoerência na subida das tarifas da água, chocámo-nos com o plágio da carta educativa elaborada no mandato anterior, desmantelámos a encenação das "reclamações" do PS dirigidas a este jornal, revoltámo-nos com o abate cego e irresponsável de árvores, assim como com a pressão tentacular exercida pela máquina socialista sobre pessoas sérias mas economicamente dependentes, quer oferecendo "avenças" quer insinuando o fim das mesmas.

Este é o nosso estilo de oposição. Para falarmos por falar, preferimos ficar calados. Agora quando falamos é porque entendemos ser importante fazê-lo, seja para apoiar seja para denunciar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Os casos da semana passada

"Lastimável", o caso Scolari

Penso que toda a gente consideraria preferível que a tentativa de agressão de Scolari a um jogador da Sérvia não tivesse acontecido. Porém, aconteceu. Esta não foi a primeira vez (nem seguramente será a última) que alguém perde as estribeiras num momento de grande tensão. Foi, como alguém disse, "lastimável". No entanto, não menos lamentável foi o facto da adjectivação usada ter dado azo a títulos sensacionalistas e, pior do que isso, ter aberto espaço para que os fundamentalistas puristas viessem pregar, alto e bom som, a sua monumental hipocrisia. Até parece que não erram, que não dizem uma palavra errada, que sabem tudo ou que têm sempre razão. Scolari errou. Óptimo! Prova que é humano. Perdeu a cabeça porque se entrega com paixão às suas causas. Afinal, aqueles que controlam bem as emoções são, bem vistas as coisas, aqueles que não têm emoções para controlar. Enfim, façamos coro, vamos amaldiçoar aquele que um dia conseguiu devolver algum orgulho a Portugal.

Resposta pronta

Por acção da abundante pluviosidade que se abateu sobre Estremoz na passada Sexta-Feira à noite (dia 14), a força da água provocou o aluimento do pavimento rodoviário nas obras em curso junto ao Monte Pistola. Foi de tal modo que houve uma viatura que, literalmente, caiu para o buraco. Bom, mas isso foi a parte aborrecida. De positivo, cumpre-me registar a resposta pronta do pessoal do Município, o qual acudiu com grande profissionalismo a uma situação de urgência.

Inocências e coincidências

Li algures uma frase que agora me vem à memória. Alguém disse um dia que se havia coisas em que tinha relutância em acreditar era em inocências e coincidências. Segundo o autor, quando as aparências estão contra alguém, dificilmente inocências e coincidências conjugam.

Neste contexto, em inocências não acreditava porque, por regra, as pessoas já são "manhosas" ainda antes de acabarem a instrução primária. Por outro lado, não acreditava em coincidências porque o seu carácter de excepção é incompatível com a sua ocorrência regular. Terminadas as citações, vamos aos factos. Alguém faz queixa. O visado na queixa é ouvido na instância competente. Curiosamente, alguém da família do auditor está desempregado. Coincidência das coincidências, o visado na queixa estava mesmo a precisar de alguém exactamente com aquele perfil. Inocentemente, o familiar do auditor passa a trabalhar para o visado na queixa. Seria coincidência se a queixa ficasse em "águas de bacalhau"? Termino com outra pergunta inocente: será que tudo isto se passou no Município de Estremoz?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Modelos de governação

Corporate Governance: o caso BCP

Com os políticos de férias, a crise no maior banco privado português ganhou espaço nas manchetes dos órgãos de comunicação social. O que esteve – e ainda está – em causa foi o modelo de governação daquela empresa. De um lado, Jardim Gonçalves pretendia afirmar-se como o "Presidente da República" do banco, reivindicando poderes para nomear e exonerar o Conselho de Administração. Do outro, esteve Paulo Teixeira Pinto, o qual entendia – e, a meu ver, bem – que o Conselho Geral e de Supervisão deveria circunscrever-se às suas funções estatutárias (ou seja, à supervisão). Em termos gerais, poderá dizer-se que o segundo perdeu e, ao mesmo tempo, que o primeiro também não ganhou. De facto, aquela ideia odiosa de que alguém ficava com poderes para dizer mal sem ter a responsabilidade (directa) de fazer melhor não foi avante, pelo menos, nos termos inicialmente preconizados.

Já antes tínhamos visto episódios similares noutras empresas – na TAP, onde os protagonistas foram Cardoso e Cunha e Fernando Pinto; ou na CGD, onde se opuseram António Sousa e Mira Amaral. Em causa, estão os modelos de governação denominados "duais", ou seja, onde coexistem um Presidente do Conselho de Administração (ou Chairman) e um Administrador Executivo (ou CEO, Chief Executive Officer). Enfim, traduzindo para Português corrente, falamos de modelos em que se colocam dois galos no mesmo poleiro. Não vou dizer que tais modelos não funcionam de todo. Quando o Chairman é o pai e o CEO é o filho, como aconteceu na IBM nos anos 50, funcionam em geral até muito bem. Quando o Chairman é o fundador da empresa ou o accionista de referência, como acontece com Bill Gates na Microsoft, o CEO também não reclama já que, à partida, sabe que a si lhe cabe o trabalho duro mas que quem manda é o "velho" ou o patrão, conforme os casos.

Lei eleitoral para as autarquias

Entretanto acabaram as férias e, por conseguinte, os deputados preparam-se para iniciar uma nova sessão legislativa. Em agenda estão, entre outros, dois projectos de alteração da legislação eleitoral: (I) para a Assembleia da República, com a provável introdução dos círculos uninominais; e (II) para as autarquias locais, com a previsível unificação das listas para a Câmara e Assembleia Municipais, sem prejuízo da eleição directa do Presidente.

Tal como no título anterior, vão estar em debate, mais uma vez, modelos de governação, só que, neste caso, de governação autárquica. Do que foi divulgado pela comunicação social, as alterações afiguram-se (a meu ver e globalmente) como positivas. Doravante, com a constituição de executivos maioritários pelas listas vencedoras, quem perde pode reclamar mas não empata, quem ganha pode governar mas fica sem álibis. Porém, fico com pena que, por ora, pareça que não se avance para a mais que necessária transformação das freguesias urbanas em bairros administrativos. Ainda assim, congratulo-me com os pequenos avanços que vierem a ser conseguidos.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Festas da Exaltação da Santa Cruz

Por serem celebradas em Setembro – desde tempos que se perdem na memória – as Festas da Exaltação da Santa Cruz, são também denominadas de Setembrinas ou de Setembro. Por serem realizadas no coração da cidade – e por outras razões que adiante evocaremos – foram (e ainda são) consideradas as Festas da Cidade. Ontem como hoje, o excedente das festas (quando existe) destina-se a apoiar a obra social da Igreja.


Sem nunca terem deixado de ser festas paroquiais – com as tradicionais quermesses, tômbolas, leilões de fogaças, arraiais, bailes e fogo-de-artifício – tempos houve em que a sua grandiosidade transcendia claramente o âmbito da celebração religiosa a que estavam (e estão) associadas. O envolvimento directo do Município nas festas realizadas nos anos sessenta do século passado, por exemplo, tornou possível que se fizessem construções em alvenaria em pleno Rossio, as quais, decorridas as festas, eram demolidas e reedificadas no ano seguinte. Havia quem considerasse um desperdício, tal como havia quem considerasse um investimento… Certo, certo, é que toda a gente achava tais festas fulgurantes e com capacidade para atrair forasteiros.


Na ausência de tal apoio, parece evidente que o cariz paroquial das celebrações prevaleça e, neste contexto, a sua grandiosidade fique balizada pelo volume dos donativos conseguidos e pela generosidade dos voluntários que a organizam e põem de pé. Não se estranha por isso que as actuais Festas sejam mais modestas. (Valha-nos, em contrapartida, que a Obra do Centro Social Paroquial de Santo André é agora deveras mais visível e significativa).


Todavia, nem todos os municípios encaram as suas festividades da mesma forma. Aqui bem perto de nós, a Festa dos Capuchos (que não tinha expressão quando comparada com a nossa) arrasta multidões de toda a região. Mais ousado ainda, o Município do Crato investe centenas de milhares de euros para atrair não apenas uma região mas sim gente de todo o país. Enfim, é tudo uma questão de escolhas. Uma coisa é certa: as Festas da Exaltação da Santa Cruz só poderão ser, efectivamente, as Festas da Cidade com um maior envolvimento do Município.

Ferrovias de Estremoz



Perguntam-nos se faz sentido manter a rede do caminho-de-ferro em Estremoz. Respondemos de forma indirecta com uma outra pergunta: fez sentido derrubar-se a muralha setecentista no troço que ia desde as Portas de Santa Catarina até ao final da Avenida 9 de Abril? Alguém pode hoje apreciar os baluartes, as cortinas que os ligavam, os revelins, os adarves ou as troneiras? O irónico desta situação está no facto de ter sido, justamente, o caminho-de-ferro o "culpado" – ou, pelo menos, um deles – pela demolição da muralha. O argumento usado na época era de que as muralhas espartilhavam a vila, impedindo-a de crescer. Houve quem entendesse que a muralha setentrional era um empecilho, entre outras razões, porque perturbava o acesso aos caminhos-de-ferro, sendo estes vistos, na época, como a ligação de Estremoz ao resto do mundo e, por maioria de razão, ao seu desenvolvimento.
Curiosamente, um século depois, os argumentos repetem-se com ligeiros ajustamentos: agora os "maus da fita" são os carris de ferro. São estes que estão a impedir Estremoz de se desenvolver. Esta ideia é tão errada como aquela que levou os mais ingénuos de outros tempos a pensar que o ramal de Vila Viçosa visava o desenvolvimento desta região. Se assim era, porque não prosseguiu tal linha até à Fronteira do Caia? A resposta era simples: o Palácio Ducal ficava antes e era até lá que Sua Alteza El-Rei D. Carlos desejava o adequado "desenvolvimento" para as suas caçadas na Tapada. Só por isso é que tivemos comboio logo em 1905, caso contrário teríamos de esperar até 1948, data em que foi concluído o ramal de Portalegre, o qual, esse sim nos levava à fronteira pelo caminho mais… sinuoso.
É, de facto, deprimente o estado a que chegou a nossa estação ferroviária. O edifício, de uma belíssima traça arquitectónica tradicional, com painéis de azulejos de grande qualidade artística, está votado ao mais completo abandono. As cocheiras de locomotivas e de carruagens – que albergaram um valiosíssimo espólio histórico – estão agora no meio da "selva", tal é o matagal que se tem de percorrer até as alcançar. Noutros locais – como em Fronteira, por exemplo – as estações foram recuperadas e são hoje factores de desenvolvimento no âmbito do turismo. Casos há em que as antigas locomotivas a vapor foram colocadas em circulação, refazendo percursos históricos e culturais. Aqui há quem só pense em destruir.
Notas:
Este artigo carece de clarificação:
O comboio chegou a Estremoz em 1873 mas... àquela que era então (e se pensava que continuaria a ser) a única Estação de Estremoz, ou seja, ao Ameixial. O comboio só chegou à Estação da futura Av.ª 9 de Abril 30 anos mais tarde, depois de avanços e recuos na definição do traçado da linha, de graves problemas financeiros da companhia e de outras peripécias que já vi relatadas em vários escritos. A referência a 1905 - e não a 1903 - no texto supra justifica-se por ter sido o ano da conclusão e, consequente, entrada em funcionamento do ramal de Vila Viçosa que é aquele que vem referido no contexto.
Por seu turno o ramal de Portalegre foi aberto em 1925 mas apenas e só até Sousel. Apenas em 1937 foram estabelecidas as ligações até Cabeço de Vide e, finalmente, só em 1948, conforme o texto refere, foi concluída a ligação a Portalegre, a qual entroncou por sua vez com a ligação a Elvas (vinda do Entroncamento), a qual já existia desde 1863.
Reconhece-se, no entanto, e isto na sequência de alguns comentários recebidos, que o texto original deste artigo pudesse gerar interpretações erróneas.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Secessão ou sucessão?

Nota prévia

As opiniões expressas nesta coluna apenas vinculam o seu autor.

Os desaires de Mendes

Presumo que Marques Mendes não se sinta, politicamente falando, um homem feliz. De facto, as coisas têm-lhe corrido mal desde que, na sequência do desaire eleitoral do seu antecessor, Santana Lopes, se afirmou como alternativa à liderança do PSD. Logo nesse dia, o impacto gerado não foi exactamente aquele que se pretendia. Ao invés de se transmitir a ideia de que o seu partido se autoregenerava, o que conseguiu foi veicular uma imagem de alguma falta de decoro por não ter deixado "baixar a poeira", chocando a sensibilidade daqueles que ainda carpiam as mágoas pela derrota eleitoral sofrida. Não controlando a sua ansiedade, não esperando que Santana anunciasse que iria sair para então se afirmar como candidato à sucessão, Mendes entrou com o pé torto.

Já antes tinha tido "saídas" infelizes, nomeadamente aquela em que – sucedendo a Fernando Nogueira no anúncio das decisões do Conselho de Ministros – tornou público que o aumento da pensões de reforma iria acabar de vez com "as pensões de miséria em Portugal" (!). Ora aí está como se consegue, em segundos, transformar uma medida positiva do Governo em objecto de chacota e até de indignação por parte daqueles que sabiam da "ginástica" a que eram obrigados para fazer o dinheiro chegar.

Chegado à liderança, Mendes fez da credibilidade a sua palavra-chave. Mais uma vez teve azar. Sem pôr em causa a sua honestidade ou idoneidade pessoal, a verdade é que decorridos mais de dois anos a sua credibilidade continua em deficit. Mais: teceu uma teia de conceitos e de princípios nos quais acabou enredado. Com arguidos para aqui e impolutos para ali, mais de metade do eleitorado do PSD em Lisboa, que votou, preferiu dar a sua confiança aos arguidos. Caramba, esta deve ter doído mesmo.

E Menezes?

Será Menezes a alternativa? O homem que, no Coliseu, acusou a candidatura de Durão Barroso de ser elitista, sulista e liberal, gerando a mais monumental vaia alguma vez ouvida em Congressos do PSD? Não faço futurologia e, portanto, não excluo nenhuma possibilidade, no entanto, mesmo que Luís Filipe Menezes chegue à liderança não lhe vai ser fácil conseguir unir o Partido em seu redor.

Haverá terceira via?

Para já, não sei. Agora que existe, disso não tenho a mais pequena dúvida, assim como tenho a certeza que o próximo primeiro-ministro do PSD irá ser alguém mais apostado em unir do que em fracturar. Ou seja, irá ser um líder, isto é, alguém que, respeitado por todos, irá estar acima de correntes e sensibilidades. Era bom é que avançasse já. Portugal merece uma liderança alternativa CREDÍVEL. E o PSD tem-na!




quinta-feira, 12 de julho de 2007

Preconceitos e “santos de pau carunchoso”

"Contigo em contradição

Pode estar um grande amigo,

Duvida mais dos que estão

Sempre de acordo contigo"

António Aleixo in Este livro que vos deixo


Há quem entenda que uma crítica é sempre destrutiva e que quem critica deve ser considerado inimigo. Há quem pense que tudo quanto de mal acontece é culpa dos outros. Há quem considere preferível a passividade perante as injustiças à existência de pessoas que as denunciem. Há quem prefira o culto das aparências à humildade da sua verdadeira condição. Há quem pense que mudando as palavras se transforma a realidade. Há quem acredite que para se ter sucesso basta parecer bem sucedido.

Nesta coluna já foram tecidas imensas críticas – alguns elogios também, mas reconheça-se que as primeiras foram em maior número – logo, o seu autor, à luz das teses enunciadas no primeiro parágrafo, só pode mesmo ser maldizente e, necessariamente, inimigo público a abater. Neste contexto, como é evidente, se alguma coisa correr mal, então o culpado está encontrado. De facto, não se devia ter escrito que o executivo usou e abusou da "pesada herança" para não aprovar as contas da autarquia, que ao fazer uma auditoria até Outubro de 2005 andava a procurar um "bode expiatório", que plagiou descaradamente a carta educativa do concelho e que a apresentou como "nova" ao Conselho Municipal da Educação desprezando o contributo deste, que os impostos e tarifas locais subiram (em alguns casos cerca de 78%), jamais se deveria ter denunciado o autismo daqueles que andaram a fazer de conta que estavam zangados com um jornal que dominam integralmente, também não se devia ter feito referência ao abate ilegal e imoral de árvores que constituíam parte integrante do nosso património urbanístico, foi incorrecto dizer que havia um "polvo" que corrompia a dignidade de pessoas sérias mas economicamente dependentes… ufa, já chega!

Afinal, aquilo que noutras circunstâncias poderia ser interpretado como um contributo cívico, aqui, para algumas pessoas, não passa de maledicência que de algum modo belisca a imagem que alguns gostariam de ver projectada. Daqui não se deve inferir que a autarquia está a fazer tudo mal. Apenas se deve inferir que não está a fazer tudo bem. A crítica, para pessoas com autoconfiança, fá-las serem melhores, porquanto constitui um incentivo às boas práticas e a maiores realizações. Só mesmo pessoas de outra índole é que vêem mal nisso.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

1. Energia; 2. Alentejo de oportunidades (II)

1. Energia

Tempos houve em que se tirava melhor partido das forças da natureza. Os antigos podiam não saber que distribuições desiguais de pressão atmosférica provoca deslocações de massas de ar, mas sabiam que o vento movia os moinhos. Podiam não saber a composição química da água mas sabiam que movia as azenhas. Mais tarde, quando souberam que era possível tirar a água das noras sem ter que alimentar uma mula, passámos a ver muitas quintas e quintinhas dotadas de aeromotores, os populares "cataventos" ou "moinhos americanos". Com o advento da máquina a vapor e, mais tarde, com a proliferação dos motores de combustão interna, as alternativas poluentes (mas com maior produtividade) ganharam prevalência e, naturalmente, os aparelhos produtivos ajustaram-se a essa nova realidade. A pouco e pouco, as energias limpas – apesar de gratuitas e renováveis – foram sendo relegadas para plano secundário até ao seu quase completo abandono.

Os momentos que vivemos são – na perspectiva energética – de grandes transformações. Por um lado, observam-se mutações climáticas e ambientais que – não obstante sempre tenham existido – se caracterizam por uma evolução não natural e, ao mesmo tempo, assustadora para a sustentabilidade do planeta. Por outro, vimos a China a entrar na disputa dos combustíveis fósseis, exercendo uma pressão tal sobre os preços que jamais estes poderão voltar aos níveis anteriores a esse momento. Conclusão 1: nada, do ponto de vista energético, voltará a ser como antes. Conclusão 2: com a mesma racionalidade económica que caracterizou a revolução industrial, é altura de voltarmos a tirar partido das Forças da Natureza.

2. Alentejo de oportunidades (II)

A dependência energética de Portugal em relação ao exterior constitui uma debilidade estratégica que ultrapassa os confins do absurdo. Fechem-nos a torneira energética e o país pára. Paradoxalmente, o nosso país possui recursos energéticos sem paralelo na Europa (ver Mapas). Refiro-me, como é evidente, à radiação solar a qual é susceptível de ser convertida em energia eléctrica. Os avanços da tecnologia alimentam fundadas esperanças neste domínio, em particular no âmbito de centrais solares térmicas activas, as quais através turbinas de vapor "transformam" Sol e Água em Electricidade. É a redescoberta da máquina a vapor.


Por outro lado, a tão deprimida Agricultura tem também agora ao seu alcance novas oportunidades. De facto, os biocombustíveis – o bioetanol para substituir a gasolina e o biodiesel para substituir o gasóleo – podem ser produzidos a jusante da actividade agrícola, com inegáveis benefícios ambientais, económicos e até sociodemográficos, na medida em que poderão fazer inverter o sentido dos fluxos migratórios. Aqui a grande dificuldade reside no facto do Governo ainda não ter compreendido que não pode aplicar o ISP (imposto sobre os produtos petrolíferos) aos biocombustíveis. Mas isso resolve-se.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

1. Spin Doctor; 2. Alentejo de oportunidades (I)


1. Spin Doctor
Por "Spin Doctor", expressão anglófona sem tradução literal, entende-se a pessoa cuja função é dizer bem de outra – normalmente, um político – através de comentários favoráveis ou de elogios mais ou menos velados. Para a marosca funcionar, o spin doctor pode até dar ares de que a sua opinião é independente da pessoa que visa beneficiar. No entanto, o seu único propósito é induzir a ideia de que esta é super, genial, boa até dizer chega ou "assim uma espécie de magazine".

Temo-los por cá... mesmo pelo nosso burgo. Afirmam-se arautos na luta contra o negativismo, exaltando as públicas virtudes dos seus patronos, ao mesmo tempo que deliberadamente omitem os correspondentes pecados. Para eles, não há oposição, há apenas maledicência. Mais parecem guionistas de um filme da série B com "bons" e "maus", nos quais os próprios são inequivocamente os bons e os restantes são, inevitavelmente, os maus. E são maus porquê? Porque dizem e escrevem verdades inconvenientes. Voltámos ao Ballet Rose.
2. Alentejo de oportunidades (I)
O título acima pode ser interpretado de duas formas diametralmente opostas. A primeira, se Alentejo for sinónimo de Deserto, é a de que não há oportunidades; a segunda, a qual prefiro e que desenvolverei numa futura edição, é aquela que sugere que mesmo no "deserto" há oportunidades.
Comecemos pelo lado mais difícil reconhecendo, em abono da verdade, que o Alentejo tem vindo a registar dois tipos de desertificação: a económica; e a demográfica. A primeira desertificação foi, num primeiro momento, a causa da segunda. Porém, agora, a segunda juntou-se ao lote de factores que estão na origem da primeira. Parece que chegámos a uma pescadinha de rabo na boca, a um círculo vicioso de degradação das condições económicas e sociais. Estremoz, em particular, está assinaladamente pior que o conjunto do meio em que se insere. Dos 14 concelhos do Alentejo Central, só o Alandroal registava nas últimas estatísticas disponíveis um crescimento ainda mais negativo que Estremoz, mas, ainda assim, com menos repulsão demográfica. Somos campeões no pior sentido. Aliás, o "Brados" até há bem pouco tempo foi testemunha deste fenómeno na sua página "nascimentos e óbitos" onde os últimos eram sempre mais que os primeiros.
Pois, podemos passar a vida a "dourar a pílula", no entanto a melhor forma de resolver um problema é começar por assumir que ele existe.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

1. Charrua no Deserto; 2. Os popós da vereação

1. Charrua no Deserto

Lembram-se da gafe do PIB (aquela de Guterres)? As gafes em si pouco valem. Afinal, são meros lapsos de memória ou de linguagem que qualquer um pode cometer. Mais relevantes são os estados de alma que estão por detrás de tais lapsos, esses sim, verdadeiramente preocupantes. No caso de Guterres, não foi o facto de ele, momentaneamente, não se lembrar do valor do PIB que foi importante. Foi, sim, ele não ter a mais pequena ideia do que estava a falar, já que estava a papaguear sobre algo que lhe sopraram ao ouvido e da qual não tinha noção, quanto mais conhecimento.

Desta feita, as gafes vieram aos molhos. De Mário Lino, um engenheiro inscrito na respectiva ordem profissional, com o Deserto; de Sócrates, engenheiro de profissão (embora não exerça), apelando ao esforço de todos para um país mais… pobre; de Milú, a educada ministra que responde a apupos com vaias, que não viu nada de anormal no caso Charrua; e, finalmente, de Aníbal Cavaco Silva, o nosso honorável Presidente da República, não por ter dito alguma coisa audível, mas sim por ter mantido um silêncio ensurdecedor quando, jamais, o podia fazer.

No caso de Mário Lino, a verdadeira gafe não é ter ofendido – involuntariamente, acredito – toda a margem Sul ou, mais particularmente, os residentes das Faias e do Poceirão. O verdadeiro lapso é a sua falta de visão estratégica, o seu desconhecimento da Teoria dos Pólos de Crescimento. Mário Lino provavelmente não sabe que a americana Las Vegas, cuja área metropolitana tem hoje cerca de dois milhões de habitantes, tinha sensivelmente a mesma população que a nossa freguesia de Veiros no dealbar do séc. XX. Las Vegas, que foi, literalmente, construída no deserto, regista hoje cerca de 1000 voos diários e… não tinha escolas, não tinha hospitais e nem sequer gente que fizesse vulto numa claque de futebol. E o que foi que mudou esse estado de coisas? Um mero terminal ferroviário associado a uma localização estratégica excelente.

Ora, localização estratégica excelente também Estremoz tem. Portanto, mesmo que para Lino sejamos uma miragem, que Milú feche escolas, que Costa feche esquadras, que Campos feche hospitais, que Sócrates nos queira mais pobres, e que Cavaco se cale quando devia gritar em nome da liberdade, o Alentejo vai não só sobreviver como até, dentro de algum tempo, tornar-se um pólo de desenvolvimento. O paradoxo desta situação, que mais parece ironia socrática, é que o Alentejo tornou-se atractivo graças ao seu próprio abandono, sendo hoje um lugar recatado e apetecido, onde vale a pena investir. Esta mesma foi a conclusão que extraí da Conferência/Debate sobre o Turismo – organizada por um grupo de jovens estremocenses – que teve lugar no passado fim-de-semana no Centro de Ciência Viva. A esses jovens, o meu Bem-Hajam!

2. Os popós da vereação

São tão giros… e económicos. Foi mesmo uma boa escolha.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

1. (H)ondas de mudança; 2. Estavas mesmo a pedi-las; 3. Universidade Independente; 4. Maddie

1. (H)ondas de mudança

É com muita honra que vos anuncio que o Município de Estremoz entrou, finalmente, na rota da prosperidade e do desenvolvimento. São já evidentes sinais claros e exteriores da nossa riqueza colectiva, facto que deixa qualquer estremocense que se preze a transbordar de alegria e de orgulho pela sua tão nobre origem. De um momento para o outro, como que por magia, a autarquia saneou as suas contas – que tão pesadas eram no 1.º de Novembro de 2005 –, pagando o que devia, a tempo e horas, aos fornecedores e às entidades bancárias que suportaram durante os anos os devaneios despesistas que caracterizaram a administração municipal até aquela data. Como é evidente, este milagre económico só foi conseguido graças a uma genuína e efectiva Gestão Autárquica, a qual reclamou alguns sacrifícios aos estremocenses em geral – e a alguns trabalhadores em particular – mas que foram largamente compensadas pelos benefícios colectivos de que actualmente já desfrutamos. Hoje, Estremoz é um imenso jardim de harmonia, com espaços limpos e bem cuidados, onde proliferam actividades económicas promissoras e amigas do ambiente (que antes eram emperradas por um licenciamento municipal castrador). É uma cidade recheada de equipamentos e de mobiliário urbano que potencia uma qualidade de vida inimaginável há apenas 1 ano e ½ atrás.

Hoje, ao contrário de antes, já não se recorre ao endividamento oculto, contraído nas costas da população e da Assembleia Municipal, para possibilitar a realização de despesas injustificadas e injustificáveis. É por isso que estes Hondas da mudança, ecológicos, são um prémio justo para aqueles que nos proporcionaram este Nirvana de Bem-Estar. É caso para dizer: – DECE!

2. Estavas mesmo a pedi-las

Por falar no Jardim do Éden, lembrei-me agora das eleições na Madeira. A aposta de Sócrates era minar o último mandato do Alberto João para, desta forma, potenciar a transição tranquila para o socialismo socrático. A estratégia era simples: vá de dizer que a Madeira era rica graças ao off-shore, como se os navios mercantes de quase todo o mundo e os lucros das sociedades estrangeiras sediadas naquele arquipélago fossem propriedade dos madeirenses. Acontece que Jardim, de quem não é fácil gostar dado o seu assumido populismo e modos desabridos, percebeu a golpada e antecipou-se. Se as regras do jogo iam mudar a meio do mesmo, havia que denunciar a parcialidade dos árbitros. Foi a votos. Ganhou. E de que maneira. Sócrates estava mesmo a pedi-las!

3. Universidade Independente

Parece que a Universidade Independente vai fechar. O que se lamenta é que não haja qualquer plano para integrar os seus alunos. Quem pagou propinas com grandes sacrifícios é atirado para o lixo, como se fossem eles os culpados de outros terem feito exames numa singela folha A4.

4. Maddie

Fiquei sensibilizado com o esforço desenvolvido pelas autoridades portuguesas para encontrar a jovem Madeleine. Espero, porém, que, doravante, também as crianças portuguesas – ou melhor: todas as crianças desaparecidas em Portugal – passem a beneficiar de idêntico esforço e empenho.

domingo, 29 de abril de 2007

1. Yes; 2. Bolonha… à portuguesa


1. Yes

Em rigor a sigla não contém o Y mas sim um I, IES, e significa Informação Empresarial Simplificada. Doravante, as empresas irão passar a remeter de uma só vez a informação que até aqui era dirigida a 4 entidades distintas: Direcção-Geral dos Impostos, Direcção-Geral dos Registos e do Notariado, Instituto Nacional de Estatística e, finalmente, Banco de Portugal. Esta medida gera, entre outros, os seguintes efeitos: os contribuintes vêm a sua vida facilitada, poupam nos seus recursos – humanos, materiais, temporais e, logicamente, financeiros –, o Estado também poupa em recursos, minimiza erros e redundâncias, ganha em tempo e, apesar de reduzir em 15% a sua receita nominal, vai ver aumentada em cerca de 400% a sua receita efectiva. Ah, já me esquecia, o Estado vai também conseguir reduzir o incumprimento das empresas (de algumas das suas obrigações declarativas) de 80% para, no espaço de 2 anos, ZERO! É incrível como um bocadinho de competência – lamentavelmente, um exemplo algo isolado – opera milagres na vida das pessoas.

2. Bolonha… à portuguesa

Portugal tem peculiaridades notáveis. Ao nível do ensino cito dois exemplos diametralmente opostos. Como bom, destaco o projecto "telescola", o qual nasceu na década de 60 para fazer face à passagem da escolaridade mínima de 4 para 6 anos. Portugal era – ainda é, mas na época era mais – um país de parcos recursos, pelo que foi preciso engenho e arte para conseguir elevar o patamar educacional com meios tão escassos. A telescola foi uma solução original, resultado da inventiva e da criatividade nacionais, a partir da qual os jovens das regiões mais inóspitas tiveram acesso aos melhores professores nas diferentes disciplinas, auxiliados depois por monitores locais que os socorriam no esclarecimento de dúvidas e na resolução de trabalhos.

Como mau exemplo destaco a implementação do Processo de Bolonha. Primeiro, importa frisar que não há nenhum absurdo em querer formar graduados no ensino superior ao fim de 15 anos de escolaridade. São muitos os países da Europa e da América que já o fazem há dezenas de anos. Agora fazê-lo reduzindo, pura e simplesmente, os conteúdos das antigas licenciaturas, sem mudar mais nada de substancial, é manifestamente insuficiente. A solução passaria por adequada articulação das universidades com as escolas secundárias, colmatando lacunas e eliminando redundâncias formativas, com benefícios recíprocos para ambos os níveis de ensino. O que não faz sentido é ministrarem-se saberes no secundário que são totalmente desperdiçados no ensino superior, enquanto que nas universidades se perde tempo com formações básicas ao invés de se aprofundar e desenvolver aquilo que deveria constituir pré-requisito de admissão.


quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril e Cidadania

A Democracia e a Liberdade são as duas grandes virtudes que emanaram do 25 de Abril. Para os mais jovens, em especial para os que nasceram depois de 1974, é compreensível que a data que lhes diga menos que àqueles que viveram sob o jugo da ditadura. Para eles, liberdade e democracia é algo tão natural como respirar. 25 de Abril é um feriado, tal como para os mais antigos já o eram o 1.º de Dezembro ou o 5 de Outubro. Já relativizaram a data, ou seja, já a remeteram para a História.

Por muito que esta atitude escandalize os mais ortodoxos, a verdade é não faz sentido persistir na doutrinação do 25 de Abril de uma forma oca e verbalista, já que tal via é, comprovadamente, ineficaz. Os ideais de Abril celebram-se todos os dias cumprindo o seu verdadeiro desígnio, assegurando os direitos de todos em prol do bem-estar colectivo. A Liberdade evoca-se não obrigando a fazer o que a lei não impõe e permitindo que se faça o que ela não proíbe, exprimindo livremente o pensamento sem temer represálias de quem detém o poder, protegendo a liberdade de imprensa, aplicando a lei de igual modo para todos, impedindo mordomias e privilégios social e eticamente injustos, responsabilizando os erros públicos e os abusos de poder, dando sequência a petições, queixas e reclamações, julgando e punindo os que cerceiam os direitos de outros, assim como aqueles que usam em benefício próprio o património comum.

Se bem que a Democracia Política esteja consolidada em Portugal, a verdadeira Liberdade, neste sentido mais abrangente, continua a ser um processo em curso. Os mais velhos, em particular os que reclamam contra o facto dos mais jovens celebrarem mais efusivamente o 14 de Fevereiro do que o 25 de Abril, têm que dar o exemplo e este não pode ser com verborreia mas sim com acções concretas. Têm que se indignar, têm de agir, têm de exercer plenamente a cidadania. Não podem ficar indiferentes.

O 25 de Abril constitui um marco importante na nossa História. Porém, não é o único. Em 1640 recuperámos a Portugalidade; em 1820 cerceámos o poder aristocrático e, em 1910, acabámos com a sucessão dinástica no exercício do poder. Só falta consolidar a Cidadania.

domingo, 15 de abril de 2007

1. Ad valorem II; 2. MILU; 3. Suprema estupidez; 4. Exclusão do valor; 5. As cangochas da asna

1. Ad valorem II

Ad valorem entra no seu segundo ano de publicação regular. A mensagem central continua a ser a mesma: parafraseando Nicolau Santos, "Portugal vale a pena!", os portugueses têm valor e são tão capazes como qualquer outro povo! Temos do melhor que nos orgulha e do pior que nos envergonha. Porém, no cômputo geral o saldo é, tem de ser, sempre, positivo. Basta que remetamos o valor e a mediocridade para os seus devidos lugares.

2. MILU

Continuando com as más notícias… Eu, se não visse, não acreditava. Recebi há dias um vídeo – de péssima qualidade, frise-se – onde vi a Ministra da Educação da República Portuguesa comportar-se de uma forma… inimaginável. De microfone na mão, em cima de um palco numa cerimónia pública, vi Maria de Lurdes Rodrigues dirigir-se aos que a circundavam recorrendo a apupos. Ao que parece, a ministra estava a reagir à vaia de que estava a ser alvo por parte de alunos do ensino básico. O que ninguém esperava era que a ministra reagisse com um "huuuu", desafiando os seus jovens opositores (!?). A Ministra da Educação evidenciou – de forma superior, sublinhe-se – a educação que tem e aquela que representa. Só visto, contado nem dá para acreditar.

3. Suprema estupidez

É assim que classifico a decisão do Supremo Tribunal de Justiça num processo que envolvia um órgão de comunicação social e um clube desportivo. Depois de na primeira instância e, subsequentemente, no Tribunal da Relação a acção intentada pelo clube ao jornal ter sido considerada improcedente, vêm aqueles senhores dizer que pouco importa se a notícia era verdadeira ou não. Para o topo da hierarquia judicial em Portugal o que importa é que os alegados factos divulgados, mesmo que verdadeiros, ofendem o bom-nome do clube e, como tal, deverá este ser ressarcido mediante indemnização pecuniária por danos morais. Dá para entender?

4. Exclusão do valor

Não estou em condições de assegurar a autenticidade de uma situação relatada no Blog "Mais Évora", segundo a qual um alegado quadro superior da administração pública – que se identifica pelo também alegado nome próprio – denúncia a sua inclusão no quadro de excedentes pela objectiva razão de não ser submisso para com a hierarquia politicamente nomeada. No entanto, sei por experiência própria (e directa constatação) de situações muito semelhantes e em tudo similares à descrita. Não está em causa a cor partidária dos politicamente nomeados já que, infelizmente, estas "coisas" – digamos assim – existem em todos os quadrantes políticos. O que está em causa não é a diferença, é, lamentavelmente, a indiferença com que pactuamos – por omissão, por falta de indignação e de denúncia pública – com o servilismo e o compadrio que mina a sociedade portuguesa e a impede de ser mais saudável e mais digna. É também por isto que esta coluna vai continuar a incomodar muita gente "boa" (segundo os padrões politicamente correctos... ou deveria dizer convenientes?).

5. As cangochas da asna

Faço uso amiúde da expressão popular "a mesma burra não me dá dois coices". Até aqui, e por via de regra, tem sido verdade. No entanto, tal não significa, necessariamente, que ela, a asna, não continue a agir de acordo com a sua natureza.

terça-feira, 3 de abril de 2007

O Engenhêro

Não, não se trata de um erro de ortografia! Escrevi engenhêro deliberadamente. No entanto, ao contrário do que – à primeira vista – possa parecer, não vou falar do personagem que estão a pensar. Vou antes pronunciar-me vagamente sobre o significado simbólico de certas acções e, em especial, sobre os valores subjacentes a certas atitudes, nomeadamente quando uma pessoa exibe, ostensivamente, um título para enaltecer a sua imagem pública.

A mensagem que pretendo transmitir é a de que as pessoas não devem ser avaliadas pelos títulos que exibem. Pelo contrário, devem ser avaliadas por aquilo que são e, fundamentalmente, por aquilo que fazem. Na verdade, quem aposta nas aparências são, afinal, as pessoas que substancialmente pouco têm para mostrar ou, no mínimo, que acham que sem a ajuda do título exibido as pessoas com quem interagem não lhes vão reconhecer o valor que pensam ter (ou que gostariam de ter). As aparências estão associadas ao culto da imagem, ou seja, à convicção de que parecer é, pelo menos, tão importante como ser.

Este culto das aparências tem – felizmente para os que o praticam e infelizmente para os que o rejeitam – alguma razão de ser. Na verdade, ainda vai dando resultados… pelo menos, por algum tempo. Enquanto a cultura dominante não premiar devidamente o mérito, os menos capazes podem continuar, impunemente, a recorrer a este expediente. "É a vida!" como dizia o outro.

Não deve inferir-se das minhas palavras que rejeito em absoluto o uso de títulos. Se eles foram criados foi, justamente, para serem usados… porém, nas circunstâncias adequadas. O que para mim é preocupante é quando se usam prefixos académicos em contextos que nada têm que ver com as funções que, no momento, estão a ser desempenhadas. Quando este exemplo provém de pessoas que já atingiram notoriedade pública, pior. Isto é, já detêm cargos públicos da maior importância, por conseguinte, já detêm "títulos" públicos, e ainda assim pensam que evidenciar os respectivos prefixos académicos continua a ser importante. É um mau exemplo. Dá a sensação que crêem mais no "faz-de-conta" que no cabal desempenho das respectivas funções. Até parece que – conforme assinam na correspondência – ser "Dr.", "Eng." ou "Lic." é mais importante que ser Vereador ou Ministro.

Quando vejo isto a única coisa que me ocorre é uma frase que li algures num serviço público regional que dirigia a seguinte mensagem aos chefes: "Não queremos cá quem muito saiba, mas sim quem faça melhor!".


domingo, 18 de março de 2007

O polvo

As teorias do comportamento defendem que o ser humano vive permanentemente a procurar optimizar o seu bem-estar. Apesar de não haver razão para que alguém se envergonhe disso – afinal, este fenómeno foi denominado, nos idos anos 70 por Michael Jensen e William Meckling, simplesmente por "natureza humana" – a verdade é que são raros os que assumem a racionalidade do seu comportamento. A maioria porque têm pudor de reconhecer perante terceiros que têm interesses, ainda assim não haja alguém que os vá classificar de egoístas ou de algo do género. Outros, porque sabem que têm razões para ocultarem a sua verdadeira essência quando esta não é socialmente aceitável.

A verdade, porém, é que apesar desta busca incessante pelo bem-estar, apenas alguns eleitos o conseguem de facto. Uns por mérito próprio. Estando melhor informados que os demais, dispõem de habilitação que lhes permite tomarem melhores decisões. Outros porque apesar de serem menos capazes, sabem o essencial da natureza humana e não têm qualquer escrúpulo em usar tal mister em benefício próprio, mesmo lesando terceiros. Em colunas anteriores já me referi a este fenómeno. Por exemplo, em "Zaragatas à moda antiga" e em "Perspectivas" referi-me à incapacidade que algumas pessoas têm em ver segundo a perspectiva do outro, facto que impede uma adequada percepção de nexos de causa-efeito. Em "Distância hierárquica" denunciei a hipocrisia da adulação do poder e a falsa humildade daqueles que, como os chineses medievais, baixam a cabeça perante o seu senhor enquanto se peidam silenciosamente. Neste contexto, algumas pessoas preferem pedir favores a reclamar direitos porque pensam ser mais eficaz ficar em dívida mas ter, do que exigir e… perder. Em "D. Branquinha" mostrei o outro lado da ganância. Quanto mais se ambiciona o ganho fácil mais facilmente se cai num embuste.

E por falar na "D. Branquinha", houve quem me questionasse onde é que pretendia chegar com o final daquela coluna. Esclareço: tal como n'O polvo, série que animou os serões dos anos 80, também na nossa sociedade existem tentáculos que corrompem a integridade de pessoas comuns. Ao inspector Corrado Cattani haviam raptado o filho; a alguns dos nossos compatriotas raptaram-lhes o direito de falar e de agir como cidadãos livres. A tal ponto chegámos que já há pessoas que se sentem forçadas a pedir o anonimato quando escrevem ou dizem algo que possa desagradar a quem tem o poder. Não estou a falar do anonimato que caracteriza aqueles que atacam cobardemente os que ainda se sentem livres para dar a cara. Falo, sim, de pessoas que temem represálias no emprego se não alinharem com a posição oficial. Há muitos a quem acenaram com promessas de que irão ter, facilmente, algo de bom que muito ambicionam. Só há uma condição: têm de se comportar de uma determinada forma. Como em tudo na vida, se é bom, o melhor é pagar o preço, porque caso contrário vai sair mais caro. Alguns, em desespero, aceitam a solução mais fácil… mais tarde apresentam-lhe a factura a cobrar.

Se isto não é similar à "La piovra", então o que é?

Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 22 de Março de 2007


domingo, 4 de março de 2007

Os segredos do sucesso de Sócrates

O primeiro foi não escrever nada. Assim jamais podia ser confrontado com as suas próprias contradições. O segundo foi nunca exaltar o seu saber, preferindo apresentar-se com humildade intelectual perante os seus interlocutores: "só sei que nada sei!". Desta forma, ao formular perguntas de "ignorante" arrastava os opositores para situações de incoerência, desacreditando-os através da denominada "ironia socrática". O terceiro segredo foi censurar a lábia e a demagogia dos outros fazendo uso da sua própria (e ainda mais demagógica) lábia. No seu julgamento em Atenas, no ano de 399 AC, referiu que a acusação de que era alvo era tão convincente que ele próprio esteve quase a acreditar que era culpado.
Será que estas fórmulas também estão a resultar, em pleno séc. XXI, com o português José Sócrates, por azares da vida (e sorte de alguns) primeiro-ministro de Portugal? Não! Ou melhor, usando da humildade socrática clássica, penso que não! José Sócrates faz uso das suas próprias fórmulas de sucesso, as quais, mérito lhe seja reconhecido, são muito mais adequadas aos dias de hoje. Vejamos porquê:
1) Mesmo que Sócrates não escrevesse nada, não se safava. A imprensa encarrega-se de reproduzir até o que se pensa, quanto mais o que se diz e o que se faz. Vai daí, tinha de haver outra solução para prevenir os indesejáveis confrontos com as contradições do discurso. José Sócrates disse que não haveria aumento da carga fiscal, que não haveria portagens nas SCUT, que iria criar 150 mil empregos… e, como sabem, não há aqui qualquer contradição com aquilo que veio a ser a prática do seu governo. O quê? Há? Vá, não sejam maledicentes, é claro que não há, senão é óbvio que a generalidade da imprensa que o conserva em estado de graça vai para dois anos já o tinha denunciado. (Outros houve que ainda nem tinham assumido o poder e já eram desgraçados.) Como consegue Sócrates isso? Pois, isso também eu gostava de saber, mas como refiro no título é "segredo" que o nosso primeiro não revela.
2) Quanto à segunda fórmula – não exaltar o seu saber – o Sócrates de hoje também fez uso de solução diferente. Como cavaquista empedernido, faz exactamente o contrário: ele sabe, ele sabe que sabe, sabe que é melhor que os outros e, não contente com isso, despreza quem se pretenda afirmar mais sabedor. Tal como outros grandes líderes do séc. XX – os quais, inevitavelmente, mais tarde, bem mais tarde, tarde de mais na opinião de muitos, acabaram por cair em desgraça – a mensagem avançada é de que o Sol só brilhará com ele, o futuro vai ser auspicioso, vamos ter tudo de bom e do melhor, só precisamos mesmo é que lhe demos tempo, porque o presente é duro. Em suma, o segundo segredo de Sócrates, aqui e agora desvendado, é usar a necessidade que as pessoas têm de acreditar em alguma coisa.
3) O terceiro segredo de Sócrates assenta com tal força na demagogia que nem de lábia precisa. Escolhe alvos fáceis, contra os quais todos temos alguma coisa. Agricultores, bancos, professores, farmacêuticos, etc., etc., conseguindo unir todos (mesmo as vítimas) contra cada um dos inimigos públicos em particular. De uma maneira geral, o público delicia-se neste enorme coliseu quando vê os seus ódios de estimação serem lançados às feras… a coisa só perde a graça quando os espectadores perceberem que eles serão os próximos a entrar na arena para diversão dos restantes… Afinal, Sócrates sabe (bem demais, penso eu) que enquanto houver "culpados" ninguém precisa de mais explicações.

Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 08 de Março de 2007

domingo, 18 de fevereiro de 2007

SENSIBILIDADE E BOM SENSO

Apesar do título da presente crónica lembrar o romance homónimo de Jane Austen, Sense and Sensibility, o seu conteúdo irá versar sobre questões do nosso quotidiano, mais especificamente, sobre o abate de árvores de grande porte em Estremoz. Permitam-me, contudo, que antes de passar ao cerne da questão justifique a razão de ser da escolha do título. Na obra de Jane Austen, as personagens principais são a Elinor, que representava a razão (sense), e a Marianne, que representava a emotividade (sensibility), as quais agiam de forma consonante com as respectivas personalidades.
A questão do abate de árvores de grande porte está intimamente relacionada com estas duas vertentes. Para haver sensibilidade não pode ser de ânimo leve que se destrói em minutos aquilo que levou décadas a criar. As árvores dignificam e embelezam o espaço urbano, conferem frescura, sombra, proporcionam ambiente, quer pelas interacções sociais que as pessoas estabelecem junto delas, quer pela orquestração melodiosa de sons da natureza. Em Portalegre, o Plátano – com P maiúsculo dada a sua condição de monumento – foi a primeira “sede” do Sport Club Estrela. Foi palco de celebrações eleitorais por ocasião da primeira República, testemunhou namoros, arrufos e até desacatos (paradoxalmente, em ocasiões de festas e romarias).
Por outro lado, as árvores por vezes também provocam ranço a algumas pessoas. Pelas mais variadas razões. Por terem pernadas ruidosas em noites de invernia, pela algazarra dos pássaros, pelas caganitas dos mesmos, por as suas folhas entupirem os algerozes, por as raízes alterarem a regularidade do pavimento ou danificarem as canalizações, pelas alergias ao pólen, por taparem o sol ou até por ocultarem o fogo de artifício. Quando se embirra com uma árvore, o que não faltam são razões que podem ser apontadas para justificar o seu abate ou poda excessiva (que, na prática, é equivalente a morrerem de pé). Manda o bom-senso que sempre que os malefícios causados pelas árvores excedam os seus benefícios que se actue, não para beneficiar alguém em particular mas sim para defender o interesse colectivo. Porém, quando a actuação implicar a destruição do património arbóreo, (o qual, por definição, integra a paisagem urbanística da cidade), era bom que não fosse justificada apenas pelo receio de perder ½ dúzia de votos dos queixosos. O que deve prevalecer é a vontade da maioria e é por isso que os instrumentos de gestão urbanística estão sujeitos a discussão pública. Abater árvores é uma acção demasiado séria para ficar à mercê de caprichos ou estados de alma.
Em Estremoz houve abates de árvores completamente injustificados. Estavam longe de casas, de condutas e de colectores. Tal acção foi determinada por meras decisões administrativas, não suportadas por planos legalmente válidos ou por estudos técnicos. Em Portalegre, com a mesma falta de sensibilidade e de bom senso, também tentaram derrubar o Plátano plantado em 1838. A diferença foi que aí o povo revoltou-se…




Publicado na edição de 23 de Fevereiro de 2007 do Jornal "Brados do Alentejo"


terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Pelo sim pelo não

No momento em que esta minha crónica for publicada, a generalidade das pessoas já terão decidido o sentido do seu voto no referendo do dia 11 de Fevereiro. Ainda bem. Tenho consciência, porém, que pelo menos para alguns a decisão não terá sido fácil. De facto, por vezes demos por nós a discordar frontalmente de posições assumidas quer pelo SIM quer pelo NÃO – por serem tão disparatadas –; enquanto que noutros casos também pudemos testemunhar argumentos consistentes e sensatos esgrimidos pelas duas partes em confronto. Foram estes últimos, aliás, que nos colocaram na difícil posição de decidir com quais nos identificávamos mais, já que sendo teses opostas eram mutuamente exclusivas.
Da síntese que fiz desta campanha, passo agora a destacar as posições que me geraram maior repulsa, por as considerar, pura e simplesmente, idiotas. Do lado do SIM, o slogan “no meu corpo mando eu” acabou, na prática, por fazer campanha pelo lado contrário. Na realidade, a mensagem implícita naquela frase equipara fazer um aborto a fazer um clister. Passa uma ideia irresponsável do “vale tudo”, de um egoísmo atroz que não deve ser encorajado. Por sua vez, o NÃO também apresentou péssimos argumentos, nomeadamente aquele do Bispo de Bragança - Miranda que equiparava o aborto à pena de morte. É fundamentalismo. Se qualquer estádio intermédio da vida celular for considerado vida humana então a mera contracepção é uma arma de destruição massiva e o que não falta por aí são serial killers.
Felizmente, em ambos os lados da contenda foram também apresentados argumentos razoáveis. Pelo NÃO destaco a mais importante das mensagens: há vida intra-uterina! Numa forma embrionária, é certo, mas VIDA! Nas primeiras semanas de gestação, o embrião não terá ossos, não terá órgãos desenvolvidos, não terá cérebro nem consciência, mas terá todas essas coisas se o fenómeno da multiplicação celular não for interrompido. Logo, a decisão de abortar, sejam quais forem as circunstâncias que a determinam, deve ser sempre a última opção. À partida, sou contra.
Ainda que possa parecer paradoxal, é justamente por achar que o aborto deve ser prevenido e reduzido à sua dimensão mínima, que me revelei mais sensível às teses protagonizadas por algumas correntes do SIM. De facto, com penalização ou sem ela, o aborto sempre irá existir. Porém, se a mulher que se sente tentada a abortar não for estigmatizada ou excluída, poderá beneficiar de uma ajuda qualificada ao recorrer a estabelecimentos autorizados, inexistente na clandestinidade. Se tiver que abortar, que o faça então, em condições de segurança, antes que o embrião passe a ser feto. Sendo aconselhada sem ser perseguida, ao ser confrontada com soluções alternativas, pode até acontecer que se evite o aborto. E eu acredito que isso irá acontecer. A opção pelo aborto é dramática para quem a pratica. Não precisa de mais castigos.
Finalmente: o aborto não vai passar a ser obrigatório. Por isso, voto SIM!
Publicado na edição de 09 de Fevereiro de 2007, do Jornal "Brados do Alentejo"

sábado, 27 de janeiro de 2007

No tempo em que os animais falavam

Não é de hoje nem vai acabar amanhã a situação em que os poderosos – ainda que não, necessariamente, todos – subjugam os mais fracos. No entanto, reconheça-se, já foi pior. Tempos houve em que os poderosos se achavam dotados de inspiração divina e, de tal sorte, consideravam perfeitamente naturais e razoáveis os privilégios de que gozavam.
Na época do Rei David – sim, daquele que (quando pastor) derrotou com uma funda o filisteu Golias – este não se contentou em cobiçar a mulher de Urias, o heteu. Fez mais: encomendou ao seu general Joabe uma batalha com os filisteus cujo principal propósito não era combater o inimigo, mas sim arranjar uma forma de Urias morrer em combate. Quando os mensageiros levaram ao rei a notícia da derrota, na qual pereceram muitos do povo de Israel, David só quis saber se Urias tinha, de facto, morrido, para assim poder desposar a mulher do rival. De tal casamento, o segundo rebento teve por nome Salomão – sim, o tal que tinha grande sabedoria – o qual, por sua vez, com muita sensatez, mandou matar o irmão Adonias, assim como Joabe, não fossem estes pôr-lhe em risco a coroa de David.
Como eram belos os tempos em que os animais falavam.
Mas espera aí. Quem falou em passado? Hoje as coisas são diferentes, no entanto continua a haver animais a falar. Querem exemplos? Que dizer então daquele passarão que disse que a culpa da subida do preço da electricidade era dos consumidores? Já pagamos mais 24% que a média comunitária, mas ainda assim somos culpados. Depois somos também culpados de as nossas empresas não serem competitivas, quando na generalidade dos factores produtivos – à excepção do factor trabalho – estamos em desvantagem para com as empresas estrangeiras. Que dizer de um certo Governador vir anunciar que os problemas da Segurança Social ficaram resolvidos por décadas, graças às poções milagrosas deste Governo? Como? À custa dos mesmos de sempre. Ainda que se reconheça que algo teria de ser feito, a verdade é que se obteriam resultados mais evidentes se fossem combatidas as mordomias daqueles que, no seio do poder, auferem compensações significativamente acima das suas comparticipações para o sistema. Que dizer das subidas desmesuradas dos nossos impostos, de tal modo absurdas que nem sequer geram maiores receitas, desviando-as para la Hacienda espanhola? É o caso dos combustíveis, do tabaco, etc. Não faz mal que as gasolineiras vão falindo nas regiões de fronteira. Então e as reduções nas comparticipações dos medicamentos? E que tal pagar IMT (antiga SISA) duas vezes em caso de divórcio? Que dizer do Senhor Juiz que se confina a questões processuais e, nessa perspectiva, não vê mal em que o verdadeiro pai da Esmeralda – ou seja, aquele que, pela filha, sacrificou tudo – vá para a prisão, porque o cedente do espermatozóide se lembrou, tarde e a más horas, que também queria ser pai da menina que antes lhe ia estragar a vida?
Portugal era assim, no tempo em que os animais falavam...
Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 26 de Janeiro de 2007

domingo, 14 de janeiro de 2007

A Divina Comédia

Muitas foram as vozes que se insurgiram pelo facto de o Director Geral dos Impostos, Paulo Moita de Macedo, ganhar uma “pipa de massa”. Manuela Ferreira Leite, Ministra das Finanças à data da nomeação, teve de ouvir das boas. Onde é que já se viu, um Director Geral ganhar para cima de 20 mil euros por mês? A explicação de tão elevado vencimento – cerca de 4 vezes mais que a Ministra que o nomeou – justificou‑se no facto de essa ser a retribuição auferida por Paulo Macedo enquanto quadro superior do Banco Comercial Português. As questões, ao que parece, terão sido colocadas de forma clara: ou a Manela lhe dava o guito que ele já ganhava no sector privado; ou ela ia cantar o S. Pedro para onde tinha cantado o S. João.
Posto isto, a Ministra anuiu. Acreditou na bazófia do homem que se dizia capaz de conferir eficácia à máquina fiscal, incrementando a sua eficiência sem necessidade de recorrer a procedimentos trauliteiros ou ofendendo a dignidade dos contribuintes. Poucos acreditaram que tal fosse possível. Mas… FOI! Hoje já ninguém duvida que a solução mais económica foi mesmo colocar alguém competente no comando na Direcção Geral dos Impostos. Não saiu barato mas, seguramente, saiu mais barato que as nomeações do costume. Todos ficámos a ganhar.
Prestes a findar a Comissão de Serviço de Paulo Macedo, surge a incógnita: irá ele continuar ficando a ganhar ¼ do actual vencimento? Não sei, nem quero fazer futurologia. A única coisa que sei é que, sinceramente, não lhe vejo vocação para Santo e receio que todos fiquemos a perder por pagar menos a alguém menos capaz. (Aliás, o homem de Santo não tem nada – nem é disso que precisamos – basta lembrar que também ele foi alvo de uma execução fiscal por não ter pago em 2002 a segunda prestação da Contribuição Autárquica de 2001).
Infelizmente, a mesquinhez e as invejas idiotas ainda abundam em Portugal. As pessoas preocupam‑se com o que cada um ganha sem olharem ao que cada um merece. Honestamente, discordo com um vencimento fixo de 20 mil euros por mês. De facto, preferia que Paulo Macedo ganhasse na base o mesmo que qualquer outro Director Geral e que tivesse um prémio caso fosse eficiente (como, efectivamente, foi). Não me importava que ele ganhasse 50 mil euros, desde que tal significasse milhões recuperados para os cofres dos Estado. Aliás, se tal política de prémios se estendesse a outros níveis, talvez fosse possível recompensar aqueles que, quer na administração pública quer no sector privado, estão a ser prejudicados pelos que menos contribuem. Vejam o seguinte exemplo: dois colegas, A e B, ganham o mesmo; A trabalha o dobro de B, logo… ganha METADE! Neste contexto, A deveria também ganhar o dobro de B, já que só assim ambos ganhariam o mesmo em função do trabalho realizado e, por conseguinte, só assim estariam em condições de igualdade.
Ad valorem é uma expressão em Latim já traduzida pela Redacção do “Brados”. Significa: segundo o valor; pelo valor; conforme o valor; de acordo com o valor; em função do valor. Isso é o que defendo.
“(…) et sic contra valorem opponit arrogantiam…” (Comentário de Benvenuto da Imola ao canto XVI da Divina Comédia - Inferno, de Dante Alighieri).
Publicado na edição de 12 de Janeiro de 2007 do Jornal "Brados do Alentejo" (http://www.bradosdoalentejo.com.pt)

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

D. Branquinha

Alguns entendidos – ou, supostamente entendidos – dizem que toda a publicidade é boa… mesmo a má. Eu, neste como noutros domínios, não tenho assim tanta certeza. Certo, certo, foi que Estremoz voltou a ser notícia nos órgãos de comunicação social de expressão nacional, pelo que, de acordo com aquela acepção, não interessa muito se foi por boas ou más razões.
Ao que parece Estremoz foi palco da actuação de uma grande conhecedora da natureza e do comportamento humano, a qual fez uso de tal ciência em benefício próprio. A D. Branquinha – era assim que era conhecida – teve o dom de pôr as pessoas a sonhar e, ainda melhor, de fazê-las lutar pelos seus sonhos, com abnegação e espírito de sacrifício. Porque foi uma portuguesa ilustre, que mobilizou energias e mexeu com os anseios mais íntimos daqueles que a conheceram, talvez não fosse descabida a ideia de homenagear o seu nome numa rua de Estremoz. Porque não a rua onde era “proprietária”? Santa Catarina nem sequer era portuguesa, portanto não passou por lá; 31 de Janeiro – data que comemora a primeira tentativa de implantação do regime republicano – foi um facto ocorrido no Porto em 1891; Oliveira Salazar, assim se chamava a dita rua no ano em que nela nasci, foi apenas um ditador. Pelo que eu percebo da coisa, D. Branquinha mexeu mais com Estremoz que Salazar, que os republicanos do Porto ou que a padroeira da Europa.
Aliás, os seguidores de D. Branquinha passavam o tempo a querer fazer dela uma santa… por isso é que apesar de a tratarem nas palminhas estavam desejosos que ela morresse… (até porque não se canonizam santos em vida).
Enfim, agora a sério. Todos os grandes aldrabões – categoria em que se inseria a D. Branquinha (portanto, esqueçam isso de lhe dar uma rua com o seu nome) – vivem da avidez das suas vítimas. Quanto mais gananciosas melhor. Basta acenar-lhes com a hipótese de ficarem mais ricos de um momento para o outro e elas cegam imediatamente. Perdem clarividência na avaliação dos pequenos sinais que denunciariam o embuste. Porém, é a sua gula pela fortuna mirabolante que se avizinha que constitui a própria cortina de fumo que oculta as intenções dos autores da trapaça. Neste contexto, todos os sacrifícios que lhe são pedidos se revelam pequenos perante a maravilha do que aí vem. E assim vão caindo os patos. (Deve ter sido hilariante presenciar a cena em que, um a um, se foram revelando os “únicos” herdeiros de D. Branquinha.)
Se bem que cada um pense o contrário, é mais fácil cair em situações destas do que se imagina. Aliás, passamos a vida a cair em situações que, apesar de diferentes, são análogas. As pessoas acreditam no que querem acreditar, e, quem não tiver escrúpulos, só tem que fazer o adequado uso disso… nos nossos empregos, na política, etc.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" em 29 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Apologia de Sócrates

Há cerca de 2400 anos foi redigido um texto, escrito por um seguidor de Sócrates, com o mesmo título da crónica desta quinzena. A Apologia de Sócrates descreve os últimos dias da vida de uma das maiores personagens da História da humanidade e da filosofia, enaltecendo a sua coragem e o seu comportamento no julgamento de que foi alvo por parte da cidade de Atenas. Acusado de corromper a juventude contra a religião e as leis da cidade, Sócrates viria a ser condenado à morte – pela ingestão de cicuta (um veneno) – num tribunal com mais de 500 juízes, dos quais pouco mais de metade se pronunciaram favoravelmente às teses da acusação.
Esclareça‑se, todavia, que a minha Apologia de Sócrates pouco tem que ver com aquela que foi escrita (se bem que… um pouco romanceada) por outro grande vulto da filosofia: Platão. Desde logo, porque o Sócrates a que me refiro não é o mesmo. É outro bem mais conhecido dos portugueses. Por outro lado, ao contrário da apologia de Platão, a minha não revela idêntica devoção pelo personagem.
Mas porque razão merece Sócrates esta apologia, demais a mais provinda de alguém que não votou nele? A razão é simples: Sócrates rompeu em definitivo com a tradição socialista da não governação, de adiar a resolução dos problemas, de fingir que faz sem fazer, de fingir que decide sem decidir. Não vou deixar elogios às políticas do governo, nem sequer vou discuti‑las na substância, agora que o povo português ficou surpreendido com este estilo de governação por parte de um primeiro-ministro socialista, disso não há a mínima dúvida. Provavelmente, Sócrates teve outra escola… talvez isso explique tudo. A tradição do “Socialismo de Caviar” é bem diferente. Dizem‑se defensores dos mais desprotegidos mas representam, afinal, uma burguesia urbana bem instalada na hierarquia social que, tradicionalmente, se protege a si própria mais do que qualquer outra coisa. Evidentemente, existem socialistas muito diferentes entre si, uns laicos, de raiz jacobina e maçónica, outros cristãos professos e praticantes, mas que em comum tinham sempre o não fazerem nada ou não fazerem nada de jeito. O que importava eram os votos, os amigos, os jeitos e as cumplicidades. O Povo e o País ficavam, naturalmente, no fim da fila.
Esta é a razão porque faço esta minha apologia a Sócrates. Foi o primeiro socialista que conseguiu cortar a direito, que conseguiu decidir mesmo quando a opinião pública não é favorável. Foi e é, o primeiro socialista português que revelou coragem política.
O facto de reconhecer qualidades a Sócrates não faz de mim um seu seguidor. Em bom rigor, detesto o seu carácter, o seu calculismo pragmático, a sua atitude de mentir para chegar ao poder, a sua falta de escrúpulos em que os fins sempre parecem justificar os meios.
Mas respeito a determinação.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 15 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

sábado, 2 de dezembro de 2006

Autoavaliação

“A mesma burra não me dá dois coices!” Esta é uma expressão popular a que recorremos quando pretendemos pôr em evidência a nossa capacidade de aprender com os próprios erros. Quem a usa, revela várias virtudes: sensatez (porque se dispôs a avaliar as suas acções), humildade (porque reconhece que errou), e determinação (por estar empenhado em não voltar a errar da mesma forma).
Portanto, a autoavaliação é, reconhecidamente, um exercício útil. Ainda assim, a autoavaliação não dispensa a avaliação externa, a qual complementa a primeira. Confrontando ambas é possível determinar onde é que a carga emocional retirou clarividência aos envolvidos nas acções avaliadas. Pode não ser bom para afagar o Ego, mas é, sem margem para qualquer dúvida, necessário (em especial, para corrigir aquilo que estiver menos bem).
Bom, chegou o momento de justificar a razão pela qual estou para aqui com esta conversa. Foi esta: assisti recentemente, na nossa praça, a um monólogo travestido de reclamação e resposta, no qual o reclamante e o respondente são, na prática, uma e a mesma entidade. Atenção! Não se tratou de um solilóquio (monólogo dirigido ao próprio orador). Foi antes uma ridícula encenação (patética, mesmo), dirigida ao público em geral sob a forma de aparente exercício de autoavaliação.
De autoavaliação não teve nada. De facto, não foi sensato (foi autismo), não foi humilde (foi narcisismo mórbido) e, finalmente, não revelou qualquer determinação em corrigir os próprios erros (os quais, aliás, nem sequer foram assumidos). Pelo contrário, quer a pretensa reclamação quer a fantasiosa resposta tiveram por única intenção desviar as atenções das avaliações externas efectuadas pelas diferentes forças políticas à acção do executivo socialista no município de Estremoz.
De acordo com a autoavaliação do PS vivemos no melhor dos mundos. Comovem‑se com uma mera reposição de calçada ou com a plantação de meia dúzia de árvores e tudo quanto não estiver alinhado com este paraíso na Terra é mera maledicência. Renega‑se todo o passado autárquico promovido pela CDU, persegue‑se inclusivamente (através de auditorias circunscritas a 31 de Outubro de 2005), mas ao mesmo tempo apropria‑se abusivamente de trabalhos antes desenvolvidos (Carta Educativa) e copia a prática de contratar empréstimos para pagar dívidas (cuja génese é de duvidosa legalidade, embora assumidas pelo actual executivo).Enfim, até podiam discordar (estavam no seu direito), agora fantasiar através de encenações? Foi uma oportunidade perdida para restaurar a confiança dos estremocenses. Estremoz precisa e quer que o PS execute o seu mandato no mínimo melhor que o anterior executivo. Não precisa dos antigos melodramas (variedade teatral que combinava a dramatização com canto e música instrumental).
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 01 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

domingo, 26 de novembro de 2006

1. Distância hierárquica; 2. Percepções e realidade

  1. Confesso que tenho alguma dificuldade em lidar com este fenómeno. Expliquemo-lo primeiro. Distância hierárquica, em palavras simples, traduz-se nas vénias aos doutores e engenheiros, na adulação dos chefes, pelas pessoas deixarem de dizer o que efectivamente pensam aos “superiores” para passarem a dizer aquilo que acham que eles gostariam de ouvir. Trata-se de um fenómeno cultural em que as pessoas se consideram, à partida e por natureza, desiguais. Neste contexto, os títulos, o status, a imagem projectada, constituem o elixir do sucesso social. As pessoas mostram‑se capazes de uma grande reverência por quem tem poder ou autoridade, ao mesmo tempo que são capazes duma severidade extrema para aqueles que se encontram ao mesmo nível, procurando rebaixá-los sempre que acham que… “se estão a armar”.
    Bom, mas porque falo disto hoje? Porque sempre pensei que este fenómeno estava ligado ao nosso crónico défice de escolaridade e, por conseguinte, que à medida que as pessoas fossem ficando mais instruídas ele se fosse esbatendo e, tendencialmente, desaparecendo. Porém, cada vez mais vou pondo esta perspectiva em dúvida. Apesar da sociedade portuguesa estar mais letrada, nem por isso se assiste a um maior exercício da cidadania. Pedir favores, meter cunhas, ficar em graça, são fenómenos que continuam a prevalecer relativamente a reclamar direitos. E se as pessoas pensam e agem assim é porque deve dar frutos. Deve ser melhor que barafustar. Vai na volta, a distância hierárquica acaba por revelar‑se, afinal, um exercício calculista calibrado por um apertado controlo das emoções.
  2. “Percepções e realidade” é o título do livro de Santana Lopes apresentado no princípio desta semana. À primeira oportunidade, vou ler. Sempre vou querer perceber se as suas “percepções” lhe permitiram antever a “realidade” com que se veio a confrontar.
    No lançamento, Santana Lopes já deixou um ar da sua graça: deu a entender que para Cavaco chegar a Presidente teria de, primeiro, se livrar dele à frente do Governo.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 17 de Novembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Não sei se vos diga se vos conte

Ele há coisas… senhores! Não sei se vos diga se vos conte. Mas conto, pronto, o que se passou foi isto:
Há dias houve ali no Salão Nobre uma reunião do Conselho Municipal da Educação. Então não é que apareceu lá um marmelo armado em carapau de corrida. Ele há gente mesmo bera, do piorio.
Mas vamos ao que interessa. Primeiro, o velhaco teve a lata de entrar e passado um bocado pisgou-se, dizendo que lhe tinha acontecido um “imponderável” – há pois, o gajo tem a mania de usar palavras de 7$50. Quer dizer, os outros todos tiveram que estar na reunião o tempo todo, enquanto que o pirata, fresquinho que nem uma alface, voltou só no fim e logo para armar estrilho. Vejam bem, já toda a gente estava cansada, (afinal, tinham estado a analisar um documento com 278 páginas), quando o caramelo começou a espingardar.
O que vale é que o Sr. Presidente é um Santo, com paciência de Job, e aturou aquilo tudo sempre bem disposto.
Então não é que o gabiru veio para ali armar-se aos cágados a dizer que o Conselho Municipal de Educação devia ter participado na elaboração da Carta Educativa do Concelho de Estremoz? Até parece que não há gente na Câmara muito mais capaz que ele. Depois não se ficou por aqui, teve a lata de insinuar que aquele documento estava… estava… como foi que ele disse? ah, já sei, (já não me lembro é se foi ainda lá dentro ou já cá fora) o fulano disse que o documento estava “plagiado”, que é como quem diz, “copiado”, que não fazia… como é que era? pois, que “não fazia referência às fontes” – a meter água esteve ele o tempo todo – e que era um mau exemplo para todos. Que a Carta Educativa tinha erros... daqueles dos ditados, estão a ver? e que tinha também erros doutro tipo. Enfim, eu sei lá o que sujeito para lá disse. Maldizente, foi o que foi.
Mas é claro, naquela reunião estavam muitas pessoas importantes e elas saíram logo em defesa do Sr. Presidente. Então o tipo estava ali a armar-se ao pingarelho e não levava logo uma resposta não? Era o que faltava. Deram-lhe na corneta e bem.
Então não é que o gandim não teve respeito por ninguém? Respondeu mal a essas pessoas… Bom... mal é como quem diz, mas esteve mal, pronto, quase dava ares de que querer pôr‑se ao nível das pessoas importantes, não soube ficar no seu sítio. Deu para ali exemplos como se os outros fossem Tonhos. Tonho é ele, o estupor.
Mas, afinal, quem é que ele pensa que é?

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