quarta-feira, 16 de maio de 2007

1. (H)ondas de mudança; 2. Estavas mesmo a pedi-las; 3. Universidade Independente; 4. Maddie

1. (H)ondas de mudança

É com muita honra que vos anuncio que o Município de Estremoz entrou, finalmente, na rota da prosperidade e do desenvolvimento. São já evidentes sinais claros e exteriores da nossa riqueza colectiva, facto que deixa qualquer estremocense que se preze a transbordar de alegria e de orgulho pela sua tão nobre origem. De um momento para o outro, como que por magia, a autarquia saneou as suas contas – que tão pesadas eram no 1.º de Novembro de 2005 –, pagando o que devia, a tempo e horas, aos fornecedores e às entidades bancárias que suportaram durante os anos os devaneios despesistas que caracterizaram a administração municipal até aquela data. Como é evidente, este milagre económico só foi conseguido graças a uma genuína e efectiva Gestão Autárquica, a qual reclamou alguns sacrifícios aos estremocenses em geral – e a alguns trabalhadores em particular – mas que foram largamente compensadas pelos benefícios colectivos de que actualmente já desfrutamos. Hoje, Estremoz é um imenso jardim de harmonia, com espaços limpos e bem cuidados, onde proliferam actividades económicas promissoras e amigas do ambiente (que antes eram emperradas por um licenciamento municipal castrador). É uma cidade recheada de equipamentos e de mobiliário urbano que potencia uma qualidade de vida inimaginável há apenas 1 ano e ½ atrás.

Hoje, ao contrário de antes, já não se recorre ao endividamento oculto, contraído nas costas da população e da Assembleia Municipal, para possibilitar a realização de despesas injustificadas e injustificáveis. É por isso que estes Hondas da mudança, ecológicos, são um prémio justo para aqueles que nos proporcionaram este Nirvana de Bem-Estar. É caso para dizer: – DECE!

2. Estavas mesmo a pedi-las

Por falar no Jardim do Éden, lembrei-me agora das eleições na Madeira. A aposta de Sócrates era minar o último mandato do Alberto João para, desta forma, potenciar a transição tranquila para o socialismo socrático. A estratégia era simples: vá de dizer que a Madeira era rica graças ao off-shore, como se os navios mercantes de quase todo o mundo e os lucros das sociedades estrangeiras sediadas naquele arquipélago fossem propriedade dos madeirenses. Acontece que Jardim, de quem não é fácil gostar dado o seu assumido populismo e modos desabridos, percebeu a golpada e antecipou-se. Se as regras do jogo iam mudar a meio do mesmo, havia que denunciar a parcialidade dos árbitros. Foi a votos. Ganhou. E de que maneira. Sócrates estava mesmo a pedi-las!

3. Universidade Independente

Parece que a Universidade Independente vai fechar. O que se lamenta é que não haja qualquer plano para integrar os seus alunos. Quem pagou propinas com grandes sacrifícios é atirado para o lixo, como se fossem eles os culpados de outros terem feito exames numa singela folha A4.

4. Maddie

Fiquei sensibilizado com o esforço desenvolvido pelas autoridades portuguesas para encontrar a jovem Madeleine. Espero, porém, que, doravante, também as crianças portuguesas – ou melhor: todas as crianças desaparecidas em Portugal – passem a beneficiar de idêntico esforço e empenho.

domingo, 29 de abril de 2007

1. Yes; 2. Bolonha… à portuguesa


1. Yes

Em rigor a sigla não contém o Y mas sim um I, IES, e significa Informação Empresarial Simplificada. Doravante, as empresas irão passar a remeter de uma só vez a informação que até aqui era dirigida a 4 entidades distintas: Direcção-Geral dos Impostos, Direcção-Geral dos Registos e do Notariado, Instituto Nacional de Estatística e, finalmente, Banco de Portugal. Esta medida gera, entre outros, os seguintes efeitos: os contribuintes vêm a sua vida facilitada, poupam nos seus recursos – humanos, materiais, temporais e, logicamente, financeiros –, o Estado também poupa em recursos, minimiza erros e redundâncias, ganha em tempo e, apesar de reduzir em 15% a sua receita nominal, vai ver aumentada em cerca de 400% a sua receita efectiva. Ah, já me esquecia, o Estado vai também conseguir reduzir o incumprimento das empresas (de algumas das suas obrigações declarativas) de 80% para, no espaço de 2 anos, ZERO! É incrível como um bocadinho de competência – lamentavelmente, um exemplo algo isolado – opera milagres na vida das pessoas.

2. Bolonha… à portuguesa

Portugal tem peculiaridades notáveis. Ao nível do ensino cito dois exemplos diametralmente opostos. Como bom, destaco o projecto "telescola", o qual nasceu na década de 60 para fazer face à passagem da escolaridade mínima de 4 para 6 anos. Portugal era – ainda é, mas na época era mais – um país de parcos recursos, pelo que foi preciso engenho e arte para conseguir elevar o patamar educacional com meios tão escassos. A telescola foi uma solução original, resultado da inventiva e da criatividade nacionais, a partir da qual os jovens das regiões mais inóspitas tiveram acesso aos melhores professores nas diferentes disciplinas, auxiliados depois por monitores locais que os socorriam no esclarecimento de dúvidas e na resolução de trabalhos.

Como mau exemplo destaco a implementação do Processo de Bolonha. Primeiro, importa frisar que não há nenhum absurdo em querer formar graduados no ensino superior ao fim de 15 anos de escolaridade. São muitos os países da Europa e da América que já o fazem há dezenas de anos. Agora fazê-lo reduzindo, pura e simplesmente, os conteúdos das antigas licenciaturas, sem mudar mais nada de substancial, é manifestamente insuficiente. A solução passaria por adequada articulação das universidades com as escolas secundárias, colmatando lacunas e eliminando redundâncias formativas, com benefícios recíprocos para ambos os níveis de ensino. O que não faz sentido é ministrarem-se saberes no secundário que são totalmente desperdiçados no ensino superior, enquanto que nas universidades se perde tempo com formações básicas ao invés de se aprofundar e desenvolver aquilo que deveria constituir pré-requisito de admissão.


quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril e Cidadania

A Democracia e a Liberdade são as duas grandes virtudes que emanaram do 25 de Abril. Para os mais jovens, em especial para os que nasceram depois de 1974, é compreensível que a data que lhes diga menos que àqueles que viveram sob o jugo da ditadura. Para eles, liberdade e democracia é algo tão natural como respirar. 25 de Abril é um feriado, tal como para os mais antigos já o eram o 1.º de Dezembro ou o 5 de Outubro. Já relativizaram a data, ou seja, já a remeteram para a História.

Por muito que esta atitude escandalize os mais ortodoxos, a verdade é não faz sentido persistir na doutrinação do 25 de Abril de uma forma oca e verbalista, já que tal via é, comprovadamente, ineficaz. Os ideais de Abril celebram-se todos os dias cumprindo o seu verdadeiro desígnio, assegurando os direitos de todos em prol do bem-estar colectivo. A Liberdade evoca-se não obrigando a fazer o que a lei não impõe e permitindo que se faça o que ela não proíbe, exprimindo livremente o pensamento sem temer represálias de quem detém o poder, protegendo a liberdade de imprensa, aplicando a lei de igual modo para todos, impedindo mordomias e privilégios social e eticamente injustos, responsabilizando os erros públicos e os abusos de poder, dando sequência a petições, queixas e reclamações, julgando e punindo os que cerceiam os direitos de outros, assim como aqueles que usam em benefício próprio o património comum.

Se bem que a Democracia Política esteja consolidada em Portugal, a verdadeira Liberdade, neste sentido mais abrangente, continua a ser um processo em curso. Os mais velhos, em particular os que reclamam contra o facto dos mais jovens celebrarem mais efusivamente o 14 de Fevereiro do que o 25 de Abril, têm que dar o exemplo e este não pode ser com verborreia mas sim com acções concretas. Têm que se indignar, têm de agir, têm de exercer plenamente a cidadania. Não podem ficar indiferentes.

O 25 de Abril constitui um marco importante na nossa História. Porém, não é o único. Em 1640 recuperámos a Portugalidade; em 1820 cerceámos o poder aristocrático e, em 1910, acabámos com a sucessão dinástica no exercício do poder. Só falta consolidar a Cidadania.

domingo, 15 de abril de 2007

1. Ad valorem II; 2. MILU; 3. Suprema estupidez; 4. Exclusão do valor; 5. As cangochas da asna

1. Ad valorem II

Ad valorem entra no seu segundo ano de publicação regular. A mensagem central continua a ser a mesma: parafraseando Nicolau Santos, "Portugal vale a pena!", os portugueses têm valor e são tão capazes como qualquer outro povo! Temos do melhor que nos orgulha e do pior que nos envergonha. Porém, no cômputo geral o saldo é, tem de ser, sempre, positivo. Basta que remetamos o valor e a mediocridade para os seus devidos lugares.

2. MILU

Continuando com as más notícias… Eu, se não visse, não acreditava. Recebi há dias um vídeo – de péssima qualidade, frise-se – onde vi a Ministra da Educação da República Portuguesa comportar-se de uma forma… inimaginável. De microfone na mão, em cima de um palco numa cerimónia pública, vi Maria de Lurdes Rodrigues dirigir-se aos que a circundavam recorrendo a apupos. Ao que parece, a ministra estava a reagir à vaia de que estava a ser alvo por parte de alunos do ensino básico. O que ninguém esperava era que a ministra reagisse com um "huuuu", desafiando os seus jovens opositores (!?). A Ministra da Educação evidenciou – de forma superior, sublinhe-se – a educação que tem e aquela que representa. Só visto, contado nem dá para acreditar.

3. Suprema estupidez

É assim que classifico a decisão do Supremo Tribunal de Justiça num processo que envolvia um órgão de comunicação social e um clube desportivo. Depois de na primeira instância e, subsequentemente, no Tribunal da Relação a acção intentada pelo clube ao jornal ter sido considerada improcedente, vêm aqueles senhores dizer que pouco importa se a notícia era verdadeira ou não. Para o topo da hierarquia judicial em Portugal o que importa é que os alegados factos divulgados, mesmo que verdadeiros, ofendem o bom-nome do clube e, como tal, deverá este ser ressarcido mediante indemnização pecuniária por danos morais. Dá para entender?

4. Exclusão do valor

Não estou em condições de assegurar a autenticidade de uma situação relatada no Blog "Mais Évora", segundo a qual um alegado quadro superior da administração pública – que se identifica pelo também alegado nome próprio – denúncia a sua inclusão no quadro de excedentes pela objectiva razão de não ser submisso para com a hierarquia politicamente nomeada. No entanto, sei por experiência própria (e directa constatação) de situações muito semelhantes e em tudo similares à descrita. Não está em causa a cor partidária dos politicamente nomeados já que, infelizmente, estas "coisas" – digamos assim – existem em todos os quadrantes políticos. O que está em causa não é a diferença, é, lamentavelmente, a indiferença com que pactuamos – por omissão, por falta de indignação e de denúncia pública – com o servilismo e o compadrio que mina a sociedade portuguesa e a impede de ser mais saudável e mais digna. É também por isto que esta coluna vai continuar a incomodar muita gente "boa" (segundo os padrões politicamente correctos... ou deveria dizer convenientes?).

5. As cangochas da asna

Faço uso amiúde da expressão popular "a mesma burra não me dá dois coices". Até aqui, e por via de regra, tem sido verdade. No entanto, tal não significa, necessariamente, que ela, a asna, não continue a agir de acordo com a sua natureza.

terça-feira, 3 de abril de 2007

O Engenhêro

Não, não se trata de um erro de ortografia! Escrevi engenhêro deliberadamente. No entanto, ao contrário do que – à primeira vista – possa parecer, não vou falar do personagem que estão a pensar. Vou antes pronunciar-me vagamente sobre o significado simbólico de certas acções e, em especial, sobre os valores subjacentes a certas atitudes, nomeadamente quando uma pessoa exibe, ostensivamente, um título para enaltecer a sua imagem pública.

A mensagem que pretendo transmitir é a de que as pessoas não devem ser avaliadas pelos títulos que exibem. Pelo contrário, devem ser avaliadas por aquilo que são e, fundamentalmente, por aquilo que fazem. Na verdade, quem aposta nas aparências são, afinal, as pessoas que substancialmente pouco têm para mostrar ou, no mínimo, que acham que sem a ajuda do título exibido as pessoas com quem interagem não lhes vão reconhecer o valor que pensam ter (ou que gostariam de ter). As aparências estão associadas ao culto da imagem, ou seja, à convicção de que parecer é, pelo menos, tão importante como ser.

Este culto das aparências tem – felizmente para os que o praticam e infelizmente para os que o rejeitam – alguma razão de ser. Na verdade, ainda vai dando resultados… pelo menos, por algum tempo. Enquanto a cultura dominante não premiar devidamente o mérito, os menos capazes podem continuar, impunemente, a recorrer a este expediente. "É a vida!" como dizia o outro.

Não deve inferir-se das minhas palavras que rejeito em absoluto o uso de títulos. Se eles foram criados foi, justamente, para serem usados… porém, nas circunstâncias adequadas. O que para mim é preocupante é quando se usam prefixos académicos em contextos que nada têm que ver com as funções que, no momento, estão a ser desempenhadas. Quando este exemplo provém de pessoas que já atingiram notoriedade pública, pior. Isto é, já detêm cargos públicos da maior importância, por conseguinte, já detêm "títulos" públicos, e ainda assim pensam que evidenciar os respectivos prefixos académicos continua a ser importante. É um mau exemplo. Dá a sensação que crêem mais no "faz-de-conta" que no cabal desempenho das respectivas funções. Até parece que – conforme assinam na correspondência – ser "Dr.", "Eng." ou "Lic." é mais importante que ser Vereador ou Ministro.

Quando vejo isto a única coisa que me ocorre é uma frase que li algures num serviço público regional que dirigia a seguinte mensagem aos chefes: "Não queremos cá quem muito saiba, mas sim quem faça melhor!".


domingo, 18 de março de 2007

O polvo

As teorias do comportamento defendem que o ser humano vive permanentemente a procurar optimizar o seu bem-estar. Apesar de não haver razão para que alguém se envergonhe disso – afinal, este fenómeno foi denominado, nos idos anos 70 por Michael Jensen e William Meckling, simplesmente por "natureza humana" – a verdade é que são raros os que assumem a racionalidade do seu comportamento. A maioria porque têm pudor de reconhecer perante terceiros que têm interesses, ainda assim não haja alguém que os vá classificar de egoístas ou de algo do género. Outros, porque sabem que têm razões para ocultarem a sua verdadeira essência quando esta não é socialmente aceitável.

A verdade, porém, é que apesar desta busca incessante pelo bem-estar, apenas alguns eleitos o conseguem de facto. Uns por mérito próprio. Estando melhor informados que os demais, dispõem de habilitação que lhes permite tomarem melhores decisões. Outros porque apesar de serem menos capazes, sabem o essencial da natureza humana e não têm qualquer escrúpulo em usar tal mister em benefício próprio, mesmo lesando terceiros. Em colunas anteriores já me referi a este fenómeno. Por exemplo, em "Zaragatas à moda antiga" e em "Perspectivas" referi-me à incapacidade que algumas pessoas têm em ver segundo a perspectiva do outro, facto que impede uma adequada percepção de nexos de causa-efeito. Em "Distância hierárquica" denunciei a hipocrisia da adulação do poder e a falsa humildade daqueles que, como os chineses medievais, baixam a cabeça perante o seu senhor enquanto se peidam silenciosamente. Neste contexto, algumas pessoas preferem pedir favores a reclamar direitos porque pensam ser mais eficaz ficar em dívida mas ter, do que exigir e… perder. Em "D. Branquinha" mostrei o outro lado da ganância. Quanto mais se ambiciona o ganho fácil mais facilmente se cai num embuste.

E por falar na "D. Branquinha", houve quem me questionasse onde é que pretendia chegar com o final daquela coluna. Esclareço: tal como n'O polvo, série que animou os serões dos anos 80, também na nossa sociedade existem tentáculos que corrompem a integridade de pessoas comuns. Ao inspector Corrado Cattani haviam raptado o filho; a alguns dos nossos compatriotas raptaram-lhes o direito de falar e de agir como cidadãos livres. A tal ponto chegámos que já há pessoas que se sentem forçadas a pedir o anonimato quando escrevem ou dizem algo que possa desagradar a quem tem o poder. Não estou a falar do anonimato que caracteriza aqueles que atacam cobardemente os que ainda se sentem livres para dar a cara. Falo, sim, de pessoas que temem represálias no emprego se não alinharem com a posição oficial. Há muitos a quem acenaram com promessas de que irão ter, facilmente, algo de bom que muito ambicionam. Só há uma condição: têm de se comportar de uma determinada forma. Como em tudo na vida, se é bom, o melhor é pagar o preço, porque caso contrário vai sair mais caro. Alguns, em desespero, aceitam a solução mais fácil… mais tarde apresentam-lhe a factura a cobrar.

Se isto não é similar à "La piovra", então o que é?

Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 22 de Março de 2007


domingo, 4 de março de 2007

Os segredos do sucesso de Sócrates

O primeiro foi não escrever nada. Assim jamais podia ser confrontado com as suas próprias contradições. O segundo foi nunca exaltar o seu saber, preferindo apresentar-se com humildade intelectual perante os seus interlocutores: "só sei que nada sei!". Desta forma, ao formular perguntas de "ignorante" arrastava os opositores para situações de incoerência, desacreditando-os através da denominada "ironia socrática". O terceiro segredo foi censurar a lábia e a demagogia dos outros fazendo uso da sua própria (e ainda mais demagógica) lábia. No seu julgamento em Atenas, no ano de 399 AC, referiu que a acusação de que era alvo era tão convincente que ele próprio esteve quase a acreditar que era culpado.
Será que estas fórmulas também estão a resultar, em pleno séc. XXI, com o português José Sócrates, por azares da vida (e sorte de alguns) primeiro-ministro de Portugal? Não! Ou melhor, usando da humildade socrática clássica, penso que não! José Sócrates faz uso das suas próprias fórmulas de sucesso, as quais, mérito lhe seja reconhecido, são muito mais adequadas aos dias de hoje. Vejamos porquê:
1) Mesmo que Sócrates não escrevesse nada, não se safava. A imprensa encarrega-se de reproduzir até o que se pensa, quanto mais o que se diz e o que se faz. Vai daí, tinha de haver outra solução para prevenir os indesejáveis confrontos com as contradições do discurso. José Sócrates disse que não haveria aumento da carga fiscal, que não haveria portagens nas SCUT, que iria criar 150 mil empregos… e, como sabem, não há aqui qualquer contradição com aquilo que veio a ser a prática do seu governo. O quê? Há? Vá, não sejam maledicentes, é claro que não há, senão é óbvio que a generalidade da imprensa que o conserva em estado de graça vai para dois anos já o tinha denunciado. (Outros houve que ainda nem tinham assumido o poder e já eram desgraçados.) Como consegue Sócrates isso? Pois, isso também eu gostava de saber, mas como refiro no título é "segredo" que o nosso primeiro não revela.
2) Quanto à segunda fórmula – não exaltar o seu saber – o Sócrates de hoje também fez uso de solução diferente. Como cavaquista empedernido, faz exactamente o contrário: ele sabe, ele sabe que sabe, sabe que é melhor que os outros e, não contente com isso, despreza quem se pretenda afirmar mais sabedor. Tal como outros grandes líderes do séc. XX – os quais, inevitavelmente, mais tarde, bem mais tarde, tarde de mais na opinião de muitos, acabaram por cair em desgraça – a mensagem avançada é de que o Sol só brilhará com ele, o futuro vai ser auspicioso, vamos ter tudo de bom e do melhor, só precisamos mesmo é que lhe demos tempo, porque o presente é duro. Em suma, o segundo segredo de Sócrates, aqui e agora desvendado, é usar a necessidade que as pessoas têm de acreditar em alguma coisa.
3) O terceiro segredo de Sócrates assenta com tal força na demagogia que nem de lábia precisa. Escolhe alvos fáceis, contra os quais todos temos alguma coisa. Agricultores, bancos, professores, farmacêuticos, etc., etc., conseguindo unir todos (mesmo as vítimas) contra cada um dos inimigos públicos em particular. De uma maneira geral, o público delicia-se neste enorme coliseu quando vê os seus ódios de estimação serem lançados às feras… a coisa só perde a graça quando os espectadores perceberem que eles serão os próximos a entrar na arena para diversão dos restantes… Afinal, Sócrates sabe (bem demais, penso eu) que enquanto houver "culpados" ninguém precisa de mais explicações.

Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 08 de Março de 2007

domingo, 18 de fevereiro de 2007

SENSIBILIDADE E BOM SENSO

Apesar do título da presente crónica lembrar o romance homónimo de Jane Austen, Sense and Sensibility, o seu conteúdo irá versar sobre questões do nosso quotidiano, mais especificamente, sobre o abate de árvores de grande porte em Estremoz. Permitam-me, contudo, que antes de passar ao cerne da questão justifique a razão de ser da escolha do título. Na obra de Jane Austen, as personagens principais são a Elinor, que representava a razão (sense), e a Marianne, que representava a emotividade (sensibility), as quais agiam de forma consonante com as respectivas personalidades.
A questão do abate de árvores de grande porte está intimamente relacionada com estas duas vertentes. Para haver sensibilidade não pode ser de ânimo leve que se destrói em minutos aquilo que levou décadas a criar. As árvores dignificam e embelezam o espaço urbano, conferem frescura, sombra, proporcionam ambiente, quer pelas interacções sociais que as pessoas estabelecem junto delas, quer pela orquestração melodiosa de sons da natureza. Em Portalegre, o Plátano – com P maiúsculo dada a sua condição de monumento – foi a primeira “sede” do Sport Club Estrela. Foi palco de celebrações eleitorais por ocasião da primeira República, testemunhou namoros, arrufos e até desacatos (paradoxalmente, em ocasiões de festas e romarias).
Por outro lado, as árvores por vezes também provocam ranço a algumas pessoas. Pelas mais variadas razões. Por terem pernadas ruidosas em noites de invernia, pela algazarra dos pássaros, pelas caganitas dos mesmos, por as suas folhas entupirem os algerozes, por as raízes alterarem a regularidade do pavimento ou danificarem as canalizações, pelas alergias ao pólen, por taparem o sol ou até por ocultarem o fogo de artifício. Quando se embirra com uma árvore, o que não faltam são razões que podem ser apontadas para justificar o seu abate ou poda excessiva (que, na prática, é equivalente a morrerem de pé). Manda o bom-senso que sempre que os malefícios causados pelas árvores excedam os seus benefícios que se actue, não para beneficiar alguém em particular mas sim para defender o interesse colectivo. Porém, quando a actuação implicar a destruição do património arbóreo, (o qual, por definição, integra a paisagem urbanística da cidade), era bom que não fosse justificada apenas pelo receio de perder ½ dúzia de votos dos queixosos. O que deve prevalecer é a vontade da maioria e é por isso que os instrumentos de gestão urbanística estão sujeitos a discussão pública. Abater árvores é uma acção demasiado séria para ficar à mercê de caprichos ou estados de alma.
Em Estremoz houve abates de árvores completamente injustificados. Estavam longe de casas, de condutas e de colectores. Tal acção foi determinada por meras decisões administrativas, não suportadas por planos legalmente válidos ou por estudos técnicos. Em Portalegre, com a mesma falta de sensibilidade e de bom senso, também tentaram derrubar o Plátano plantado em 1838. A diferença foi que aí o povo revoltou-se…




Publicado na edição de 23 de Fevereiro de 2007 do Jornal "Brados do Alentejo"


terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Pelo sim pelo não

No momento em que esta minha crónica for publicada, a generalidade das pessoas já terão decidido o sentido do seu voto no referendo do dia 11 de Fevereiro. Ainda bem. Tenho consciência, porém, que pelo menos para alguns a decisão não terá sido fácil. De facto, por vezes demos por nós a discordar frontalmente de posições assumidas quer pelo SIM quer pelo NÃO – por serem tão disparatadas –; enquanto que noutros casos também pudemos testemunhar argumentos consistentes e sensatos esgrimidos pelas duas partes em confronto. Foram estes últimos, aliás, que nos colocaram na difícil posição de decidir com quais nos identificávamos mais, já que sendo teses opostas eram mutuamente exclusivas.
Da síntese que fiz desta campanha, passo agora a destacar as posições que me geraram maior repulsa, por as considerar, pura e simplesmente, idiotas. Do lado do SIM, o slogan “no meu corpo mando eu” acabou, na prática, por fazer campanha pelo lado contrário. Na realidade, a mensagem implícita naquela frase equipara fazer um aborto a fazer um clister. Passa uma ideia irresponsável do “vale tudo”, de um egoísmo atroz que não deve ser encorajado. Por sua vez, o NÃO também apresentou péssimos argumentos, nomeadamente aquele do Bispo de Bragança - Miranda que equiparava o aborto à pena de morte. É fundamentalismo. Se qualquer estádio intermédio da vida celular for considerado vida humana então a mera contracepção é uma arma de destruição massiva e o que não falta por aí são serial killers.
Felizmente, em ambos os lados da contenda foram também apresentados argumentos razoáveis. Pelo NÃO destaco a mais importante das mensagens: há vida intra-uterina! Numa forma embrionária, é certo, mas VIDA! Nas primeiras semanas de gestação, o embrião não terá ossos, não terá órgãos desenvolvidos, não terá cérebro nem consciência, mas terá todas essas coisas se o fenómeno da multiplicação celular não for interrompido. Logo, a decisão de abortar, sejam quais forem as circunstâncias que a determinam, deve ser sempre a última opção. À partida, sou contra.
Ainda que possa parecer paradoxal, é justamente por achar que o aborto deve ser prevenido e reduzido à sua dimensão mínima, que me revelei mais sensível às teses protagonizadas por algumas correntes do SIM. De facto, com penalização ou sem ela, o aborto sempre irá existir. Porém, se a mulher que se sente tentada a abortar não for estigmatizada ou excluída, poderá beneficiar de uma ajuda qualificada ao recorrer a estabelecimentos autorizados, inexistente na clandestinidade. Se tiver que abortar, que o faça então, em condições de segurança, antes que o embrião passe a ser feto. Sendo aconselhada sem ser perseguida, ao ser confrontada com soluções alternativas, pode até acontecer que se evite o aborto. E eu acredito que isso irá acontecer. A opção pelo aborto é dramática para quem a pratica. Não precisa de mais castigos.
Finalmente: o aborto não vai passar a ser obrigatório. Por isso, voto SIM!
Publicado na edição de 09 de Fevereiro de 2007, do Jornal "Brados do Alentejo"

sábado, 27 de janeiro de 2007

No tempo em que os animais falavam

Não é de hoje nem vai acabar amanhã a situação em que os poderosos – ainda que não, necessariamente, todos – subjugam os mais fracos. No entanto, reconheça-se, já foi pior. Tempos houve em que os poderosos se achavam dotados de inspiração divina e, de tal sorte, consideravam perfeitamente naturais e razoáveis os privilégios de que gozavam.
Na época do Rei David – sim, daquele que (quando pastor) derrotou com uma funda o filisteu Golias – este não se contentou em cobiçar a mulher de Urias, o heteu. Fez mais: encomendou ao seu general Joabe uma batalha com os filisteus cujo principal propósito não era combater o inimigo, mas sim arranjar uma forma de Urias morrer em combate. Quando os mensageiros levaram ao rei a notícia da derrota, na qual pereceram muitos do povo de Israel, David só quis saber se Urias tinha, de facto, morrido, para assim poder desposar a mulher do rival. De tal casamento, o segundo rebento teve por nome Salomão – sim, o tal que tinha grande sabedoria – o qual, por sua vez, com muita sensatez, mandou matar o irmão Adonias, assim como Joabe, não fossem estes pôr-lhe em risco a coroa de David.
Como eram belos os tempos em que os animais falavam.
Mas espera aí. Quem falou em passado? Hoje as coisas são diferentes, no entanto continua a haver animais a falar. Querem exemplos? Que dizer então daquele passarão que disse que a culpa da subida do preço da electricidade era dos consumidores? Já pagamos mais 24% que a média comunitária, mas ainda assim somos culpados. Depois somos também culpados de as nossas empresas não serem competitivas, quando na generalidade dos factores produtivos – à excepção do factor trabalho – estamos em desvantagem para com as empresas estrangeiras. Que dizer de um certo Governador vir anunciar que os problemas da Segurança Social ficaram resolvidos por décadas, graças às poções milagrosas deste Governo? Como? À custa dos mesmos de sempre. Ainda que se reconheça que algo teria de ser feito, a verdade é que se obteriam resultados mais evidentes se fossem combatidas as mordomias daqueles que, no seio do poder, auferem compensações significativamente acima das suas comparticipações para o sistema. Que dizer das subidas desmesuradas dos nossos impostos, de tal modo absurdas que nem sequer geram maiores receitas, desviando-as para la Hacienda espanhola? É o caso dos combustíveis, do tabaco, etc. Não faz mal que as gasolineiras vão falindo nas regiões de fronteira. Então e as reduções nas comparticipações dos medicamentos? E que tal pagar IMT (antiga SISA) duas vezes em caso de divórcio? Que dizer do Senhor Juiz que se confina a questões processuais e, nessa perspectiva, não vê mal em que o verdadeiro pai da Esmeralda – ou seja, aquele que, pela filha, sacrificou tudo – vá para a prisão, porque o cedente do espermatozóide se lembrou, tarde e a más horas, que também queria ser pai da menina que antes lhe ia estragar a vida?
Portugal era assim, no tempo em que os animais falavam...
Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" na edição de 26 de Janeiro de 2007

domingo, 14 de janeiro de 2007

A Divina Comédia

Muitas foram as vozes que se insurgiram pelo facto de o Director Geral dos Impostos, Paulo Moita de Macedo, ganhar uma “pipa de massa”. Manuela Ferreira Leite, Ministra das Finanças à data da nomeação, teve de ouvir das boas. Onde é que já se viu, um Director Geral ganhar para cima de 20 mil euros por mês? A explicação de tão elevado vencimento – cerca de 4 vezes mais que a Ministra que o nomeou – justificou‑se no facto de essa ser a retribuição auferida por Paulo Macedo enquanto quadro superior do Banco Comercial Português. As questões, ao que parece, terão sido colocadas de forma clara: ou a Manela lhe dava o guito que ele já ganhava no sector privado; ou ela ia cantar o S. Pedro para onde tinha cantado o S. João.
Posto isto, a Ministra anuiu. Acreditou na bazófia do homem que se dizia capaz de conferir eficácia à máquina fiscal, incrementando a sua eficiência sem necessidade de recorrer a procedimentos trauliteiros ou ofendendo a dignidade dos contribuintes. Poucos acreditaram que tal fosse possível. Mas… FOI! Hoje já ninguém duvida que a solução mais económica foi mesmo colocar alguém competente no comando na Direcção Geral dos Impostos. Não saiu barato mas, seguramente, saiu mais barato que as nomeações do costume. Todos ficámos a ganhar.
Prestes a findar a Comissão de Serviço de Paulo Macedo, surge a incógnita: irá ele continuar ficando a ganhar ¼ do actual vencimento? Não sei, nem quero fazer futurologia. A única coisa que sei é que, sinceramente, não lhe vejo vocação para Santo e receio que todos fiquemos a perder por pagar menos a alguém menos capaz. (Aliás, o homem de Santo não tem nada – nem é disso que precisamos – basta lembrar que também ele foi alvo de uma execução fiscal por não ter pago em 2002 a segunda prestação da Contribuição Autárquica de 2001).
Infelizmente, a mesquinhez e as invejas idiotas ainda abundam em Portugal. As pessoas preocupam‑se com o que cada um ganha sem olharem ao que cada um merece. Honestamente, discordo com um vencimento fixo de 20 mil euros por mês. De facto, preferia que Paulo Macedo ganhasse na base o mesmo que qualquer outro Director Geral e que tivesse um prémio caso fosse eficiente (como, efectivamente, foi). Não me importava que ele ganhasse 50 mil euros, desde que tal significasse milhões recuperados para os cofres dos Estado. Aliás, se tal política de prémios se estendesse a outros níveis, talvez fosse possível recompensar aqueles que, quer na administração pública quer no sector privado, estão a ser prejudicados pelos que menos contribuem. Vejam o seguinte exemplo: dois colegas, A e B, ganham o mesmo; A trabalha o dobro de B, logo… ganha METADE! Neste contexto, A deveria também ganhar o dobro de B, já que só assim ambos ganhariam o mesmo em função do trabalho realizado e, por conseguinte, só assim estariam em condições de igualdade.
Ad valorem é uma expressão em Latim já traduzida pela Redacção do “Brados”. Significa: segundo o valor; pelo valor; conforme o valor; de acordo com o valor; em função do valor. Isso é o que defendo.
“(…) et sic contra valorem opponit arrogantiam…” (Comentário de Benvenuto da Imola ao canto XVI da Divina Comédia - Inferno, de Dante Alighieri).
Publicado na edição de 12 de Janeiro de 2007 do Jornal "Brados do Alentejo" (http://www.bradosdoalentejo.com.pt)

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

D. Branquinha

Alguns entendidos – ou, supostamente entendidos – dizem que toda a publicidade é boa… mesmo a má. Eu, neste como noutros domínios, não tenho assim tanta certeza. Certo, certo, foi que Estremoz voltou a ser notícia nos órgãos de comunicação social de expressão nacional, pelo que, de acordo com aquela acepção, não interessa muito se foi por boas ou más razões.
Ao que parece Estremoz foi palco da actuação de uma grande conhecedora da natureza e do comportamento humano, a qual fez uso de tal ciência em benefício próprio. A D. Branquinha – era assim que era conhecida – teve o dom de pôr as pessoas a sonhar e, ainda melhor, de fazê-las lutar pelos seus sonhos, com abnegação e espírito de sacrifício. Porque foi uma portuguesa ilustre, que mobilizou energias e mexeu com os anseios mais íntimos daqueles que a conheceram, talvez não fosse descabida a ideia de homenagear o seu nome numa rua de Estremoz. Porque não a rua onde era “proprietária”? Santa Catarina nem sequer era portuguesa, portanto não passou por lá; 31 de Janeiro – data que comemora a primeira tentativa de implantação do regime republicano – foi um facto ocorrido no Porto em 1891; Oliveira Salazar, assim se chamava a dita rua no ano em que nela nasci, foi apenas um ditador. Pelo que eu percebo da coisa, D. Branquinha mexeu mais com Estremoz que Salazar, que os republicanos do Porto ou que a padroeira da Europa.
Aliás, os seguidores de D. Branquinha passavam o tempo a querer fazer dela uma santa… por isso é que apesar de a tratarem nas palminhas estavam desejosos que ela morresse… (até porque não se canonizam santos em vida).
Enfim, agora a sério. Todos os grandes aldrabões – categoria em que se inseria a D. Branquinha (portanto, esqueçam isso de lhe dar uma rua com o seu nome) – vivem da avidez das suas vítimas. Quanto mais gananciosas melhor. Basta acenar-lhes com a hipótese de ficarem mais ricos de um momento para o outro e elas cegam imediatamente. Perdem clarividência na avaliação dos pequenos sinais que denunciariam o embuste. Porém, é a sua gula pela fortuna mirabolante que se avizinha que constitui a própria cortina de fumo que oculta as intenções dos autores da trapaça. Neste contexto, todos os sacrifícios que lhe são pedidos se revelam pequenos perante a maravilha do que aí vem. E assim vão caindo os patos. (Deve ter sido hilariante presenciar a cena em que, um a um, se foram revelando os “únicos” herdeiros de D. Branquinha.)
Se bem que cada um pense o contrário, é mais fácil cair em situações destas do que se imagina. Aliás, passamos a vida a cair em situações que, apesar de diferentes, são análogas. As pessoas acreditam no que querem acreditar, e, quem não tiver escrúpulos, só tem que fazer o adequado uso disso… nos nossos empregos, na política, etc.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" em 29 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Apologia de Sócrates

Há cerca de 2400 anos foi redigido um texto, escrito por um seguidor de Sócrates, com o mesmo título da crónica desta quinzena. A Apologia de Sócrates descreve os últimos dias da vida de uma das maiores personagens da História da humanidade e da filosofia, enaltecendo a sua coragem e o seu comportamento no julgamento de que foi alvo por parte da cidade de Atenas. Acusado de corromper a juventude contra a religião e as leis da cidade, Sócrates viria a ser condenado à morte – pela ingestão de cicuta (um veneno) – num tribunal com mais de 500 juízes, dos quais pouco mais de metade se pronunciaram favoravelmente às teses da acusação.
Esclareça‑se, todavia, que a minha Apologia de Sócrates pouco tem que ver com aquela que foi escrita (se bem que… um pouco romanceada) por outro grande vulto da filosofia: Platão. Desde logo, porque o Sócrates a que me refiro não é o mesmo. É outro bem mais conhecido dos portugueses. Por outro lado, ao contrário da apologia de Platão, a minha não revela idêntica devoção pelo personagem.
Mas porque razão merece Sócrates esta apologia, demais a mais provinda de alguém que não votou nele? A razão é simples: Sócrates rompeu em definitivo com a tradição socialista da não governação, de adiar a resolução dos problemas, de fingir que faz sem fazer, de fingir que decide sem decidir. Não vou deixar elogios às políticas do governo, nem sequer vou discuti‑las na substância, agora que o povo português ficou surpreendido com este estilo de governação por parte de um primeiro-ministro socialista, disso não há a mínima dúvida. Provavelmente, Sócrates teve outra escola… talvez isso explique tudo. A tradição do “Socialismo de Caviar” é bem diferente. Dizem‑se defensores dos mais desprotegidos mas representam, afinal, uma burguesia urbana bem instalada na hierarquia social que, tradicionalmente, se protege a si própria mais do que qualquer outra coisa. Evidentemente, existem socialistas muito diferentes entre si, uns laicos, de raiz jacobina e maçónica, outros cristãos professos e praticantes, mas que em comum tinham sempre o não fazerem nada ou não fazerem nada de jeito. O que importava eram os votos, os amigos, os jeitos e as cumplicidades. O Povo e o País ficavam, naturalmente, no fim da fila.
Esta é a razão porque faço esta minha apologia a Sócrates. Foi o primeiro socialista que conseguiu cortar a direito, que conseguiu decidir mesmo quando a opinião pública não é favorável. Foi e é, o primeiro socialista português que revelou coragem política.
O facto de reconhecer qualidades a Sócrates não faz de mim um seu seguidor. Em bom rigor, detesto o seu carácter, o seu calculismo pragmático, a sua atitude de mentir para chegar ao poder, a sua falta de escrúpulos em que os fins sempre parecem justificar os meios.
Mas respeito a determinação.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 15 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

sábado, 2 de dezembro de 2006

Autoavaliação

“A mesma burra não me dá dois coices!” Esta é uma expressão popular a que recorremos quando pretendemos pôr em evidência a nossa capacidade de aprender com os próprios erros. Quem a usa, revela várias virtudes: sensatez (porque se dispôs a avaliar as suas acções), humildade (porque reconhece que errou), e determinação (por estar empenhado em não voltar a errar da mesma forma).
Portanto, a autoavaliação é, reconhecidamente, um exercício útil. Ainda assim, a autoavaliação não dispensa a avaliação externa, a qual complementa a primeira. Confrontando ambas é possível determinar onde é que a carga emocional retirou clarividência aos envolvidos nas acções avaliadas. Pode não ser bom para afagar o Ego, mas é, sem margem para qualquer dúvida, necessário (em especial, para corrigir aquilo que estiver menos bem).
Bom, chegou o momento de justificar a razão pela qual estou para aqui com esta conversa. Foi esta: assisti recentemente, na nossa praça, a um monólogo travestido de reclamação e resposta, no qual o reclamante e o respondente são, na prática, uma e a mesma entidade. Atenção! Não se tratou de um solilóquio (monólogo dirigido ao próprio orador). Foi antes uma ridícula encenação (patética, mesmo), dirigida ao público em geral sob a forma de aparente exercício de autoavaliação.
De autoavaliação não teve nada. De facto, não foi sensato (foi autismo), não foi humilde (foi narcisismo mórbido) e, finalmente, não revelou qualquer determinação em corrigir os próprios erros (os quais, aliás, nem sequer foram assumidos). Pelo contrário, quer a pretensa reclamação quer a fantasiosa resposta tiveram por única intenção desviar as atenções das avaliações externas efectuadas pelas diferentes forças políticas à acção do executivo socialista no município de Estremoz.
De acordo com a autoavaliação do PS vivemos no melhor dos mundos. Comovem‑se com uma mera reposição de calçada ou com a plantação de meia dúzia de árvores e tudo quanto não estiver alinhado com este paraíso na Terra é mera maledicência. Renega‑se todo o passado autárquico promovido pela CDU, persegue‑se inclusivamente (através de auditorias circunscritas a 31 de Outubro de 2005), mas ao mesmo tempo apropria‑se abusivamente de trabalhos antes desenvolvidos (Carta Educativa) e copia a prática de contratar empréstimos para pagar dívidas (cuja génese é de duvidosa legalidade, embora assumidas pelo actual executivo).Enfim, até podiam discordar (estavam no seu direito), agora fantasiar através de encenações? Foi uma oportunidade perdida para restaurar a confiança dos estremocenses. Estremoz precisa e quer que o PS execute o seu mandato no mínimo melhor que o anterior executivo. Não precisa dos antigos melodramas (variedade teatral que combinava a dramatização com canto e música instrumental).
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 01 de Dezembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

domingo, 26 de novembro de 2006

1. Distância hierárquica; 2. Percepções e realidade

  1. Confesso que tenho alguma dificuldade em lidar com este fenómeno. Expliquemo-lo primeiro. Distância hierárquica, em palavras simples, traduz-se nas vénias aos doutores e engenheiros, na adulação dos chefes, pelas pessoas deixarem de dizer o que efectivamente pensam aos “superiores” para passarem a dizer aquilo que acham que eles gostariam de ouvir. Trata-se de um fenómeno cultural em que as pessoas se consideram, à partida e por natureza, desiguais. Neste contexto, os títulos, o status, a imagem projectada, constituem o elixir do sucesso social. As pessoas mostram‑se capazes de uma grande reverência por quem tem poder ou autoridade, ao mesmo tempo que são capazes duma severidade extrema para aqueles que se encontram ao mesmo nível, procurando rebaixá-los sempre que acham que… “se estão a armar”.
    Bom, mas porque falo disto hoje? Porque sempre pensei que este fenómeno estava ligado ao nosso crónico défice de escolaridade e, por conseguinte, que à medida que as pessoas fossem ficando mais instruídas ele se fosse esbatendo e, tendencialmente, desaparecendo. Porém, cada vez mais vou pondo esta perspectiva em dúvida. Apesar da sociedade portuguesa estar mais letrada, nem por isso se assiste a um maior exercício da cidadania. Pedir favores, meter cunhas, ficar em graça, são fenómenos que continuam a prevalecer relativamente a reclamar direitos. E se as pessoas pensam e agem assim é porque deve dar frutos. Deve ser melhor que barafustar. Vai na volta, a distância hierárquica acaba por revelar‑se, afinal, um exercício calculista calibrado por um apertado controlo das emoções.
  2. “Percepções e realidade” é o título do livro de Santana Lopes apresentado no princípio desta semana. À primeira oportunidade, vou ler. Sempre vou querer perceber se as suas “percepções” lhe permitiram antever a “realidade” com que se veio a confrontar.
    No lançamento, Santana Lopes já deixou um ar da sua graça: deu a entender que para Cavaco chegar a Presidente teria de, primeiro, se livrar dele à frente do Governo.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 17 de Novembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)]

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Não sei se vos diga se vos conte

Ele há coisas… senhores! Não sei se vos diga se vos conte. Mas conto, pronto, o que se passou foi isto:
Há dias houve ali no Salão Nobre uma reunião do Conselho Municipal da Educação. Então não é que apareceu lá um marmelo armado em carapau de corrida. Ele há gente mesmo bera, do piorio.
Mas vamos ao que interessa. Primeiro, o velhaco teve a lata de entrar e passado um bocado pisgou-se, dizendo que lhe tinha acontecido um “imponderável” – há pois, o gajo tem a mania de usar palavras de 7$50. Quer dizer, os outros todos tiveram que estar na reunião o tempo todo, enquanto que o pirata, fresquinho que nem uma alface, voltou só no fim e logo para armar estrilho. Vejam bem, já toda a gente estava cansada, (afinal, tinham estado a analisar um documento com 278 páginas), quando o caramelo começou a espingardar.
O que vale é que o Sr. Presidente é um Santo, com paciência de Job, e aturou aquilo tudo sempre bem disposto.
Então não é que o gabiru veio para ali armar-se aos cágados a dizer que o Conselho Municipal de Educação devia ter participado na elaboração da Carta Educativa do Concelho de Estremoz? Até parece que não há gente na Câmara muito mais capaz que ele. Depois não se ficou por aqui, teve a lata de insinuar que aquele documento estava… estava… como foi que ele disse? ah, já sei, (já não me lembro é se foi ainda lá dentro ou já cá fora) o fulano disse que o documento estava “plagiado”, que é como quem diz, “copiado”, que não fazia… como é que era? pois, que “não fazia referência às fontes” – a meter água esteve ele o tempo todo – e que era um mau exemplo para todos. Que a Carta Educativa tinha erros... daqueles dos ditados, estão a ver? e que tinha também erros doutro tipo. Enfim, eu sei lá o que sujeito para lá disse. Maldizente, foi o que foi.
Mas é claro, naquela reunião estavam muitas pessoas importantes e elas saíram logo em defesa do Sr. Presidente. Então o tipo estava ali a armar-se ao pingarelho e não levava logo uma resposta não? Era o que faltava. Deram-lhe na corneta e bem.
Então não é que o gandim não teve respeito por ninguém? Respondeu mal a essas pessoas… Bom... mal é como quem diz, mas esteve mal, pronto, quase dava ares de que querer pôr‑se ao nível das pessoas importantes, não soube ficar no seu sítio. Deu para ali exemplos como se os outros fossem Tonhos. Tonho é ele, o estupor.
Mas, afinal, quem é que ele pensa que é?

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Perspectivas

Convido-vos a olharem para a imagem seguinte…

Certamente todos conseguiram ver duas coisas: um bando de aves e um rosto com o cabelo esvoaçante. Afinal a imagem é composta justamente por aves, as quais, em face da forma como foram desenhadas (arrumadas), compuseram um rosto feminino.
Mas não, o tema de hoje não é a Gestalt (termo intraduzível do alemão, utilizado para abarcar a teoria da percepção visual baseada na psicologia da forma). Recorri a este exemplo apenas para ilustrar que a mesma realidade pode ser interpretada de maneiras diferentes. É tudo uma questão de perspectiva.
Em muitos casos, a conflituosidade entre as pessoas resume‑se a isto: são incapazes de ver as coisas segundo a perspectiva dos outros. Havendo interesses em jogo, é no confronto que tudo se resolve. Tal como na selva, é a lei do mais forte que prevalece. Uns ganham, outros perdem, mas, no fim, todos lambem feridas.
Estas leis têm particular aplicação no domínio laboral. Se o patrão vir o empregado apenas como um recurso, facilmente será levado a pensar que quanto mais lhe pagar menos ele próprio ganha. Por sua vez, se o empregado vir o empregador como alguém que apenas pretende dele a sua força e criatividade, facilmente será levado a pensar que não deve oferecer à organização mais que o mínimo que lhe garanta a preservação do seu posto de trabalho. Se o fizer, está a ser parvo, ao permitir que outros engordem com o fruto da sua generosidade. Deste jogo de forças – em que uns querem muito trabalho a troco de pouco dinheiro; enquanto que os outros querem muito dinheiro a troco de pouco trabalho – estabelece‑se aquilo a que eu chamo “o equilíbrio fatal”, porque todos ganham o mínimo.
Mas as coisas não têm de ser, necessariamente, assim. Admitamos que ambos reconhecem que cada um quer o melhor que for possível para si próprio. Admitamos que o empregador está disponível a pagar mais se também ele ganhar mais. Admitamos finalmente que o empregado está disponível a dar o melhor contributo de si próprio se enriquecer em conjunto com o empregador. Que irá daqui resultar? A resposta é simples: todos ganham mais.
Esta é a essência do ad valorem.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 03 de Novembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

sábado, 21 de outubro de 2006

Portugal vale a pena

Não resisti. Atendendo ao teor da minha crónica "A piolheira" (ad valorem: A piolheira), entendi por bem reproduzir aqui o artigo de Nicolau Santos na Revista Exportar. Penso que há que exaltar aquilo que temos de melhor.

«...
Portugal vale a pena
Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém- nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores. Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende para mais de meia centena de mercados. E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.
Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou vários prémios internacionais. E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial , onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros).
Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática.
Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.
Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas . Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas vários dos melhores vinhos espanhóis. E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.
O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive - Portugal. Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses. Chamam -se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa, Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d'Oiro, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação. Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto Bay, BES Turismo e Amorim Turismo.
E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal, McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada estabelecimento da cadeia norte-americana).
É este o País em que também vivemos. É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com problemas na saúde, no ambiente, etc.
Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia. Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito. De nos orgulharmos disso. De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos - e não invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de palha. E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só futebolísticos, colocamo- nos também na situação de levar muitos outros portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito.
Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados,porque não hão-de os bons serem também seguidos?
Nicolau Santos, Director - adjunto do Jornal Expresso
In Revista Exportar
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sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Insegurança social

No dia em que escrevo a presente crónica completo 25 anos de descontos para impostos, pensões e assistência médica e medicamentosa. Quando iniciei a minha actividade profissional estava longe de imaginar o cenário com que hoje me deparo. Vi, como medida de combate ao desemprego, pessoas a reformarem‑se com 30 anos de serviço. Vi imensa gente a reformar‑se na casa dos 50 anitos e que andaram (alguns ainda andam) cerca de 30 anos a viver à conta do orçamento. Vi pessoas que passaram toda a vida a descontar pelo valor mínimo e que depois, a cinco anos da reforma, passaram a descontar com base em vencimentos fictícios e claramente inflacionados, adquirindo assim o direito a pensões de reforma claramente desproporcionadas em relação àquilo que efectivamente descontaram. Vi pessoas que compraram anos de reforma, pagando as respectivas contribuições, reformando-se logo de seguida. Vi um Ministro das Finanças que após uns mesitos no Banco de Portugal adquiriu o direito a uma pensão de uns milhares de euros bem chorudos. Assisti a isto tudo com a inocência dos ignorantes. Pensam que me revoltei quando vi pessoas a reformarem‑se daquela forma? Qual quê, até achei bem, cada um desenrasca-se o melhor que pode e não só eu no lugar deles faria o mesmo como só pensava que um dia – com o caminho que a coisa levava – eu iria reformar-me para aí ao fim de 25 anos de descontos, ou seja… agora. Estão a ver bem as figuras de parvo que, por vezes, fazemos sem querer? Estão a ver a irresponsabilidade que há em deixarmos os incompetentes decidirem o nosso destino? Estão a ver o que ganhamos quando fechamos os olhos a autênticos actos de pirataria do bem público? Ganhamos exactamente isto que agora temos como quase certo: andamos toda a nossa vida a descontar para as reformas dos outros e, quando a nossa vez chegar, o mais provável é que não haja ninguém a descontar para nós.
Aqui há alguns anos decidi que devia deixar de ser ignorante. Percebi que o conceito de “solidariedade intergeracional” – ou seja, os mais novos pagarem para os mais velhos – é a mais monumental treta do séc. XX e fiz contas: fiquei a saber que para uma esperança de vida de 75 anos, em termos médios, são necessários 43 anos de contribuições para se poder reclamar uma reforma por inteiro em relação ao último vencimento. Fiquei também a saber que se a esperança de vida for de 80 anos, já são precisos 47 anos ininterruptos de contribuições. Isto sem contar com o desemprego e com a assistência médica. Ficou para mim claro como a água que se as reformas dependessem das contribuições efectivas ninguém quereria fugir às suas responsabilidades; que se os subsídios de desemprego descontassem na reforma, ninguém quereria estar desempregado por mais tempo que o necessário para encontrar novo emprego. Ficou para mim igualmente claro que a solidariedade social terá de ser feita, necessariamente, através dos impostos.
Quero acreditar que ainda vamos a tempo.
[Publicado na edição do Jornal "Brados do Alentejo" de 20 de Outubro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Venturas e desventuras no reino da fantasia

Ainda se ouviam os acordes dos Pink Floyd plenos de actualidade, “Money! Get away…”, quando Portugal viveu os efeitos do choque petrolífero de 1973. Por essa altura a gasolina subia de preço de forma vertiginosa todas as semanas, de 7$50 passou rapidamente para mais de 12$00 (uma subida de mais de 60%, em apenas alguns meses). O povo desesperava, a interrogação mais frequentemente ouvida era: “– Onde é que isto vai parar?”
Mas, lá está, os portugueses sempre souberam rir-se da adversidade e cá pelo burgo, no corso carnavalesco seguinte, parodiou-se com isso: “– Próxima semana gasolina mais barata: 7$50 o meio-litro!”. Não havia razões para temer a censura: era Carnaval, logo, ninguém podia levar a mal. As pessoas riam. Bem, alguns levaram o seu tempo a perceberem a piada. Lembro-me de um sujeito explicar a outro que agora quando fosse à bomba o primeiro meio-litro era mesmo mais barato, o segundo é que já era mais caro.
Este episódio veio-me à memória a propósito dos escalões da água de consumo em Estremoz. De facto, recentemente, a forma como passou a ser cobrada a água alterou‑se. O propósito inicial até era louvável dado que, antes, na era Mourinha, toda a água era cobrada ao preço do último escalão de consumo. Mesmo já no final do mandato, a anterior administração municipal ainda encetou uma ligeira nuance, fazendo com que todos pagassem os primeiros 4 metros cúbicos (em 2 meses) a um preço mixuruca. O actual executivo, quis acabar com tal injustiça. No actual sistema todos pagam os primeiros consumos ao mesmo preço médio, já que a tarifação ocorre, efectivamente, por escalões. Vai daí, restava apenas ajustar o preço de cada escalão em função da inflação.


E aí está o resultado na tabela anterior. De 16 para 17 cêntimos ou de 85 para 87 cêntimos a diferença é, de facto, mínima. Só há um pequeno detalhe: os actuais escalões correspondem a metade do volume dos anteriores. Resultado final: aqueles que consomem até 5 metros cúbicos por mês viram a sua factura agravada em 78%.
Questionado sobre este assunto na última reunião da Assembleia Municipal o presidente disse, e passo a citar com o devido destaque: “– …!” (fim de citação). Afinal ele sabe que, como alguém dizia, “mais vale ficar calado e parecer tolo do que falar e não deixar qualquer margem para dúvidas!”. Questionado sobre onde estavam registadas as dívidas de factoring, de que reincidentemente se queixa, ele disse exactamente o mesmo (não me obriguem a citar por causa da falta de espaço).
Em sua defesa acorreram pessoas que, menos experimentadas, desconhecem a citação anterior. Disseram que eram as “meias verdades” desta coluna que andavam a mentir e que a derrama só afecta as empresas com lucros. Pois bem, para quem vive no reino da fantasia, faço apenas duas recomendações: (1) perguntem às pessoas se andam, ou não, a pagar mais pela água; (2) perguntem aos empresários abrangidos pelo regime simplificado de tributação se não tiveram que pagar derrama, mesmo evidenciando prejuízos.
Repare‑se que nem sequer estão em causa as políticas adoptadas. Têm virtudes e defeitos como todas. O que esteve em causa quando escrevi as “meias verdades” foi faltar‑se à verdade, pensava eu, de forma deliberada.
Mais preocupado fiquei quando percebi que eles nem sequer faltaram à verdade com intenção. Não sabiam!

[Publicado na edição de 6 de Outubro de 2006 do Jornal Brados do Alentejo (
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Democracia representativa

As últimas semanas foram marcadas por alguns factos dos quais destaco três. Passo a enumerar: (1) o acordo celebrado entre o PS e o PSD a propósito da Justiça; (2) o nó górdio que, felizmente, os eleitos republicanos nos Estados Unidos fizeram ao Presidente George W. Bush; e, finalmente, (3) o anúncio do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Os três temas estão todos relacionados com um quarto que, aliás, também já foi chamado a debate: a arquitectura do sistema político em Portugal.
No que concerne ao acordo celebrado entre o PS e o PSD as reacções ao mesmo foram variadas. Para alguns – entre os quais me incluo – o acordo em si (independentemente da substância do mesmo) constitui motivo de regozijo, porquanto demonstra que, ainda que por excepção, os partidos políticos são capazes de olharem para além do seu próprio umbigo. Para outros, tal acordo é sempre mau, na medida em que restringe os mecanismos da democracia ao excluir de tal entendimento os restantes partidos. Finalmente, para outros ainda, o acordo é igualmente mau porque se os partidos da área do poder convergirem numa qualquer solução que venha a revelar‑se mal sucedida, tal equivale a mandar apagar a “luz ao fundo do túnel”, minando a confiança dos eleitores no sistema democrático.
Nos Estados Unidos a actualidade foi marcada pelo facto dos eleitos do Partido Republicano se terem rebelado contra as propostas do seu Presidente que limitavam significativamente os direitos individuais (em nome da luta contra o terrorismo). A explicação de tal facto é simples: as eleições para o Congresso estão à porta e lá, ao contrário de cá, cada candidato responde perante o respectivo distrito eleitoral. Ou seja, ninguém se esconde atrás de siglas; os eleitores votam em pessoas que responsabilizam directamente. Neste contexto, Bush só podia mesmo era dar com os burrinhos na água.
Aparentemente o primeiro tema nada tem a ver com o segundo, porém, não é bem assim. Eu explico: a) se em Portugal houvesse deputados eleitos em círculos uninominais, dificilmente os líderes dos partidos poderiam subscrever pactos com o figurino daquele que foi anunciado; por outro lado, b) jamais um chefe de governo poderia ditar o sentido de voto dos eleitos de outro órgão de soberania, ainda que em listas do seu próprio partido. Alcançaram agora?
E o que tem isto a ver com o referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez? Nada, na substância, mais uma vez; tudo, no que concerne aos modelos de democracia representativa. Na verdade, as democracias referendadas são as mais genuínas. Assume‑se como pressuposto que o exercício da cidadania não é palavra vã e, por outro lado, que os eleitos não são divindades que tudo podem decidir por nós.
O estranho é que os partidos que até bem pouco tempo defendiam a democracia popular, ou seja, plenários com voto de braço no ar, sejam exactamente aqueles que se manifestam contra o referendo. Então agora já não querem consultar o povo? Ou é só porque tal voto é secreto?

[Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" em 22 de Setembro de 2006 (
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

domingo, 10 de setembro de 2006

Ossa dos ofícios

Aqui há alguns anos, quando se apostou na iluminação pública dos monumentos nacionais em Estremoz, houve alguém que disse: “Pode ser que, doravante, as pessoas comecem a ver de noite aquilo em que não reparam durante o dia!”.
Está sempre a acontecer: damos valor à saúde quando ela nos falta, raramente reconhecemos méritos às pessoas em vida, reclamamos por um ambiente mais saudável quando ele já nos é hostil, e por aí adiante… Com a Serra d’Ossa passou‑se sensivelmente o mesmo: foi preciso arder para que muitos dos nossos conterrâneos se voltassem a lembrar dela.
Vamos então aproveitar a única coisa positiva que o incêndio nos trouxe: chamar a atenção sobre um importantíssimo recurso que, a meu ver, está subaproveitado. Na verdade, neste momento a lamúria fatalista não nos leva a lado nenhum. O que ardeu, ardeu. É passado. Não queimemos agora o nosso ânimo. Vamos antes passar a olhar para a nossa Serra de uma outra forma bem mais positiva e afirmativa e, já agora, vamos tirar o adequado partido daquilo que ela (ainda) tem para nos dar. (Não só porque não ardeu toda, mas também porque a natureza se encarregará de lhe devolver a pujança dentro de algum tempo.)
A Serra d’Ossa é rica sob várias perspectivas. Ao relevo estão associadas outras riquezas que transcendem a flora e a fauna agora afectadas, porquanto persiste um património histórico (megalítico e neolítico) e cultural com potencialidades no domínio de diferentes vertentes turísticas (ecoturismo, turismo histórico, cultural, gastronómico, de aventura, …). O mais interessante é que a denominada linha do Meio Mundo (separação das águas que escorrem para a bacia do Tejo, Tera, e para a bacia do Guadiana, Lucefecit) favorece claramente o concelho de Estremoz, tornando o nosso “meio” mundo maior que a outra “metade”. No entanto, também não nos importamos que tais riquezas escorram para as outras abas da serra, porquanto não só chegam para todos como se podem estabelecer interacções interessantes, em perfeita simbiose, que beneficiam globalmente todos os concelhos que partilham a Ossa.
Em tempos, a Ossa foi património de que os monges eremitas do Convento de S. Paulo tiravam partido. (A aptidão agrícola ficava circunscrita a pouco mais que ao Canal. Restava a aptidão silvícola e… a oração) Hoje, há lugar para todos: para os puristas (que apenas defendem os percursos pedestres), para os percursos motorizados, para o turismo de aventura com actividades outdoor, para a silvicultura e para a produção de energia eólica.
Se não conseguirmos fazer nada, regozijemo‑nos com a paisagem grátis (ou à borla, se preferirem).

[Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" em 08 de Setembro de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

1. Águas furtadas II 2. Meias verdades

  1. Finalmente! Lá acertaram uma. Já não era sem tempo. Depois dos “sucessos” na apresentação das contas, na FIAPE ou na JUVEMOZ, (apenas para citar os exemplos de que a generalidade da população se apercebeu), os órgãos do Município de Estremoz – Câmara e Assembleia Municipais – lá tomaram uma decisão arrojada, em clara ruptura com um passado de indefinição de má memória. Refiro-me, naturalmente, à decisão de cortar em definitivo com a AMAMB e a posterior adesão ao sistema multimunicipal das Águas do Centro Alentejo.
    Curiosamente, uma das principais críticas dos opositores a esta solução traduz-se, afinal, na sua maior virtude: a relativa desmunicipalização dos serviços de águas e saneamento.
  2. “Para a mentira ser segura / e atingir profundidade / deve trazer à mistura / qualquer coisa de verdade” (António Aleixo). Não sei (nem tenho forma de saber) se o poeta cauteleiro – quando escreveu a quadra antes citada – pretendia avisar-nos do modo de operar dos trafulhas qualificados ou se, pelo contrário, nos estava a querer ensinar alguma “fórmula de sucesso”. (Não sei mesmo o que pensar.) De qualquer modo, isso agora não importa nada. O que importa é ter presente que uma “meia verdade” pode ser equivalente a uma “aldrabice completa” ou, no mínimo, a uma mentira piedosa. Vou dar dois exemplos: A) Andaram para aí a dizer-nos que a derrama municipal não ia produzir qualquer efeito prático para a generalidade das empresas sedeadas no concelho de Estremoz. De facto, até nos disseram que as empresas que não tinham lucros não iriam pagar qualquer derrama. Ora, acontece que a verdade (a verdadeira, sem truques) tem alguns detalhes que se esqueceram de nos dizer. Um deles é que actualmente as empresas pagam impostos mesmo sem terem lucros. Nuns casos, fazem-se os denominados “pagamentos especiais por conta”; noutros, as empresas são inseridas no “regime simplificado de tributação” onde, do mesmo modo, pagam impostos, tenham lucros ou não. O outro detalhe que se “esqueceram” de nos informar é que neste caso as empresas pagam também derrama municipal no valor mínimo de €75. B) Andaram para aí a fazer uns ajustes nos escalões da água para tornar mais justa a factura que cada um paga. O engraçado é que eu no tempo em que as facturas eram injustas pagava a água a cerca de €1,08 por m3. Agora que os escalões são justos pago a mesma água a €1,38, ou seja, 30% mais cara. Quem consome 5m3/mês antes pagava €0,35/ m3; agora paga €0,62. Ah, já esquecia, dizem-me que não houve agravamento no custo da água. Pois…

    [Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" em 28 de Julho de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

O Portugal dos pequenitos

Bandeiras. Confesso que não sou muito dado a adornos nem a competições de portuguesismo, mas gosto de as ver nas janelas. Não sou nacionalista, mas adoro o meu país. Gosto das nossas gentes, das peculiaridades dos portugueses. Temos defeitos, é certo – muitos mesmo, talvez demais –, mas também possuímos virtudes únicas.
No estrangeiro é fácil reconhecer um português mesmo sem o ouvir falar ou a falar outra língua. (E não, não é por estar a comer sardinha assada e a beber vinho tinto.) Mesmo que os portugueses estejam “descaracterizados”, digamos assim, rapidamente os identificamos.
Primeiro, pela fisionomia: olhamos-lhe para a cara e dizemos “aquele é português!”. Mas cuidado, pode ser turco. Turco? Sim, turco. Segundo João Ferreira do Amaral houve povos que na antiguidade pré-clássica (II milénio antes de Cristo) se deslocaram da Anatólia (mais ou menos na actual Turquia, para não complicar) e se instalaram no espaço que hoje é Portugal. E, de facto, embora muita gente o negue, a verdade é que somos parecidos, tipo “tromba de um, focinho do outro”.
Depois, pela irreverência divertida que nos caracteriza. Se virmos um homem a beijar uma estátua ou uma mulher a apalpar uma armadura de um guerreiro medievo, é forte a probabilidade de ele e ela serem portugueses. E esta não falha: se ouvirem uma sonora gargalhada num museu em que todos cochicham para não perturbar o deslumbramento com a arte, tal ruidosa forma de rir é, seguramente, portuguesa.
Este povo, rico em contrastes, uniu-se recentemente em torno de emoções fortes: o futebol. Lá tivemos, uma vez na vida, algumas razões de alegria (embora até da tristeza saibamos rir). Desfraldámos bandeiras, colorimos o país no orgulho da portugalidade… Mas não todos!
Alguns de nós, que passam a vida no autocomprazimento e na lamentação, entenderam que só punham bandeiras quando Portugal isto, quando Portugal aquilo ou quando Portugal aqueloutro. Outros pretenderam considerar menores aqueles que se emocionam com o futebol, considerando “escandaloso” que algumas empresas mudassem turnos de produção para permitir o visionamento do Portugal – México. Para eles, somos o Portugal dos Pequenitos, com resquícios de Terceiro Mundo, incultos, grosseiros e sabe‑se lá que mais…
Tais seres, do alto da sua superioridade, parecem não compreender coisas elementares: não são os pequenitos os culpados das nossas insuficiências. Os pequenitos, afinal, sabem reconhecer a excelência onde ela existe. E, no futebol, somos dos melhores.
Obrigado Scolari!


[Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" em 14 de Julho de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

DECE…

DECE é uma sigla cujo significado é: Desenvolvimento Económico do Concelho de Estremoz. Se antes do “D” colocarmos um “E” (de Empresa) a sigla daí resultante (EDECE) já passa a significar… DESCALABRO!
Corria o ano da graça de 2004 quando alguém desejou um promissor e fecundo futuro para os seus concidadãos. Era desta: com uma empresa municipal a gerir o parque de feiras, tudo iria ser mais fácil. E foi, de facto, fácil… ainda não tinha decorrido um ano já a empresa estava “equipada” com 9 (nove) pessoas. No final de Outubro de 2005, com toda a facilidade, a empresa já acumulava dívidas de MEIO MILHÃO DE EUROS.
Ora, com este desenvolvimento todo, podemos mesmo é dormir descansados. Não tarda, ultrapassamos o Burundi (país africano da região dos Grandes Lagos, onde nasce o Rio Nilo, cujo lema é: Unidade, Trabalho e PROGRESSO). Aliás, o nosso progresso é muito similar ao do Burundi só que… mais a pique.
Preocupada com a situação, a autarquia já disse que, por sua vontade, acabava com a EDECE, mas nunca, jamais, com o DECE. Aliás, as expectativas para o corrente ano de 2006 nem podiam ser mais elevadas. A Câmara Municipal de Estremoz previu um crescimento das receitas e despesas de… apenas 67%. Aliás, está-se mesmo a ver, com o desenvolvimento que nos caracteriza, é tão fácil atingirmos tal meta como a um miúdo crescer de 1 metro para 1,67 entre Janeiro e Dezembro. Canja… pice ófe queique!
O intrigante é: como conseguiram aqueles senhores apresentar o orçamento municipal sem se deixarem rir?
Chegados aqui, acabe-se com a EDECE. Mas atenção: a autarquia não nega a possibilidade de vir a criar uma nova empresa municipal. Afinal, o que está em causa não é a Gestão Empresarial; é, sim, a falta dela. Portanto, tudo bem quando acaba em bem. Vamos a ela. Já não será a EDECE, mas irá comportar o inevitável DECE, porque é de Desenvolvimento que a malta precisa como de pão para a boca.
O que não bate certo é o seguinte: fez‑se uma auditoria às contas da EDECE até Outubro de 2005. Portanto, daí para a frente até hoje devemos presumir que já tudo correu bem. Assim sendo, para quê acabar com a EDECE? Faltava o Gestor? Ah, ele queria uma empresa novinha em folha? Pois, deve ter sido isso. Com outras... com outras… onde é que eu ia? Ah, dizia eu, com outras pessoas já a coisa vai correr bem.
Parece-me que há aqui alguém que vai ter de tirar o cavalinho da chuva…
E é assim a nossa vida. Doravante quando nos voltarem a falar de desenvolvimento económico de Estremoz, haverá sempre quem diga:
– DECE!


[Publicado no Jornal "Brados do Alentejo" em 30 de Junho de 2006 (http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

1. Zaragatas à moda antiga 2. Uma granada para o Sr. Presidente 3. Que Sena...

  1. Dantes, durante séculos, as discussões caracterizavam‑se assim: (1) dois tolos (pelo menos…); (2) fraco domínio sobre o assunto discutido; (3) orgulho possidónio, traduzido numa inquebrantável vontade de “ganhar” a discussão custasse o que custasse.
    Para uma boa discussão à moda antiga – as quais, invariavelmente, acabam numa autêntica zaragata (com ou sem sopapos à mistura) – os ingredientes apresentados são, todos eles, indispensáveis. Primeiro porque sem dois tolos (pelo menos…) não há discussão possível. Segundo, porque apesar de bastar que um dos antagonistas não saiba bem do que está a falar, a outra parte – ainda que dentro da razão (o que quer que isso seja) – continua a revelar um deficit de inteligência ao pensar que consegue vergar por argumentos o adversário. Terceiro, porque só mesmo um palerma dos mais obtusos pensa que consegue ganhar uma discussão, sem ganhar também o ressentimento do amor-próprio ferido do perdedor.
    Em suma, não é a “ganhar” discussões que se consegue puxar os outros para o nosso ponto de vista.
    Porque será, então, que as discussões à moda antiga continuam tão actuais?
  2. Quem não discutiu rigorosamente nada foi o último Presidente da 2.ª República, Américo Thomaz. Foi nos anos setenta, numa altura em que já Marcello Caetano negociava secretamente a saída das tropas portuguesas da Guiné, que o Contra-Almirante veio ao Roucanito fazer uma “porta” às perdizes. Depois do esforço, Sua Excelência dirigiu-se ao Monte de Lavoura onde os assalariados rurais, fardados de pelicos e safões, o aguardavam cheios de curiosidade. Quando o velho Presidente os viu, quis ir falar com eles. Quis saber como corria a vida daquela boa gente, que achava merecedora da sua atenção. Disse-lhes que as coisas iriam melhorar e muito com a construção do Alqueva, lá para os anos 80, mas que ele já cá não iria estar para ver, porque se sentia muito fraquinho, com os anos a pesarem. Nisto um pastor sugeriu: “Isso com uma granada passa, Sr. Presidente!”… Foi o cabo dos trabalhos explicar aos agentes da DGS/Ex-PIDE (que ali faziam de mochileiros) que o pobre homem apenas recomendava um prato de grão-de-bico com carne e enchidos.
  3. Foram intensas e aguerridas as discussões que travei com o José Sena. Lembrei-me delas no dia em que assisti ao lançamento de um livro em sua memória. Por cá é lugar comum dizer bem daqueles a quem a vida já fugiu. Por isso não o vou fazer. Entre um prato de caracoletas, num intervalo das aulas, discordei, contestei, rebati argumentos. Disse-lhe em vida tudo quanto me apeteceu…
    [Publicado em 16 de Junho de 2006 no Jornal Brados do Alentejo (
    http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt)]

A piolheira

Consta-se que certo dia D. Carlos, pela graça de Deus Rei de Portugal, se referiu ao seu país como sendo a piolheira. Não raras vezes o artista, o cientista internacionalmente reconhecido, o diplomata, o desportista, o poliglota, o exímio atirador, achou que não teve em sorte um povo à sua altura. Logo a ele, que resultava do cruzamento de quase todas as casas reais da Europa, lhe havia de calhar a coroa que nenhum dos seus primos (como ele coroados) ambicionava.
Pobre sorte a do homem.
Pois é, agora que sabemos que D. Carlos um dia não teve tento na língua, vamos aproveitar a malhá-lo: peneirento…
Porém, convenhamos, D. Carlos não foi o único a ter má impressão de Portugal. Basta olharmos um pouco para vermos muito boa gente – menos conhecida, é certo – que passa a vida a zurzir no seu país e nos seus concidadãos. Em termos práticos, tais situações configuram uma baixa auto-estima colectiva.
Depois, tal como provavelmente se passou com D. Carlos nas tertúlias com os primos, quando os estrangeiros dizem mal de nós, pensamos que só temos uma safa: defendermo-nos? Nem pensar! A solução é alinhar no coro de maledicência.
No entanto, curiosamente, não são os estrangeiros que nos conhecem, por cá trabalharem, que dizem mal. São aqueles que nem sequer sabem bem onde fica este país. Os outros surpreendem-se primeiro (quando cá chegam já vêm envenenados) e depois surpreendem-nos na defesa efectiva das nossas virtudes. Há cinco séculos inventámos o astrolábio e fomos pioneiros na exploração dos mares; agora temos outros motivos de orgulho, em situações que a generalidade das pessoas desconhece.
Por exemplo, há anos constatei um pormenor curioso: quando já havia Multibanco em Vila Nova de Milfontes e era para nós trivial usá-lo, corri Londres a pé, durante um dia inteiro, sem encontrar uma única caixa automática. Quando finalmente encontrei uma, (no Royal Bank of Scotland, nunca mais me esqueci), pensei que bastava procurar agências daquele banco para ter o problema resolvido. Puro engano. Fiquei a saber que aquela caixa (que já por acaso encontrei) era uma das poucas que existiam a título experimental.
A Via Verde, os cartões pré-pagos (quer em cabines públicas quer em telemóveis), são exemplos de soluções concebidas em Portugal e, nuns casos, agora exportadas e, noutros, meramente copiadas lá fora, porque não soubemos fazer valer a nossa originalidade. A nossa rede de fibra óptica permite-nos ter uma das melhores ligações por cabo do mundo. Utilizamos o home-banking mais e melhor que lá fora, e apostamos no EuroMilhões sem sair de casa.
Criativos e inovadores, somos capazes. Vamos lá levantar o astral…
(Publicado em 02 de Junho de 2006 no Jornal Brados do Alentejo
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)

Mar à vista

Do alto do cesto da gávea alguém bradou: “ – Mar à vista!”. Ansiosos por rumar para porto seguro, aquela não era exactamente a mensagem que a tripulação e passageiros esperavam ouvir. Uns ficaram tristes, outros apenas resignados. Que haviam de fazer? Sabiam, é certo, que tinham embarcado num navio antes capitaneado por um comandante nada metódico, completamente intuitivo. De facto, era alguém que desprezava completamente quaisquer instrumentos de navegação, rumando para onde o vento o empurrava. Tinha, entretanto, algumas virtudes: era jovial e bem disposto. Sempre que havia mau tempo, saía da ponte de comando e misturava‑se por entre os passageiros animando‑os, que estava tudo bem, que não havia nenhum problema. Por vezes não dava para disfarçar, os problemas eram evidentes, então culpava os faroleiros, uns autênticos talibans que apenas existiam para lhe infernizar a vida. Os passageiros dividiam‑se: uns faziam coro a esconjurar os faroleiros; outros sabiam que a culpa não podia ser só dos talibans.
A dada altura a tripulação entendeu que chegava de mau governo. Decidiram começar a procurar um novo comandante, escolhendo o imediato para tal função. Pessoa inteligente, culta, mas humilde e de excelente trato. Entretanto, o comandante pensou que se não era desejado pelos seus comandados, então o melhor mesmo era requerer à Coroa as 2700 pipas de rum a que pensava ter direito. Viveria bem, sem preocupações. A surpresa veio quando a Coroa lhe comunicou que apenas tinha direito a pouco mais de 1400 pipas. Afinal tinha gerido a sua reforma da mesma forma que tinha comandado o navio.
A esperança renasceu quando chegou o novo comandante. Foi escolhido em concorrência com o anterior imediato, por pouco, mas foi. Era alguém que queria o “melhor para os passageiros”, portanto, era desta que iríamos navegar em águas tranquilas.
Porém o mar, teimosamente, permaneceu encapelado, tão bravio que já tinha começado a provocar enjoos nos passageiros. Mas o pior estava para vir: o comandante anunciou que o navio estava a meter água. Nada de alarmante, era apenas um “rombozito”…
A partir dessa altura tripulação e passageiros passaram a viver em inquietação. Não tiravam os olhos do gajeiro, o homem que do cesto da gávea tinha acabado de gritar que terra nem vê-la. Por vezes alternavam mirando os peixitos que acompanhavam o navio para o bem e para o mal. A dada altura chegaram a pensar que iriam ver muitos golfinhos, águas límpidas, palmeiras junto à costa. Mas não, agora o que viam eram barbatanas de peixes de grande porte, vulgarmente designados por tubarões, daqueles que comem tudo o que mexe.
Aí chega o comandante e tranquiliza todos: “eles só gostam de peixe”…
(Publicado em 19 de Maio de 2006 no Jornal Brados do Alentejo
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)

Contas que vos conto

Tenho seguido com atenção a nova novela em exibição na Câmara e Assembleia Municipais de Estremoz. A propósito dos documentos de prestação de contas do Município de Estremoz gerou-se uma disputa assaz invulgar, a qual incluiu maus modos de alguns dos contendores – com trocas de piropos e tudo – e algum nonsense típico do humor britânico. Em suma, um verdadeiro campeonato da teimosia, do “eu sei e tu não sabes”, do “eu tenho razão e tu não tens”.
Explico rapidamente o que se passou: o Município, tal como qualquer colectividade ou empresa, tem que prestar contas. Aconteceu, porém, algo de atípico: na Câmara Municipal todos os membros se abstiveram na votação (0-7-0). Ora, isto é tão normal como na final da Liga dos Campeões ser o árbitro a levar a taça.
Não vou discorrer sobre os argumentos jurídicos e políticos bramidos na Assembleia Municipal. Refiro apenas o insólito de este órgão se ter visto a braços com um documento “não aprovado” e, ao mesmo tempo, “não rejeitado”. Segundo percebi, o elenco socialista não quis votar a favor porque a responsabilidade da gestão em 2005 foi maioritariamente da CDU (10-2). A CDU, por sua vez, não quis votar a favor porque o “relatório” que acompanhava as contas tecia considerações nas quais não se revia. Portanto, para resolver esta divergência, bastava que o “Relatório de Gestão” e as “Demonstrações Financeiras” tivessem sido objecto de votação separada. Mas não. Vá lá saber-se porquê, alguém entendeu que os dois documentos tinham de ser votados em conjunto, e mais para aqui e mais para lá…
Permito-me referir algumas observações factuais:
(1) As demonstrações financeiras são documentos técnicos. Logo, são documentos que dizem “o que foi” e não “o que deveria ter sido”. Assim, em circunstâncias normais, só não se votam favoravelmente quando existam indícios de irregularidades nos mesmos e, por outro lado, só se votam contra quando tais indícios são tão fortes que devam ser comunicados ao Ministério Público. Deles podem ser retiradas todas as ilações políticas que se queiram, porém o que está em causa são as “demonstrações” e não as ilações.
(2) O “Relatório de Gestão” é um documento em que se procede a uma interpretação (naturalmente, subjectiva) dos factos observados. É, por conseguinte, um documento político e, como tal, já admite qualquer tipo de votação.
Perante isto o executivo só tinha de suprir qualquer vício que as contas tivessem. Se estivessem mal, corrigia-as. Agora abster-se?... Não aprovar e não rejeitar os documentos de prestação de contas não é carne nem é peixe, será quando muito “bifinhos em filetes de soja”. Enfim …
(Publicado em 05 de Maio de 2006 no Jornal Brados do Alentejo
http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)

1. ad valorem 2. Águas furtadas 3. O "Eduquês" em discurso directo

  1. Já antes havia sido desafiado para subscrever uma coluna num jornal. Na altura optei por fazer “Observações” – assim se chamava o cantinho que me reservaram –, pequenas notas satíricas sobre a realidade que então vivíamos. Agora volto a escrever sobre temas “sérios” e, uma vez mais, vou estar em aparente desvantagem relativamente aos que têm jeito para contar histórias, ou em relação aos que conseguem apimentar as suas prosas com refinado sentido de humor. Todavia, acredito ser possível tratar com seriedade temas do nosso quotidiano e, em alguns casos, sem menosprezar a sua importância, talvez até nos consigamos rir das nossas próprias desventuras.
    Desta feita a coluna chama‑se ad valorem. Reflecte a convicção de que as pessoas têm valor e de que têm valores. Mesmo os mais burgessos. Logo, possuímos os ingredientes necessários para ultrapassar obstáculos e para vencer contrariedades.
    Cada coluna poderá ter um ou, tal como hoje acontece, mais títulos. Tudo vai depender do número de temas prementes, da profundidade dada a cada abordagem e, naturalmente, da gestão do espaço de que disponho.
  2. “Águas furtadas” é o segundo título de hoje. Já irão perceber que este é para ser interpretado literalmente. Não sei se li, não sei se ouvi, que um dos furos da captação das Chocas está seco ou praticamente seco. O que a mim causa imensa estranheza é que soubemos disto logo num ano caracterizado por uma relativa abundância de pluviosidade. Se tal tivesse acontecido no ano passado – claramente um ano de seca – já não se estranharia rigorosamente nada. Agora este ano? Uma de duas: ou tal furo já secou há mais tempo; ou, caso contrário, esta história está mal contada. A boa notícia é que, por enquanto, ainda não houve (que eu saiba) cortes no abastecimento. Fala‑se que água está a vir da cerca do Convento de S. Francisco (Quartel de Cavalaria), de alguns furos e nascentes cedidos por particulares e – também já ouvi esta – do Sátiro. A ser verdade, quem ficaria a perder seria o Gadanha. No entanto, a autarquia esclarece que a secura do lago (ainda é lago?) se deve a fissuras provocadas pela instalação dos repuxos. Portanto, leia-se, culpa de outros… Alguém faz o favor de nos esclarecer? Já agora: tranquilizam-nos também a propósito do tratamento das águas de consumo público?
  3. Este é o título do livro que li durante a pausa lectiva da Páscoa. Nele o autor, Nuno Crato – doutorado em Matemática Aplicada e docente no ISEG –, “disseca com rigor e impiedade os lugares‑comuns em educação.” Recomendo… muito mesmo!
    (Publicado em 21 de Abril de 2006 no Jornal Brados do Alentejo
    http://bradosdoalentejo.com.sapo.pt/)

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